Será que isso vai para a reciclagem?

CDs, clipes, embalagens de creme dental, … ainda são muitas as dúvidas das pessoas na hora de separar o lixo para reciclagem

Como já dizia o pai da química, Antoine Laurent Lavoisier nas últimas décadas do século XVIII, em sua conhecida lei da conservação da matéria: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Hoje, no século XXI, a surpreendente quantidade de lixo produzido nas nossas cidades e a consciência de que é preciso reciclar e reutilizar materiais e produtos como forma de promover o moderno conceito de sustentabilidade, faz com que a frase ganhe fôlego renovado e seja novamente entoada como um “mantra”.

Atualmente, são coletadas mais de 140.000 toneladas de lixo urbano por dia no Brasil. Desse total, 60% não têm um destino final adequado, em aterros sanitários, sendo jogados nos chamados lixões. E segundo o Relatório Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil 2007, da ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), o total de lixo gerado nas cidades brasileiras pode ser muito maior. Estima-se que cerca de 10 milhões de toneladas de resíduos sólidos (algo como 20 a 25% do total coletado de lixo urbano) deixam de ser coletados todos os anos, acabando por ter um destino incerto, geralmente, inadequado.

Para se ter uma idéia do que significa esse volume de lixo, apenas no município de São Paulo são geradas cerca de 15 mil toneladas de lixo por dia, das quais 9 mil toneladas são provenientes do lixo domiciliar. Um caminhão de transporte de lixo tem capacidade de carregar 12 toneladas de lixo a cada viagem. Assim, para transportar essas 9 mil toneladas de lixo doméstico produzidas apenas na capital paulista em um único dia, seriam necessários 750 caminhões de lixo que, estacionados um na frente do outro, formariam uma fila de mais de 7 quilômetros.

No entanto, nem todos esses resíduos precisariam ter como fim as latas de lixo. Até 30% dessa montanha de lixo produzidos diariamente nas cidades brasileiras é composta por materiais recicláveis, como plástico, vidro, papel, latas entre outros que, se adequadamente separados, coletados e encaminhados poderiam ser reaproveitados na confecção de novas matérias primas que poderiam ser reprocessadas em processos de reciclagem e usadas na fabricação de novos produtos.

De acordo com dados da ABRELPE (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais), dos 5.564 municípios brasileiros, 65% já possuem algum tipo de iniciativa de coleta seletiva, seja realizada porta a porta, por meio de cooperativas de catadores, seja pela existência de postos de coleta em locais definidos, organizados pelo poder público ou pela iniciativa privada.

As vantagens da coleta seletiva e da reciclagem são muitas. Além de evitar o desperdício de materiais que ainda podem ser utilizados, ao separarmos nosso lixo e enviarmos o material reciclável para o reaproveitamento nas indústrias, diminui a quantidade de lixo que precisará ser armazenado e tratado pelos serviços públicos municipais. As cidades evitam, assim, ter que investir adicionalmente na construção de aterros e na infra-estrutura necessária para tratar o lixo de maneira correta, de forma a evitar riscos à saúde e ao meio ambiente. O material que é destinado à reciclagem segue para as centrais de triagem e é fonte de renda para as famílias que trabalham nas cooperativas de catadores, um benefício social importante.

De acordo com a Pesquisa Nacional de Saneamento Básico (PNSB-IBGE, 2000), a maior parte dos municípios brasileiros com população de até 50 mil habitantes destina em média 5% de seus orçamentos para a gestão de resíduos sólidos. Segundo Patrícia Leme, doutora em Educação, bióloga e educadora ambiental do Programa USP Recicla, campus de São Carlos, o consumidor pode contribuir, e muito, para diminuir a quantidade de lixo gerado em sua casa ao aplicar no dia a dia o princípio dos 3 R´s – reduzir, reutilizar e reciclar – acrescido de um primeiro e fundamental conceito, também um “R’’, o do repensar seus hábitos de consumo. “O consumidor precisa repensar seu padrão de consumo e antes de comprar se perguntar: eu preciso mesmo disto? E ainda, quanto tempo este produto vai levar para virar lixo?”, explica a educadora.

Assim, após refletir sobre suas necessidades de compra e estar ciente da importância de levar para casa apenas o necessário, é também importante analisar cada opção de consumo e fazer escolhas que tenham o menor impacto socioambiental possível. Para atingir esse objetivo, a dica é evitar lotar o carrinho de supermercado com produtos descartáveis e cheios de embalagens, cujo destino certo é transformarem-se rapidamente em lixo. Nessa linha de raciocínio, o ideal é escolher embalagens retornáveis ou recicláveis, assim como optar por produtos vendidos a granel.

