Sacolas para compras: como escolher?

A única coisa certa é que a descartabilidade não é uma escolha sustentável a longo prazo

Um artigo de Miguel Bahiense, publicado na “Folha de S.Paulo”, apresenta uma posição enviesada por parte do presidente do INP (Instituto Nacional do Plástico) a favor das sacolas plásticas descartáveis. Na falta de mais informações sobre os impactos ambientais dessas sacolas quando comparados aos impactos de outras sacolas, o artigo opta por fazer uma recomendação incondicional das sacolas plásticas descartáveis para uso em compras. Não considera a existência de alternativas, que existem em número expressivo, nem que a escolha consciente pelo consumidor, que está buscando menores impactos ambientais negativos, exige mais informações do que o que aquele artigo considera.

O artigo argumenta que “o problema não é o produto, e sim o que se faz com ele” e que a ”questão está no desperdício e no descarte incorreto”. Não é verdade.

Em primeiro lugar, por serem descartáveis, as sacolas plásticas são incompatíveis com um futuro sustentável no longo prazo. Produzir sacolas todos os dias, usando matérias primas, água e energia para gerar um produto usado poucas vezes e descartado com o lixo não faz sentido do ponto de vista de uso dos recursos da natureza. O fato de as sacolas plásticas serem descartáveis, por si só, deve suscitar o esforço da sociedade para identificar alternativas a elas.

Em segundo lugar, embora seja verdade que o descarte de todo e qualquer produto deve ser feito buscando o menor impacto ambiental, o que deve ser considerado quanto a tal impacto não é apenas o que se refere ao uso e descarte da sacola, mas sim a todo o processo de fabricação, uso e descarte da mesma, envolvendo desde a extração de matérias primas, processamento das mesmas, fabricação das sacolas, transportes necessários em todo o processo, até o uso e descarte final das sacolas. E mais, tais impactos devem ser comparados entre os da sacola plástica descartável e os de todos os outros possíveis meios que possam ser usados para carregar as compras.

Somente a avaliação comparativa dos impactos das sacolas descartáveis, das sacolas retornáveis, das caixas reutilizáveis, dos carrinhos de feira, e outras alternativas poderá fornecer as informações sobre os impactos ambientais de cada alternativa e que, aí sim, podem balizar, corretamente, a escolha do tipo de sacola pelo consumidor, de acordo com as condições específicas de cada um. O fundamental é que cada consumidor escolha, com consciência dos impactos ambientais, qual a forma de transporte de compras mais adequada às suas condições individuais.

Tal análise chama-se Análise de Ciclo de Vida (ACV). E, pela primeira vez, foi apresentado, no dia 2 de agosto, um primeiro estudo nesse sentido, comparando algumas das alternativas para carregamento de compras existentes no mercado brasileiro. O estudo foi solicitado pela Braskem, maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, apoiador Estratégico do Akatu, à Fundação Espaço Eco, entidade que desenvolve estudos de ACV considerando métodos científicos, internacionalmente reconhecidos e certificados.

É importante ressaltar que os estudos de ACV são válidos para as condições específicas do país onde o estudo é feito, considerada a tecnologia hoje disponível, e as funções específicas nas quais o produto vai ser usado. E é importante ressaltar que os seus resultados só valem nas condições do estudo, não podendo ser aplicados a outras condições.

A tentativa do artigo aqui comentado de usar um estudo inglês como justificativa para o uso das sacolas plásticas descartáveis no Brasil é totalmente enganosa. Seus resultados não se aplicam ao Brasil. Ponto. Para começar, porque as condições ambientais brasileiras são distintas, por exemplo, do ponto de vista da matriz energética, já que o Brasil tem uma das matrizes mais limpas do mundo, seja por conta da geração de eletricidade em hidroelétricas, seja do uso do álcool e biodiesel no transporte. Além disso, o consumidor brasileiro não tem os mesmos hábitos de compra que o inglês, o que também altera os resultados do estudo de ACV.

Felizmente, em função do esforço de empresas mais responsáveis, começam a ser divulgados estudos brasileiros de ciclo de vida comparativo entre vários tipos de sacolas. Aí sim, será possível orientar o consumidor em suas escolhas de curto prazo, e orientar a sociedade em sua busca de melhores alternativas no médio e longo prazo. De outra forma, as escolhas não serão racionais e não terão base científica.

