Vida empacotada

Empresas avançam sobre bens comuns materiais e imateriais para desenvolver novos produtos e nos convencer a pagar pelo que um dia já foi gratuito

Crédito: Creative commons/ pure9

 

Quer matar as saudades daquele cheirinho da grama recém-cortada? Ou, quem sabe, prefira o odor da chuva? Seus problemas acabaram! Esses são apenas 2 dos 250 aromas disponíveis no catálogo da Demeter Fragrance Library, empresa nova-iorquina que vive de vender fragrâncias “inspiradas em objetos e experiências do dia a dia”. Por enquanto, a marca não embarca seus produtos para o Brasil, mas bastam uns minutinhos de pesquisa na internet para encontrar quem o faça. Tudo, é claro, por um preço módico e mais custos de postagem.

Não é a primeira vez – nem será a última – que uma empresa fatura oferecendo produtos e serviços que, de tão triviais, beiram o ridículo. Essas histórias de sucesso servem como prova de conceito para um fenômeno que tem desdobramentos bem mais profundos: é relativamente fácil construir produtos e serviços inspirados em recursos comuns [1] que estão disponíveis a todos. Em alguns casos, basta empacotá-los.

    [1] Classe de recursos, tanto naturais como feitos pelo homem, dos quais todos podem usufruir sem a necessidade de pagamento.

Em princípio, não há nada de errado em explorar uma oportunidade. Mas nem sempre a criação de um novo produto será tão inócua como com os cheirinhos nostálgicos da Demeter. Não faltam casos em que, para serem empacotados, os bens comuns precisam se tornar menos disponíveis; seja pela via da privatização pura e simples, seja como consequência da chamada tragédia dos comuns [2]. “A única maneira de um produto ter valor de venda é restringir o acesso. Quanto mais escasso, maior o valor comercial”, explica o economista e professor da PUC-SP, Ladislau Dowbor.

    [2] Armadilha descrita pelo biólogo Garrett Hardin. Como os benefícios da exploração de um bem comum são individuais, e a responsabilidade por sua conservação é difusa, cria-se um padrão que pode levar à superexploração e eventual exaustão.

Um exemplo foi o que aconteceu na cidade paulista de Bertioga depois do lançamento da Riviera de São Lourenço [3] no final dos anos 1970. Praias públicas passaram a ter seu uso praticamente restrito aos moradores do condomínio, acessado por uma única entrada que delimita o espaço. “Quando eu era mais jovem, costumava nadar lá. Hoje, só poderia entrar naquelas praias se comprasse um imóvel”, exemplifica Dowbor.

    [3] A Riviera é um condomínio fechado ocupado, quase exclusivamente, por imóveis de veraneio de alto padrão.

Isso não significa que todos os processos do tipo sejam tão evidentes. “Eles vão comendo pelas bordas”, alerta o sociólogo Cândido Grzybowski, diretor do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase). “É pelas ações sociais que um bem se torna comum. É a prática que o consagra, ou o privatiza”, completa o sociólogo.

A fala dos dois entrevistados se sobrepõem. Para Ladislau, quando o direito de usufruto dos comuns começa a ser infringido, está criado o cenário para que eles sejam empacotados. “Você obriga as pessoas a criarem soluções privadas”, sintetiza.

Brincadeira séria

Foi justamente nesse processo de erosão que aspectos fundamentais da vida cotidiana foram empacotados. A relação com a cidade é um caso paradigmático.

Tomemos, por exemplo, a forma radical como a infância urbana mudou em pouco mais de uma geração. Para qualquer pessoa na casa dos 30 anos ou mais, boa parte das memórias infantis envolve brincadeiras na rua com pouca ou nenhuma supervisão adulta. Hoje, um pai que deixasse seus filhos brincarem sozinhos na rua provavelmente teria de dar explicações ao Conselho Tutelar.

Segundo a coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas em Simbolismo, Infância e Desenvolvimento (Nepsid), Adriana Friedmann, muitos fatores convergiram para esse resultado. “Os mercados imobiliário e automobilístico tomaram os espaços públicos. Mas também temos a violência urbana e as mães que entraram no mercado de trabalho”, pontua a pedagoga.

Não demorou até que empresas de diferentes ramos descobrissem aí um filão. No setor imobiliário, a garantia de um espaço seguro para os filhos de seus compradores tornou-se um argumento de venda para os empreendimentos equipados com estrutura
de lazer completo [4].

    [4] Um condomínio com “lazer completo” tende a possuir estrutura similar a de um clube incluindo – mas não limitado a – piscinas, quadras poliesportivas, áreas verdes e playground.

