Saiba por que é importante consumir o suficiente, sem excessos

No Dia Mundial da População (11/7), o Instituto Akatu chama atenção para os impactos negativos das compras excessivas. Com uma população crescente, esse estilo de vida é inviável, pois a humanidade consome mais recursos do que a Terra é capaz de regenerar.

 

De quantos pares de sapato você precisa para viver? Sem dúvidas, essa é uma questão subjetiva. Para respondê-la, talvez você analise suas combinações de roupa, o código de vestimenta da empresa onde você trabalha ou as atividades esportivas que você pratica. Seja qual for sua resposta, é fundamental refletir sobre o consumo excessivo.

Temos uma população mundial de mais de 7 bilhões de pessoas, que já consome 60% de recursos naturais a mais do que a Terra consegue regenerar. A estimativa é que cheguemos a 9,7 bilhões de habitantes no planeta até o ano de 2050. Globalmente a extração de matérias-primas aumentou de 22 bilhões de toneladas em 1970 para cerca de 70 bilhões em 2019.

Uma parcela pequena da população mundial (16%) é responsável por 78% do consumo total. Se todos consumissem como os habitantes mais ricos do mundo, seriam necessários quase cinco planetas para suprir esse consumo. Os países mais ricos consomem cerca de 10 vezes mais recursos que os países mais pobres, e o dobro da média global. E, a cada ano, entram no mercado consumidor mais 150 milhões de pessoas – isto é, serão 3 bilhões de novos consumidores nos próximos 20 anos.

Podemos considerar consumo excessivo aquele que acontece sem uma real necessidade, seguindo apenas a lógica da compra pela compra em si. Muitas vezes, motivado por promoções ou por outros estímulos publicitários, que atiçam o desejo dos consumidores.

Por isso, no Dia Mundial da População (11/7), o Instituto Akatu lança a campanha “Viva mais com menos”, para que as pessoas reflitam sobre seus próprios atos de consumo, buscando a suficiência e não o excesso. Veja, a seguir, algumas dicas para desfrutar mais com menos.

– Você tem mesmo necessidade de comprar mais roupas, sapatos e acessórios de moda?

Seu armário tem várias peças que não são utilizadas? Comprá-las em excesso é puro desperdício. Todas as roupas têm um impacto no meio ambiente, pois a produção têxtil requer uso do solo no cultivo de algodão, que implica em uso de defensivos agrícolas que podem prejudicar o solo e a água; requer também água e energia elétrica, que demandam recursos finitos da natureza e cuja utilização provoca impactos ambientais muitas vezes negativos. Também é preciso considerar o impacto do tratamento químico para tingimentos de tecidos, o uso do transporte (logística) e o trabalho humano em si.

Por exemplo, para produzir uma calça jeans são necessários em média 10.850 litros de água, quantidade suficiente para suprir o consumo residencial (lavar roupas, tomar banho, beber, cozinhar etc.) de uma pessoa por mais de três meses!

Além disso, de acordo com uma análise de ciclo de vida realizada por um fabricante global de roupas*, ao longo de sua vida útil, a produção e manutenção dessa calça geram o equivalente a 33,4 kg de gás carbônico, um dos gases causadores das mudanças climáticas. Considerando esse valor, a produção e manutenção de 23 calças jeans causam a emissão de gás carbônico equivalente a uma viagem de quase 4 mil quilômetros de carro, como de Porto Alegre até Belém do Pará.

Por isso, não se deixe levar por promoções e compre somente após uma reflexão da sua real necessidade. Para tomar uma decisão, é preciso saber o que você tem no seu armário. Por isso, uma boa organização do guarda-roupa é essencial. Se as peças ficam entulhadas, elas ficam “escondidas” e acabam por não ser usadas. Analise as peças com frequência, selecionando aquelas que você não quer mais – troque, doe ou venda!

– Você tem mesmo necessidade de comprar um novo celular ou novo produto eletrônico?

É inegável a praticidade trazida pelos smartphones nas vidas das pessoas. Mas poucos se dão conta dos impactos negativos de sua produção e do seu descarte incorreto para o meio ambiente e para a sociedade. Um único smartphone genérico consome em sua produção 12.760 litros de água, 18 metros quadrados de solo, segundo o relatório Mind your Step, feito pela Trucost, a pedido da Friends of the Earth, aliança internacional de organizações em prol do meio ambiente.

Além de água e terra, a fabricação de um smartphone exige a extração dos chamados elementos de terras raras, usados para produzir baterias, lâmpadas LED, placas de circuito eletrônico e telas de vidro. A mineração desses elementos gera resíduos como arsênio, bário, cádmio, chumbo, fluoretos e sulfatos, o que resulta em 75 mil litros de água ácida e gases tóxicos.