Já em casa, após o uso dos produtos, cuidadosamente escolhidos para causar o menor impacto possível, chega a hora do descarte. É o momento de pensar na coleta seletiva e na reciclagem dos materiais. A coleta seletiva envolve a separação e envio dos materiais usados que poderão ser reaproveitados, evitando jogá-los fora junto ao lixo comum. Por meio desta ação é possível levá-los novamente para a indústria, após o reprocessamento que permite gerar matérias primas com menor gasto de dinheiro, água e energia do que o que seria gasto no ciclo produtivo a partir dos recursos da natureza.

Assim, a reciclagem é o processo de transformação e reaproveitamento desses materiais coletados. Para que possa ocorrer na prática, dependerá de dois fatores básicos: o tecnológico e o de mercado. O primeiro é bastante objetivo, pois pressupõe que exista um jeito de reutilizar e transformar um determinado material na indústria. Já o segundo fator, por sua vez, é bastante mais complexo. Para a educadora do USP Recicla, as questões de mercado são dependentes principalmente da existência ou não de um sistema municipal de coleta seletiva e da distância que o município está das usinas de reciclagem, de cada material específico. “Em São Carlos as embalagens Tetra Pak são recicladas, pois existe uma indústria em uma cidade vizinha. Mas em Manaus, por exemplo, não são”, exemplifica.

Para saber se um determinado material é ou não reciclado em sua região, Patrícia sugere que o consumidor se informe junto a Prefeitura Municipal ou informalmente junto aos catadores locais. “O consumidor tem um enorme poder de influenciar o mercado. Ele pode se organizar e tentar pressionar o município em que mora para que invista no sistema de coleta seletiva e reciclagem. De modo geral, o consumidor, por meio de seu ato de consumo, tem possibilidades de transformar a realidade para melhor”, sugere.

Para ajudar os consumidores a separarem seu lixo em casa, o Akatu mostra a seguir algumas orientações que facilitam a separação dos recicláveis, em casa ou no trabalho. A elaboração dessas recomendações contou com o auxílio de Patrícia Leme, educadora do USP Recicla, e de Eduardo Ferreira de Paula, Diretor Secretário da Coopamare (Cooperativa de Catadores Autônomos de Papel, Papelão, Aparas e Materiais Reaproveitáveis) e do Movimento Nacional de Catadores.

Materiais que devem ser encaminhados para reciclagem

  • Embalagens de vidro, garrafas, copos e vidro de janela.
  • Cacos de qualquer embalagem de vidro podem ser enviados para reciclagem, mas devem ser protegidos e limpos. “Todo vidro deve estar identificado e ser colocado em caixa de papelão ou embrulhado em jornal, para evitar que alguém se machuque”, ensina Ferreira.
  • Jornais, revistas, folhas de caderno, formulários de computador, caixas de papel e papelão em geral, aparas de papel, fotocópias, envelopes, folhas sulfite usadas (dos dois lados) e cartazes velhos.
  • Latas de folha de flandres (como lata de óleo, salsicha, leite em pó).
  • Latas de alumínio (refrigerante, cerveja)
  • Aço (talheres, armações de óculos)
  • Embalagem marmitex (limpas)
  • Chapas de metal
  • Papel alumínio limpo (sem resíduos orgânicos, como restos de comida.
  • Materiais feitos em PVC rígido (canos, p.ex.)
  • Copos, pratos, potes e embalagens plásticas (como as de detergente, shampoo etc.)
  • Tampas plásticas
  • Sacos (de leite, arroz etc.)
  • Embalagem PET de refrigerante
  • CD  e DVD são considerados plástico misto, e podem ser enviados para reciclagem.
  • Sacolinhas plásticas e o plástico filme, desde que limpos, ainda que “o mercado para esse tipo de material (seja) bem fraco, dificultando o escoamento desse material para a reciclagem”, explica Patrícia.
  • Tubos de pasta de dente, assim como outras embalagens de produtos de higiene e beleza. “Use até o final, o máximo que puder e então envie para reciclagem”, diz Patrícia.
  • Canetas esferográficas, separe a parte de fora, a “capinha”, feita de plástico e envie para reciclagem. A carga deve ser jogada no lixo comum.
  • Pedaços de materiais ou produtos de pequena dimensão (de plástico, papel, etc. ou os de metal, como grampos, pregos, por exemplo), que, como são pequenos devem ser juntados em potes para depois enviá-los para reciclagem – de preferência separando por tipo de material.
  • Quanto às pilhas, a educadora Patrícia aponta que é preciso repensar a legislação, pois mesmo as produzidas de modo oficial no país e que pela lei atual podem ser jogadas no lixo comum, têm pequenas quantidades de metais pesados. Ao longo de muitos anos, essas pequenas quantidades também se acumulam na natureza e podem se transformar em um grande problema ambiental.
  • Uma dica para o consumidor é repensar se realmente precisa utilizar aparelhos a pilhas. Nos casos indispensáveis, deve-se optar por pilhas recarregáveis. É fundamental enviar as pilhas usadas sempre para reciclagem, mesmo que a legislação não obrigue a isso no Brasil. “Nos países da União Européia inclusive as pilhas comuns não podem ser jogadas no lixo comum, mas devem obrigatoriamente ser enviadas para reciclagem”, conta Patrícia.
  • As lâmpadas fluorescentes, da mesma maneira, segundo a legislação brasileira podem ser jogadas no lixo comum, embora contenham mercúrio na forma de vapor, um resíduo perigoso que, no momento em que a lâmpada quebra pode ser liberado para o ar e prejudicar o meio ambiente e a saúde humana. “Muitas empresas e universidades pagam para outras empresas promoverem a descontaminação. Nós , da USP, fazemos isso. Só aqui no campus da USP de São Carlos são encaminhadas para reciclagem  5 mil lâmpadas por ano”, explica Patrícia. O ideal, explica a educadora, seria que os fabricantes de lâmpadas ficassem responsáveis pela sua destinação adequada (descontaminação e reciclagem), já que o descarte desses materiais pode ocasionar contaminação ambiental, assim como acontece com as pilhas. Mas preste atenção, apenas as lâmpadas fluorescentes são recicláveis e não as mais comuns (incandescentes), que não são recicláveis.
  • Fitas cassete e disquetes têm sua parte exterior feita de plástico, que é reciclável. Mas a fita magnética, interna, ao contrário, não é. Se for possível separá-los e encaminhar o exterior para reciclagem, deve-se fazê-lo.

  Materiais que não devem ser encaminhados para a reciclagem.

  • Embalagens metalizadas, como as de salgadinho e biscoitos
  • Etiquetas adesivas
  • Fita crepe e fita adesiva
  • Papel higiênico
  • Papéis plastificados (geralmente de embalagens)
  • Papel de fax
  • Guardanapos de papel e lenços de papel sujos (com restos orgânicos, por exemplo, de comida).
  • Fraldas descartáveis
  • Celofane
  • Fotografias
  • Lã ou esponjas de aço
  • Canos velhos
  •  Espelhos e vidros planos (como os de automóvel ou box)
  • Porcelana (pratos, travessas, xícaras)
  • Tubos de imagem de TV
  • Lâmpadas comuns (incandescentes)
  • Materiais de cerâmica
  • Cabos de panela.
  • Espuma
  • Esponja de cozinha
  • Isopor: apesar de existir tecnologia para sua reciclagem, na grande maioria das vezes, ela não acontece. O melhor, por isso, é evitar comprar produtos embalados em isopor, assim como em outras embalagens não recicláveis ou de difícil reciclagem.
  • A madeira é um material orgânico, mas que não pode ser reciclado.

A coleta seletiva, que envolve a separação e envio dos recicláveis para reaproveitamento industrial, é a primeira parte de um processo complexo. Patrícia explica que a reciclabilidade dos materiais depende tanto da existência de tecnologia, que permita transformar e reutilizar os materiais coletados, quanto de indústrias dispostas a usarem esse material. Portanto, um determinado material, apesar de ser reciclável, pode não ser reciclado por falta de uma empresa que o utilize. A Pesquisadora recomenda que o consumidor que tiver a oportunidade cheque quais os materiais são reciclados em sua região e continue incentivando a coleta seletiva, para que cada vez mais materiais possam ser efetivamente reciclados em sua cidade.

  • No caso das embalagens Longa Vida (como as de leite, suco, tomate) o consumidor que deseja saber se em sua região já existe quem colete ou comercialize este tipo de material, pode acessar o endereço www.rotadareciclagem.com.br. O site foi criado pela Tetra Pak e trás informações sobre a sua reciclagem em todo o país.

Eletroeletrônicos

  • O perigo dos eletroeletrônicos

Segundo o Greenpeace, o lixo eletrônico produzido no mundo em um ano encheria um vagão de carga de um trem capaz de dar uma volta completa no mundo. São 50 milhões de toneladas de lixo eletroeletrônico produzidos a cada ano pela humanidade, composto por computadores, celulares, eletroeletrônicos e eletrodomésticos.

“Na União Européia já existe legislação específica para resíduos eletro eletrônicos que garante que esses materiais terão uma destinação ambientalmente correta. No Brasil, não. Essa legislação européia diz que o consumidor que quiser descartar estes produtos é obrigado a dispô-los em locais específicos que encaminharão o material coletado para destinação correta sem custo adicional para o consumidor”, explica Patrícia.

Algumas entidades que recebem equipamentos e/ou orientam aqueles que querem fazer doações são:

Associação Brasileira de Excedentes
http://www.abre-excedente.org.br

Casas André Luiz
http://www.andreluiz.org.br

Comitê pela Democratização da Informática
http://www.cdi.org.br

Exército de Salvação
www.exercitodesalvacao.org.br

Museu do Computador
http://www.museudocomputador.com.br

Uma saída para diminuir a quantidade gerada desses perigosos resíduos é utilizar os produtos até o final da sua vida útil e só trocá-los quando for realmente necessário.

  • Se o aparelho a ser descartado ainda estiver em bom estado, outra possibilidade é doá-lo.
  • É importante lembrar que maioria dos eletroeletrônicos possui em sua composição metais pesados, como chumbo, cádmio e mercúrio, entre outros, que se manuseados ou dispostos de maneira inadequada oferecem riscos à saúde humana e ao meio ambiente, com perigo de contaminar o ar, o solo e as águas.
  • No Brasil, algumas empresas já aceitam receber de volta os equipamentos usados produzidos por ela. Por isso, antes de jogar qualquer aparelho no lixo, informe-se junto ao respectivo fabricante se ele recebe o produto de volta. E caso não receba, não perca a ocasião de sugerir que o faça.

Orientações em geral

  • Todo material que esteve em contato com alimentos ou outros produtos orgânicos deve ser lavado e seco antes de ser separado. Com isso não haverá contaminação dos demais materiais, dificultando seu envio para reciclagem. “O material limpo evita o mau cheiro do lixo e não atrai animais, como ratos e baratas, por exemplo”, explica Ferreira. Claro que existe um gasto de água, mas estima-se que este seja ainda maior para fabricar um produto novo. E a limpeza a ser feita é apenas para tirar o material orgânico e não para “deixar o material brilhando”.
  • Usar copos e pratos duráveis ao invés dos descartáveis. Estima-se que se gasta mais água para reciclar ou fabricar um produto descartável do que para lavar um durável. O ideal no caso do copo de água, por exemplo, é optar por um durável e lavá-lo apenas à noite, na sua casa, ou no final do expediente.
  • Para diminuir o volume de lixo doméstico, antes de encaminhar para coleta seletiva, amasse as latas de alumínio e, no caso de garrafas Pet, tire a tampa e “enrole” a garrafa, fechando-a em seguida novamente. E corte embalagens longa vida, dobrando os lados destacados.
  • Na hora de escolher a forma de separar o lixo, seja em uma única lata de lixo  para recicláveis, ou dividindo os diversos materiais recicláveis em diversas latas de lixo, o importante é conhecer antecipadamente o programa de coleta seletiva da sua região. A escolha deve ser aquela que se adeque melhor a este programa e facilite o trabalho de coleta, triagem e envio dos materiais para reciclagem. “Cada consumidor deve analisar como é feita a coleta seletiva em sua região e sabendo para quem vai o material, escolher a melhor forma de separá-lo”, diz Patrícia.
  • Ferreira, da Coopamare, recomenda, como mínimo, que se separe o lixo em pelo menos dois sacos plásticos: um para os restos orgânicos (de preferência da cor preta); e outro para os materiais recicláveis (preferencialmente azul).

Se você achou muito longa ou complexa essa lista de dicas, fique apenas com esta: “Na dúvida sobre um material, envie para reciclagem”, afirma Patrícia, mesmo correndo o risco de uma parte desse material acabar mesmo no lixo comum.

Mãos a obra! Repense, reduza, reutilize e recicle o seu lixo!

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