“Eles vendem lazer completo, mas o lazer seria ainda mais completo se fosse a cidade”, ironiza a psicóloga Laís Fontenelle. Ela atua como consultora do Instituto Alana, organização da sociedade civil que se tem notabilizado pela defesa dos direitos da infância e está por trás da produtora Maria Farinha, responsável pelos documentários Muito Além do Peso, Criança, a Alma do Negócio e Tarja Branca.

Como os condomínios tendem a ser socialmente homogêneos, as crianças terminam presas em uma bolha social que reduz suas oportunidades de convivência com grupos externos. “Isso é muito ruim para o crescimento, porque elas ignoram que o mundo vai além do que elas conhecem”, critica Adriana.

Crianças cada vez mais trancafiadas – tanto em casa como nas escolas – também são empurradas para um estilo de vida mais sedentário. O fato de as crianças terem menos oportunidades para descarregar sua energia, somado à sobrecarga de atividades extracurriculares imposta por pais ansiosos por garantir o futuro dos filhos, pode ser um dos motivos do aumento na prescrição de medicamentos psiquiátricos para crianças.

Com 2,6 milhões de caixas compradas no ano passado, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o Brasil se tornou o segundo maior consumidor de Ritalina [5], em termos absolutos, atrás somente dos EUA. “A falta de atividade física somada à inadequação de conteúdos escolares levam a essa inquietação, e a medicalização acaba sendo o caminho mais fácil para resolver o problema”, lamenta Adriana.

    [5] Nome comercial do metilfenidato, medicamento usado no tratamento do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

Resgate

Nem todo o empacotamento da infância vem necessariamente para o mal. Há uma nova geração de empreendimentos desenhados para acolher as crianças da melhor forma possível. Uma das pioneiras dessa onda é Luciane Motta, que há cerca de cinco anos fundou a Casa do Brincar. Ao contrário de uma escola ou berçário tradicional, lá é possível fechar pacotes por hora e não se aceitam crianças em período integral.

Ela conta que percebeu a carência desse tipo de serviço depois de se tornar mãe e optar por tirar um ano sabático para se dedicar à prole. O ponto de virada foi a descoberta de uma loja de brinquedos educativos que, paralelamente, realizava sessões de brincadeiras centradas no desenvolvimento psicomotor das crianças. Não precisou de muito para que ela intuísse que ali havia um nicho. “São famílias que não querem que seus filhos entrem na escola prematuramente ou que desejam uma atividade complementar”, destaca a empresária.

Há mais coisas fermentando. Adriana, por exemplo, mostra-se moderadamente otimista com a retomada de espaços públicos perdidos – principalmente praças e parques. “É um contramovimento muito interessante que está acontecendo”, entusiasma-se. A Alana é uma das organizações que vêm puxando esse movimento, por meio de uma ação chamada SlowKids, que reúne pais e filhos em espaços públicos. “Em vez de as famílias irem ao shopping, queremos que os pais desacelerem e reflitam”, explica Laís.

O certo é que o processo é reversível – ao menos em parte. Na década de 1970, moradores do bairro De Pijp, em Amsterdã, Holanda [6], compraram essa mesmíssima briga e conseguiram o fechamento de ruas à circulação de automóveis para que as crianças pudessem brincar sossegadas.

    [6] Acesse o documentário em goo.gl/Yp4CpJ.

Mochilão

Sair das cidades com destino a algum paraíso isolado não é garantia de fuga dos empacotamentos. O turismo, afinal, é um campeão nesse quesito. “Para criar um produto turístico, pega-se um hotel e uma série de bens comuns, como uma paisagem natural ou uma manifestação cultural, e põe um preço”, descreve Mariana Madureira. Junto com Marianne Costa e Lucila Egydio, ela é sócia da Raízes Desenvolvimento Sustentável, empreendimento social que desenvolve projetos turísticos com base no conceito de turismo de base comunitária [7] (TBC) e trabalha com comunidades de ceramistas do Vale do Jequitinhonha.

    [7] Conceito que procura envolver mais ativamente a comunidade local na atividade turística, tanto no planejamento quanto na divisão dos benefícios.

Ficaram para trás os dias de turismo alternativo “ingênuo”, em que bastava colocar uma mochila nas costas e passar uns dias em alguma comunidade de pescadores. “Quando você faz um mochilão desses, em que se hospeda na casa de um pescador, o produto turístico não existe. Para ser considerado assim, precisa ser uma ‘coisa bem-acabada (formatada)’”, explica o gestor da Pousada Uacari, do Instituto Mamirauá, Gustavo Pereira.

