Termelétricas a carvão: a melhor aposta?

Opções feitas sob pressão da crise energética podem custar muito caro ao país, economica e ambientalmente

Notícias de construção de termelétricas a carvão lembram inevitavelmente cenas de montanhas de rejeitos, rios poluídos, fumaça e poeira. Mas apesar disso tudo, impulsionadas pelo apagão, caminham para o licenciamento ambiental termelétricas a carvão mineral no Rio Grande do Sul em Santa Catarina e no Rio de Janeiro.

O carvão sempre matou em larga escala. Só no ano de 1975 morreram nos EUA entre 1.900 e 15.000 pessoas em conseqüência dos impactos da operação de termelétricas a carvão, segundo estimativas da Real Academia Sueca de Ciências. Doenças e acidentes ocupacionais provocados por termelétricas a carvão nas nações industrializadas correspondem a mais de 2 mortes e de 3.000 dias de trabalho perdidos por milhão de tonelada de carvão queimada.

Em torno de termelétricas deste tipo, o ar é poluído por grandes quantidades de poeira fina, óxidos de enxofre e de nitrogênio. Estes dois últimos são importantes formadores de chuvas ácidas. E a poeira, principalmente as partes menores e inaláveis, é o poluente que mais preocupa os médicos, por ter relação direta comprovada com o risco de morte de idosos e crianças menores de 13 anos. A queima do carvão produz também grande variedade de resíduos sólidos que incluem compostos de cádmio, magnésio, enxofre, arsênico, chumbo, mercúrio, cromo, selênio etc, que se depositam nos ecossistemas terrestres e aquáticos, podendo inclusive mudar a composição da vegetação e penetrar na cadeia alimentar.

Há anos, a indústria do carvão trabalha para mudar sua imagem, tendo desenvolvido diversas tecnologias e processos para minimizar os problemas, que o combustível apresenta. Esta tecnologia, autodenominada “limpa” (clean coal) descarta o carvão de altos teores de cinzas e enxofre, lava o combustível para remover mais cinzas e enxofre, gaseifica o carvão para utilização em turbinas de ciclo combinado ou queima-o em leito fluidizado pressurizado, e adota filtros para remover os gases de enxofre e de nitrogênio formados na combustão.

Na comparação com as antigas técnicas de uso do carvão, como por exemplo, as da usina Jorge Lacerda de Tubarão, Santa Catarina, o “clean coal” apresenta algumas vantagens ambientais, mas não consegue fazer desta energia uma fonte limpa. O tratamento e disposição final dos resíduos de mineração e combustão permanecem problemas de difícil solução, enquanto grandes quantidades de poeira inalável, gases de nitrogênio e enxofre são emitidos mesmo depois dos filtros que podem – segundo dados de catálogo e em condições ideais – reter 99% dos poluentes gerados.

As termelétricas a carvão contribuem também para o efeito estufa e as mudanças climáticas. O Brasil é vítima do alarme ambiental provocado pela elevação de temperaturas do Planeta, sua responsabilidade histórica sobre as concentrações de carbono na atmosfera é praticamente nula, e suas emissões atuais correspondem a cerca de 1% do total mundial (descontando-se aqui a contribuição do desmatamento com queimadas). Praticamente toda a eletricidade brasileira ainda é gerada a partir de fontes renováveis e o país conseguiu, com o Proálcool, substituir grande parte do consumo de petróleo. Além disso, o país conta com tecnologias avançadas de manejo florestal e ambiciosos programas de florestas energéticas. Em síntese, o Brasil tem muito a contribuir com o desafio mundial de superação do efeito estufa. E também poderia vir a ganhar muito com a venda de combustíveis renováveis e tecnologia de fontes renováveis de energia.

Porém, os agentes do setor elétrico brasileiro arquitetaram uma alteração na matriz energética, que certamente afetará a paisagem ambiental brasileira. Os sucessivos anos sem investimentos significativos no setor elétrico criaram uma escassez relativa na oferta de eletricidade, traduzida concretamente pela série de blackouts ocorrida em 1997 e pela ameaça de colapso em 2001. A resposta emergencial do setor contempla a instalação de termelétricas a gás e carvão, interligação de redes etc. A resposta estrutural aponta o aprofundamento da privatização como forma de financiar novos investimentos em geração, grande parte termelétrica.

Emergencial ou estruturalmente, não se faz referência ao gerenciamento da demanda – redução de desperdícios, conservação e promoção de eficiência energética – e à promoção do uso de fontes renováveis – solar, eólica, co-geração etc. A única exceção é o tímido PROCEL e seus programas de substituição de lâmpadas de iluminação pública e selos de consumo de eletrodomésticos.

O que o país precisa é desenvolver uma forte gestão ambiental e aproveitar oportunidades energéticas ambientalmente amigáveis e sustentáveis, sob a pena de perda de grande parte de seu patrimônio ambiental, um dos maiores do mundo, e sob a pena adicional de perda de grandes e importantes negócios. Definitivamente não é hora de fazer a aposta estratégica em termelétricas, muito menos a carvão mineral.

Délcio Rodrigues é físico e diretor de campanhas do Greenpeace.

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