Quem ganha e quem perde com a obsolescência programada

Diretora do documentário “The Light Bulb Conspiracy” conversa com o Akatu

 

 

“‘Era uma vez’ quando os produtos eram desenhados para durar muito mais e depois disso seus inventores desapareciam dos noticiários e os produtos sumiam do mercado”. Partindo de algumas lendas que circulam pela internet com esse roteiro, Cosima Dannoritzer escreveu e dirigiu o documentário “The Light Bulb Conspiracy” (em português, “Comprar, trocar, comprar”) que revela a história e os meandros da obsolescência programada.

Obsolescência vem de obsoleto, quer dizer tornar-se antigo, caduco. É algo que pode acontecer naturalmente com qualquer objeto – as coisas sofrem desgastes pelo uso comum. E se fosse possível ditar o momento em que um produto entra em desuso ou, de repente, “envelhece”? Planejar o envelhecimento de um produto é agir de acordo com a obsolescência programada. Ou seja, estabelecer quando ele vai deixar de servir, quando vai quebrar ou parar de funcionar, mesmo que pudesse tecnicamente durar muito mais.

Lançado em 2010 e apresentado no Brasil durante a 1ª Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, realizada em março deste ano, com apoio do Akatu, o documentário revela diversas facetas do problema, seus impactos e muitos exemplos ilustradores de um consumo que está longe do que propõe o Decálogo do Consumo Consciente. Segundo esse conteúdo produzido pelo Akatu, consumo consciente é também aquele que valoriza os produtos duráveis mais do que os descartáveis ou os de obsolescência programada.

O Akatu conversou com Cosima Dannoritzer para saber mais sobre a realização do filme e os impactos econômicos, sociais e ambientais desse aspecto que permeia a cadeia produtiva dos itens de consumo mais comuns na vida das pessoas. Os episódios relatados no documentário são facilmente identificáveis em qualquer parte do mundo. Afinal, quem nunca se deparou com uma impressora que parou de funcionar com apenas um ano de uso, tentou consertá-la e percebeu que era mais barato comprar outra?

Confira os principais trechos da entrevista.

Instituto Akatu – O que a motivou a fazer o documentário?

Cosima Dannoritzer – Eu ouvia falar de lendas sobre a obsolescência programada e todas seguiam o mesmo roteiro: “Era uma vez, um inventor registrou a patente de um produto que duraria para sempre e em seguida o inventor e sua invenção desapareciam sob circunstâncias misteriosas”. A internet está cheia dessas histórias. Queria saber se havia alguma verdade nelas. De fato, a realidade se revelou ainda mais estranha.

Instituto Akatu – De que informações você partiu para iniciar a fase de pesquisa?

Cosima Dannoritzer – O ponto de partida foram esses boatos, mas minha meta era encontrar evidências sólidas. Despendemos muito tempo discutindo entre nós se algo é verdadeiro ou não ao invés de desvendar os fatos. Quando temos os fatos na mão podemos seguir em frente e decidir se queremos fazer algo sobre ela.

Assim, eu passei um bom tempo pesquisando em diferentes arquivos (em Berlim e em Nova York) para encontrar documentos originais relacionados ao cartel das lâmpadas e para identificar testemunhas de outras histórias como, por exemplo, a das meias de nylon [no documentário um dos casos apresentados é o das meias de nylon que foram projetadas incialmente para durarem anos e, em seguida, foram redesenhadas para durarem menos]. No caso da impressora [outro episódio relatado no filme], fizemos o teste nós mesmos e funcionou! Era muito importante encontrar histórias positivas que pudessem inspirar mudanças [no filme, a equipe consegue solucionar consertar uma impressora a partir da reprogramação de um chip do equipamento que indicava a data em que deveria parar de funcionar]. Não faz sentido fazer as pessoas se sentirem vítimas impotentes diante dessas situações.