No caso do estudo brasileiro recém divulgado, foi analisado o ciclo de vida de algumas opções de sacolas disponíveis no mercado brasileiro, algumas descartáveis (de polietileno tradicional, de polietileno de cana-de-açúcar e as aditivadas com promotor de oxibiodegradação) e algumas retornáveis (de papel, de ráfia, de tecido e de TNT – tecido não tecido). O estudo levou em consideração algumas das condições atuais no país quanto à tecnologia, métodos de produção e impactos ambientais decorrentes, quando se considera alguns cenários de uso da sacola e de descarte de lixo pelos consumidores, envolvendo como variáveis: o maior ou menor volume de compras, a maior ou menor frequência de idas ao supermercado, a maior ou menor frequência de descarte do lixo, o tipo de matéria-prima utilizada na produção das sacolas, a capacidade de carga e o custo de cada sacola, o número de vezes em que é utilizada, a reutilização ou não da sacola como saco de lixo e o envio ou não da sacola para reciclagem. Conforme afirmei acima, todos estes itens afetam o resultado do estudo, que só vale nas condições específicas por ele consideradas.

Nesse estudo, a análise ambiental do ciclo de vida (ACV) foi ampliada para considerar o que é chamado de “ecoeficiência”, que avalia cada alternativa quanto ao seu impacto ambiental adicionado à análise de seu custo em toda a cadeia produtiva.

O estudo mostra que a melhor opção de sacola depende do cenário em que ela é utilizada, podendo variar segundo o volume de compras, o número de idas ao supermercado e a frequência de descarte do lixo. Foram identificadas duas tendências. Por um lado, as sacolas descartáveis de plástico apresentaram melhor ecoeficiência em situações nas quais os consumidores têm menor volume de compras, menor frequência de ida ao supermercado e ou uma maior frequência de descarte de lixo, com o reuso das sacolas plásticas para o descarte desse lixo. Por outro lado, as sacolas retornáveis de tecido ou de plástico apresentaram melhor ecoeficiência nas situações em que os consumidores têm maior volume de compras, maior frequência de ida ao supermercado e ou uma menor frequência de descarte de lixo, com baixa compra de sacos para condicionar o lixo.

É interessante refletir sobre a razão para tais conclusões do estudo. A principal razão vem do fato das sacolas retornáveis, quando de sua fabricação, provocarem um impacto ambiental maior que o das descartáveis. Este impacto ambiental será diluído no número de usos que a sacola retornável terá. Quando o uso da sacola é diluído em poucas compras, poucas idas às compras e com alta frequência de descarte do lixo (onde a sacola descartável pode ser usada), o maior impacto da fabricação termina por incidir em maior proporção sobre a sacola descartável. Nesse caso, então, as descartáveis podem ser a melhor alternativa, a não ser que o consumidor decida aumentar o número de ida às compras, passando a comprar, por exemplo, todos os dias ou 3 a 4 vezes por semana.

Por outro lado, isto não quer dizer, de forma absoluta, que as sacolas plásticas descartáveis são a melhor alternativa para o transporte de compras nas situações descritas acima. Não, isto quer dizer que, entre as sacolas consideradas no estudo, que não representam todas as alternativas possíveis para o transporte de compras em nosso país, e nas condições atuais de disponibilidade de tecnologia, existem situações em que as condições do consumidor podem recomendar o uso das sacolas plásticas descartáveis como melhores do que as demais alternativas consideradas. Mas, volto a insistir, isto não quer dizer que não existam outras alternativas para o transporte de compras, ou que não existam outros comportamentos, por parte do consumidor, que poderiam levar a melhores resultados do que os obtidos para a sacola plástica descartável.

Fica claro que para fazer a escolha de um dado produto para consumo depende de muitas variáveis e do comportamento do consumidor. Não há conclusão única para todos os consumidores por meio de estudos de ecoeficiência.

A única coisa certa é que a descartabilidade não é uma escolha sustentável a longo prazo. Mesmo que todas as melhores alternativas se referissem a sacolas descartáveis, a busca pela sustentabilidade da vida no planeta exigiria pesquisar alternativas não descartáveis de menor impacto ambiental e custo adequado para o consumidor.

Nesse quadro, a educação do consumidor é sempre importante. O Akatu vem desenvolvendo um trabalho conjunto com a Braskem no qual está levando uma forma de educar para o consumo consciente para 1.466 escolas públicas e privadas da rede do Faça Parte. Com isso, pode-se formar consumidores que, em vez de se sentirem perplexos quanto à necessidade de informação para fazerem suas escolhas conscientes de consumo, pressionem as empresas por mais estudos de ecoeficiência para os diversos produtos existentes no mercado.

 

Helio Mattar, Ph.D em engenharia industrial, é diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente

 

Siga no twitter.

Curta no facebook.

Gostou da notícia? Compartilhe!
Ajude a disseminar o Consumo Consciente entre os seus amigos.
Compartilhe:
Leia mais: