Você sabe o que é ser um Líder Positivo?

Ativista pela sustentabilidade há mais de 40 anos, Sara Parkin esteve no Congresso GIFE para falar sobre seu último livro “Divergente Positivo” (Positive Deviant), traduzido para o português pelo Instituto Jatobás

 

Sara Parkin, criadora do Forum for the Future, explica em entrevista para o GIFE um pouco sobre os conceitos do líder positivo – tema do seu último livro “O Divergente Positivo: Liderança em Sustentabilidade em um mundo perverso -, como ele se dá ao longo da vida e como ele se adapta a um país emergente como o Brasil, em que a estratégia de crescimento baseia-se no consumo.

O que é ser um Divergente Positivo? Quais são os atributos de uma liderança positiva?
Um Divergente Positivo é alguém que faz a coisa certa para a sustentabilidade, mesmo estando rodeado de estruturas institucionais, processos e pessoas que não estão buscando cooperar para uma mudança positiva na sociedade.

Divergentes Positivos (DP) ganham confiança através do seu conhecimento sobre sustentabilidade e liderança. Sua autenticidade vem da sabedoria que têm de si mesmo e de suas capacidades pessoais. Lidam com tranquilidade com técnicas para entender sistemas e solucionar problemas complexos. Como os DP são cientes de que desenvolvimento sustentável é diretamente relacionado à mudança de pensamento e comportamento, estes sabem como engajar e mobilizar pessoas, especialmente através de parcerias com atores diversos que são essenciais para remover obstáculos e abrir oportunidades.

Uma liderança sustentável difere da comum, porque é algo muito maior do que o indivíduo, sua organização, ou até mesmo de sua família e país. É por um bem maior, que abraça toda a vida na Terra, incluindo toda a humanidade e as gerações futuras.

Como ser um líder positivo em um país emergente, em que parte significativa de sua estratégia de crescimento está baseada na ampliação do consumo?
A essência do desafio da sustentabilidade é migrar de uma econômica baseada em muitas pessoas consumindo muitas coisas para uma com menos pessoas que consomem menos. É um enorme desafio, mas não impossível. Pode-se argumentar que, se não fizermos essa mudança o mais rápido possível, o meio ambiente naturalmente nos forçará a isto.

Continuar pressionando o pedal da mesma lógica que nos trouxe ao caos ambiental, à desigualdade em escala criminosa e a um sistema financeiro afogado em dívidas não faz mais sentido. E isso vale para todos os países, ricos e pobres, para o Brasil, para qualquer outro lugar. O Brasil não é o único a experimentar uma falta de imaginação e inovação – especialmente no governo – em torno de como as coisas poderiam ser feitas de forma diferente. Se você pensar sobre as coisas que as pessoas querem mais do que tudo – para se sentirem bem consigo mesmas, seus relacionamentos, e com o local onde vivem – então por que não construir uma economia para entregar estes resultados? Se focarmos em primeiro lugar no desenvolvimento humano, social e ambiental, o dinheiro vai seguir esta lógica. Um artigo recente na revista Nature está fazendo uma discussão para acabar com o PIB como medida do sucesso econômico. Este artigo que escrevi dá exemplos sobre isto.

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Não há nada que impeça o Brasil de priorizar atividades que proporcionem benefícios para as pessoas e a natureza diretamente. É provavelmente a melhor apólice de seguro para um futuro em que a resiliência das economias e das sociedades (e sistemas ecológicos) vai se tornar a verdadeira riqueza das nações. A ideia por trás do livro “O Divergente Positivo” (“The Positive Deviant”) é que o ponto de intervenção fundamental é a construção das capacidades das pessoas para decidir e agir de uma forma que contribua para a sustentabilidade, o que coloca a educação e a formação na linha de frente da mudança para uma economia de futuro que tem resultados de sustentabilidade em seu coração.

Como a filantropia pode influenciar a mudança de comportamento das organizações e da sociedade de uma forma mais ampla?
Fundos independentes podem ser rápidos e flexíveis na forma como investem, mas tendem a preferir projetos individuais e resultados tangíveis dentro de curto prazo. Na Europa, o investimento social estratégico é uma abordagem relativamente nova na forma de doar, o que significa que os financiadores têm uma ideia suficientemente compartilhada de quais os resultados desejados e uma estratégia cuidadosamente projetada para alcançá-la. Suas iniciativas incluem envolver fortemente aqueles que vão lidar com as consequências de qualquer intervenção, além daqueles que serão necessários para sustentar a mudança depois que os primeiros financiadores deixarem de investir. Isso pode ser um processo longo, que exige habilidades diplomáticas, mas não pode ser ignorada.

O investimento social estratégico pode colaborar em diferentes partes de uma mesma iniciativa, pode manter o financiamento durante longos períodos de tempo e pode usar modelos financeiros e de governança inovadores que ajudem a trazer escala. Eles também podem usar o seu investimento para alavancar outros fundos.

Como se dá o processo de construção da liderança positiva ao longo da vida?
Alguém disse que, se você parar de aprender, você está morto. E nós temos muito a aprender sobre como decidir e agir de uma forma que contribua para o desenvolvimento sustentável. O que poderia ser um projeto pessoal mais emocionante e positivo do que este?

E claro, você não está sendo um bom líder se ninguém quer segui-lo. Esta é a lição da luta solitária pela sustentabilidade. Ao dizer às pessoas que elas estão matando o planeta, as regras básicas de mudança de comportamento estão quebradas. As pessoas se sentem culpadas e assim param de lhe escutar. Ninguém quer seguir uma pessoa negativa.

O Divergente Positivo está sempre usando uma proposta positiva para desviar de obstáculos e objeções em busca de uma oportunidade para a mudança. O Divergente Positivo também sabe que para alcançar a mudança de comportamento das pessoas, três coisas tem que estar presentes. Primeiro, a pessoa ou organização tem que ter a infraestrutura disponível para isto. Segundo, as pessoas precisam de conhecimento e habilidades necessárias. E, finalmente, é necessário enxergar significado em fazer as coisas de forma diferente. Um sentimento de pertencimento a um grupo maior e de prazer é um feedback positivo em fazer a coisa certa.

O mesmo se aplica para as pessoas que já estão em posições de liderança – que raramente têm os conhecimentos e habilidades para a tomada de decisões complexas sobre as mudanças em tempos de incertezas, e muitas vezes pensam que cuidam ou do meio ambiente ou das pessoas. As oportunidades estão nas sinergias entre estas duas coisas, e é claro, o Divergente Positivo tem que trabalhar duro para demonstrar isso.

Tal mudança levará décadas – talvez o resto deste século. Assim, os Líderes Sustentáveis tem uma vida inteira de trabalho entre várias gerações. No entanto, quanto mais tempo demorar para começarmos, mais difícil será.

Conteúdo reproduzido com pequenas adaptações a partir do original, publicado no site do Congresso GIFE.

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