O potencial predatório da indústria do turismo é famoso. Não faltam exemplos de comunidades tradicionais que acabaram expulsas para abrir espaço para um novo resort ou outro empreendimento. “Foi o que aconteceu no Pelourinho (em Salvador). As famílias que moravam lá foram removidas com a desculpa de requalificar a região que, hoje, tem hotéis e restaurantes de luxo”, protesta o entrevistado. Nesse sentido, o empacotamento da experiência turística pode até ser a atitude mais prudente para conservar riquezas naturais. “Se as comunidades não conseguirem se apropriar dessa riqueza e se fortalecerem, a indústria do turismo de massa pode chegar e acabar com aquele patrimônio. É uma questão de tempo”, aponta Mariana.

O segmento começa a dar sinais de maturidade. Gustavo conta que há cerca de cinco anos foi formada a Central de Turismo Comunitário da Amazônia, que procura organizar as iniciativas nos estados amazônicos. O Instituto Mamirauá também organiza cursos para multiplicar um pouco dos 15 anos de experiência em TBC. A Raízes também está caminhando nesse sentido e ajudando na gestão do Projeto Bagagem, ONG que apoia a estruturação de iniciativas nessa área.

Likes e endorfina

Nem a nossa dimensão mais íntima está a salvo. A publicidade emocional está em alta com campanhas que dão mais peso a apelos emocionais do que às funcionalidades dos produtos que tentam vender. “Os cursos de graduação ensinam isso em muitas disciplinas técnicas, os livros texto apregoam isso”, preocupa-se Ana Paula Bragaglia, professora da Universidade Federal Fluminense.

O fenômeno não é novo, mas tem ganhado espaço nos últimos anos. Uma das explicações é o fato de que os diferenciais em termos de produto estariam cada vez mais rarefeitos. Com as marcas comercializando praticamente as mesmas coisas, foi preciso encontrar outros caminhos para diferenciá-las. “Um deles é por meio da criação de vínculos emocionais com um consumidor”, explica a professora.

As redes sociais também têm sido bastante criativas em descobrir formas de empacotar a subjetividade. “O Facebook permite ter o nosso ‘eu’ validado e isso é viciante do ponto de vista fisiológico: quanto mais likes, mais endorfina”, diz Bia Granja, cofundadora do youPIX, maior festival dedicado à cultura de internet do Brasil.

Não quer dizer que Mark Zuckerberg seja algum tipo de vilão de opereta. “Eu não gosto muito dessa demonização. No fundo, foram as pessoas que foram para lá e fazem a evasão da privacidade”, avalia Bia, para quem o usuário médio não está assim tão preocupado com a forma como a rede social mais popular do mundo usa seus dados.

E não é como se as pessoas saíssem totalmente de mãos vazias de sua relação com o Facebook – ou qualquer plataforma do tipo. “Os usuários utilizam as redes sociais à medida que estas oferecem algum valor a ser apropriado (por seus membros). Quando esse valor decresce, o uso também cai”, resume a pesquisadora da Universidade Católica de Pelotas, Raquel Recuero.

Talvez mais preocupante nem seja a forma como o Facebook usa os dados privados dos usuários, mas a maneira como ele filtra o que cada um vê. “Acho isso perigosíssimo, porque cria uma bolha que empobrece a visão de mundo dos usuários”, completa Bia. O que não é um processo lá muito diferente da bolha social que os condomínios fechados criam em torno de seus moradores – adultos ou crianças. Só muda do varejo para o atacado.

Essa é uma transformação trazida pela emergência da economia do conhecimento: o avanço da noção de propriedade sobre o imaterial. “A expansão recente do capitalismo invadiu o imaterial e o simbólico. Passamos a achar normal a privatização dos conhecimentos”, problematiza Cândido Grzybowski.

É parte do processo que Ladislau Dowbor chama de “economia de pedágio” e que pode ajudar na ingrata tarefa de distinguir os empacotamentos tóxicos dos que são legítimas oportunidades de negócio. A chave está na liberdade. “Você só pode montar uma padaria, por exemplo, se as pessoas tiverem liberdade de trafegar pelas ruas. Então, uma coisa é você aproveitar as liberdades de acesso aos bens e conhecimentos para criar produtos; outra é fragmentar esse potencial e criar pedágios no caminho”, elucida.

 

* Fábio Rodrigues é jornalista e editor do portal e das revistas do Grupo BiodieselBR

Artigo  publicado originalmente na Página 22

 

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