O impacto negativo dessa produção acontece também na vida de trabalhadores. A investigação do Friends of the Earth revelou que muitos trabalhadores morrem ou são feridos em minas na Indonésia, de onde vem um terço do estanho no mundo, material usado na fabricação de eletrônicos.

Objetos de desejo, os smartphones são trocados com frequência: de acordo com as estimativas de um fabricante, o brasileiro troca de celular a cada um ano e um mês, em média. Os anúncios publicitários seduzem os consumidores, que são levados a acreditar que precisam de um novo produto para ficar mais eficientes e “modernos”. É verdade que esses equipamentos geralmente são projetados para durar pouco (a chamada “obsolescência programada”), mas cabe ao consumidor refletir se realmente precisa fazer a troca de smartphone com tanta frequência, considerando os seus impactos para o meio ambiente e para a sociedade.

Vale notar também a quantidade de tempo que você trabalha para conseguir comprar um novo celular. Considerando a renda média da população no país, um brasileiro trabalha 193 horas ou 25 dias e meio de trabalho para comprar um smartphone de R$ 1.500 (Saiba mais no link: http://bit.ly/trabalho_smartphone).

– Você tem mesmo necessidade de comprar novos brinquedos e roupas para o seu filho?

A cena é comum: a criança ganha um brinquedo novo, mas prefere brincar com a embalagem ou logo escolhe outro objeto. Isso acontece porque o ato de brincar depende também da interação com um adulto ou com outra criança, mais do que de um brinquedo novo. Levando isso em consideração, antes de comprar um brinquedo novo para o seu filho, pergunte-se: ele precisa mesmo disso? Ou ele precisa que eu esteja mais presente e brinque junto com ele?

A troca de brinquedos com outras crianças é uma ideia interessante, já que permite que elas entendam a importância de cuidar melhor do brinquedo. Também permite que um brinquedo “deixado de lado” por uma criança seja usado por outra, permitindo estender a vida útil do brinquedo e, com isso, aproveitar melhor os recursos naturais que foram utilizados em sua produção. Na ocasião da doação ou troca, os pais e cuidadores podem estimular a criança a escrever uma mensagem a quem irá receber o brinquedo e, assim, criar um laço humanizado entre as crianças, dando à doação uma dimensão pessoal. Há diversos fóruns nas redes sociais e feiras (virtuais ou presenciais) que promovem essa troca.

– Você tem mesmo necessidade de comprar toda essa comida?

Você planeja suas compras antes de ir ao mercado ou à feira? Pensa no cardápio semanal para comprar os ingredientes em quantidades corretas? Para evitar a compra de alimentos em excesso, é preciso ter esses cuidados antes e depois da compra.

Um terço dos alimentos que chegam ao final da cadeia de suprimentos em países latino-americanos vai parar no lixo, segundo a Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO). Esse desperdício tem uma série de impactos sociais e ambientais e deve ser evitado a todo custo. Água, energia e trabalho são desperdiçados junto com os alimentos.

Medidas simples ajudam a evitar esse desperdício. Dedique atenção especial aos alimentos perecíveis, que estragam mais rápido. Compre em quantidades menores e mais vezes por semana, se possível.

Organizar a despensa e os alimentos na geladeira ajuda a evitar que eles sejam esquecidos e estraguem. Coloque na frente ou em cima os mais antigos e atrás ou embaixo os mais recentes. Também é importante reaproveitar as sobras de uma refeição e que muitas vezes ficam “perdidos” na geladeira. Seja criativo e transforme-os em bolinhos, tortas, sopas e outros pratos saborosos e nutritivos.

Uma família que gasta, em média, R$ 650 ao mês com alimentos e desperdiça quase um terço disso “joga fora” mais de R$ 180 ao mês! Se o desperdício da mesma família caísse pela metade, seriam economizados R$ 91,20 por mês, ou R$ 1.095 ao ano. Se esse dinheiro fosse depositado mensalmente em uma poupança com rendimento anual de 6%, ao final de 70 anos renderia mais de um milhão de reais.

Esse desperdício deve ser evitado a todo custo, visto que tem uma série de impactos sociais e ambientais, como por exemplo o fato dos produtos agrícolas e agro industriais consumirem um terço de toda a água utilizada nos vários países e da decomposição dos alimentos, quando jogados no lixo, ser responsável por uma enorme parcela dos gases de efeito estufa que causam o aquecimento global. Não desperdiçar os alimentos, portanto, ajuda no bolso e também ajuda o meio ambiente e a sociedade.

Essas são algumas ações, relativamente simples, que todos os consumidores podem começar a praticar para honrar o dia Mundial da População. Ao cuidar dos impactos do próprio consumo e servir de exemplo para familiares e amigos, todos estaremos cuidando da sociedade e do meio ambiente nos quais todos vamos viver.

 

*The Life Cicle of a Jean, Levi’s Strauss & Co. 2015

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