Uso compartilhado de produtos mais do que a posse e o uso individual*

Não é preciso necessariamente possuir os produtos, mas sim ter acesso a uma dada função de bem-estar que eles promovem

A solução para o contexto de insustentabilidade em que vivemos, para o qual o excesso e o desperdício no consumo contribuem fortemente, não virá pelo esforço de um único agente social, sejam organizações multilaterais, governos nacionais, corporações ou sociedade civil. Será necessário um processo de cooperação mundial para criar a percepção de que apenas mudanças coletivas levarão à escala e à velocidade necessárias a caminharmos para um futuro sustentável – e desejável.

Uma das dificuldades principais nesse processo é dar clareza e concretude à direção em que as mudanças devem ocorrer, de modo a não ficar no significado abstrato de sustentabilidade, difícil de ser compreendido amplamente. O Akatu se dirigiu a esta questão visando dar esta clareza e concretude ao processo de caminhar em direção a um futuro sustentável. Apresentou então, na Rio+20, dez novos caminhos que podem ser mais facilmente compreensíveis e podem contribuir para as mudanças necessárias nos modos de produção e consumo para que se tornem mais sustentáveis.

Um dos caminhos apontados, que eu destaco nesse artigo, é o uso compartilhado de produtos mais do que a sua posse e o seu uso individual.

É comum encontrar casas que, em vez de lares – onde a família vivencia boas experiências, se reúne e recebe amigos – vêm se tornando depósitos de produtos. Carros, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, ferramentas, utilidades de limpeza para o quintal e o jardim, uma parafernália que acaba sendo comprada sem que se faça duas perguntas essenciais: será que cada um desses produtos é mesmo necessário? E, se é necessário, é preciso ter a posse do produto ou é suficiente apenas ter acesso em alguns momentos específicos após os quais o produto não é mais necessário?

O século 20 foi o século do consumo. O século 21, com certeza, será o da qualidade de vida, será o século do bem-estar. E para isso não é preciso necessariamente possuir os diversos produtos, mas sim ter acesso a uma dada função de bem-estar, que não implica a posse definitiva dos produtos que suprem tal função. Como exemplo, ao invés de querer ter um CD, queremos ouvir a música nele contida; em vez de querer ter um DVD, queremos assistir a um filme; em vez da posse de um livro, queremos a sua leitura; em vez do carro, precisamos de um meio de locomoção; em vez da posse de ferramentas, precisamos ter acesso a elas apenas no momento de usá-las para fazer algo em casa; mais do que possuir brinquedos, as nossas crianças querem brincar…

Se assim é, por que compramos e guardamos em casa tantos produtos? Não seria possível apenas ter acesso ao bem estar suprido por um produto por meio do acesso temporário a ele? Isto é, não seria possível compartilhar o uso de um dado produto, seja tendo uma posse comunitária, seja alugando temporariamente o produto, seja buscando suprir a necessidade de uma forma a compartilhar um produto de uso coletivo?

Quanto menos produtos forem comprados para o uso de uma única família, sendo substituídos por uma dessas maneiras de ter acesso a eles, menor será o uso de recursos naturais, de minérios, de matéria prima agropecuária, de água, de energia, sendo possível menor impacto ambiental negativo.

Imaginemos por exemplo um prédio de 15 andares com quatro apartamentos por andar. Serão 60 famílias, e, nos padrões de hoje, 60 máquinas de lavar roupa. Será que uma lavanderia compartilhada no condomínio com algo como dez máquinas, usadas de modo compartilhado por todos os condôminos, não faria o mesmo serviço? Os condôminos poderiam negociar horários de uso e cada família saberia exatamente quando uma máquina estaria disponível para seu uso. Provavelmente, se organizaria melhor a lavagem das roupas, juntando quantidade suficiente para sempre usar a máquina em sua capacidade máxima, ao invés de usar a máquina para lavar duas ou três peças apenas porque a máquina está sempre disponível. Isso levará a um menor gasto de água e energia do que ocorreria na soma das máquinas individuais de cada apartamento.

Outro exemplo é o de quatro vizinhos que resolvem compartilhar sua feira. Fazem uma lista de compras que atenda à necessidade conjunta de todos eles, um deles vai às compras, adquire para todos e, ao voltar, é feita a separação dos alimentos que cabem a cada família, que pagará o valor correspondente. Isso certamente vai reduzir o desperdício de alimentos, vai aproximar os vizinhos, vai economizar gasolina, pois em vez de quatro carros saindo às compras, apenas um o fará a cada semana, e vai liberar para todos um recurso que talvez seja o mais valioso e totalmente não renovável que é o tempo. Sim, porque a cada semana, uma família fará a compra, liberando o tempo das outras três. Se forem, cinco, seis, sete, oito famílias no processo de compartilhamento, tanto melhor.

Parece inovador, mas não é. Nossos avós já faziam assim. Mas os avanços da vida moderna – a maioria bons – substituíram sem pensar algumas práticas que eram boas experiências. É preciso inovar de modo a aproveitar tanto os avanços de hoje como as ideias bem sucedidas do passado. O uso compartilhado de produtos é um desses exemplos.

Quem nunca alugou uma roupa para uma festa, por exemplo? A prática não é nova, e é exemplo clássico de uso compartilhado. Hoje, existem sites que permitem até a troca de brinquedos, visto que nossos filhos, depois de brincar um tempo, tem vontade de brincar com outro brinquedo. Trocando, sem comprar, e sem deixar envelhecendo num baú qualquer, nossas crianças terão o mesmo bem estar sem o desperdício de recursos naturais com a produção de algo que será usado por pouco tempo e deixado de lado.

E o automóvel então? As grandes cidades vivem hoje à beira de um colapso urbano, por causa da preferência pela mobilidade motorizada individual. O uso consciente de transporte não implica não comprar um carro, implica usá-lo com a consciência de que é um meio de transporte muito poluidor e que causa enormes transtornos em termos da mobilidade coletiva. Isso implica usá-lo o mínimo possível, procurando opções individuais não motorizadas e pressionando os governantes para oferecerem soluções coletivas de qualidade – ágeis, confortáveis, bem distribuídas e baratas. Implica em demandar mais trens, mais metrôs, mais hidrovias, por exemplo. Vale lembrar também que os serviços que oferecem carros compartilhados já são realidade nas grandes cidades mundiais, inclusive em São Paulo. Estes carros estão em garagens localizadas em pontos estratégicos da cidade, onde o usuário pode alugar um carro por algumas horas, quando o percurso não é servido por transporte coletivo adequado.

Compartilhar o uso de produtos não significa menos bem-estar individual. E significa mais bem-estar da sociedade e do meio ambiente.

Helio Mattar, Ph.D em engenharia industrial, é diretor-presidente do Instituto Akatu.

* o artigo foi editado e publicado na edição de outubro da Revista Rossi. As partes destacadas em itálico não constam da versão editada.

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