Há ainda uma série de livros e relatórios interessantes que forneceram informações de base relevantes. Por exemplo, “The Waste Makers”, de Vance Packard, é o primeiro livro completo  sobre obsolescência programada, publicado nos anos 1960 e cheio de estranhos e maravilhosos exemplos. “Cartels in Action”, um relatório norte-americano dos anos 1940, e o trabalho de Markus Krajewski que dedicou seu pós-doutorado a entender o funcionamento do cartel das lâmpadas também foram boas referências sobre o tema. “Made to Break”, do canadense Giles Slade, é um compilado com excelentes resumos de alguns dos últimos trabalhos realizados nessa área.

Instituto Akatu – Você teve dificuldade em encontrar informações sobre as práticas das empresas durante a fase de pesquisa? Quem foram seus principais colaboradores?

Cosima Dannoritzer – Eu não recebi nenhuma carta ameaçadora ou telefonemas pedindo para que eu não prosseguisse a pesquisa ou algo assim. Por outro lado, qualquer empresa envolvida na prática de obsolescência programada sempre será relutante em fornecer informações relevantes sobre esse assunto. Por exemplo, a Apple afirmou que não usa obsolescência programada. Mas os documentos legais da ação coletiva contra os primeiros iPods contam uma história diferente. E esses documentos não são de domínio público. Em outras palavras, contamos com uma variedade de fontes, algumas delas nos exigiram bastante paciência para que conseguíssemos acessá-las. Nós nos certificamos de que elas eram confiáveis (tanto quanto os documentos e cartas originais escritos pelos membros do cartel das lâmpadas).

Os livros e relatórios que citei também estão repletos de exemplos surpreendentes que nos indicaram um caminho a percorrer.

Instituto Akatu – Qual a reação das empresas até agora com relação ao filme?

Cosima Dannoritzer – A maioria dos fabricantes continua dizendo que nunca agiriam segundo a obsolescência programada porque seria contraproducente para o seu negócio e afastaria as pessoas do mercado. Mas isso não é verdade. Por exemplo, as impressoras a jato de tinta têm vida útil muito curta, independentemente da marca que você comprar. Então, como consumidores, nós realmente ficamos sem uma alternativa viável.

Outros fabricantes dizem que praticam a obsolescência programada em nome do progresso e que eles não enxergam isso como um problema, contanto que os preços se mantenham baixos e que as leis estejam sendo respeitadas. Eles realmente têm um ponto aqui: nós não queremos um computador de 20 anos de idade, por exemplo. Mas a vida útil dos produtos está ficando cada vez menor e nós não parecemos capazes de atualizar nada sem jogar fora o objeto todo, desperdiçando assim uma quantidade imensa de recursos e criando montanhas de lixo. Tudo isso dá origem a um enorme problema ambiental – para não mencionar os problemas de gastos financeiros individuais que temos com essas substituições impensadas.

Mas o meu filme não é sobre empresas específicas, embora mencionemos alguns nomes, casos e produtos. O problema da obsolescência programada é que ela está amplamente difundida no sistema de produção inteiro. De fato, ela é hoje um dos pilares que sustenta o crescimento da economia.

Instituto Akatu – As pessoas estão preparadas para consumir diferente? Por que é tão difícil para as pessoas mudar de hábitos com relação ao consumo?

Cosima Dannoritzer – Em geral, as pessoas estão mais preocupadas com seu fluxo de caixa imediato, ou seja, como pagar o menos possível ao comprar algo novo – ainda que se compre a mesma coisa de novo alguns meses depois. Quantas camisetas pretas ou brancas compramos todos os anos? Quantas lâmpadas de curta duração? Uma versão mais cara mas mais durável dos produtos pode funcionar da mesma maneira para nós e além de tudo economizar tempo.

O bombardeio constante de comerciais nos ensina desde muito cedo que bens materiais significam felicidade. Para ficarmos em um exemplo apenas: os jovens estão muito suscetíveis à crítica de seus pares, caso não tenham o último modelo de telefone celular ou a roupa certa para estar em uma festa. Mas eu penso que as pessoas começaram a perceber que essa equação não funciona mais, e que ter um telefone celular mais novo não significa automaticamente ter um grupo maior de amigos.

A crise atual nos traz algumas inspirações úteis – gostemos ou não. Não estamos mais em posição de mudar tudo quando bem entendermos.

Instituto Akatu – A seu ver, o que aconteceria em termos da economia se as empresas fizessem uma mudança nos seus produtos para se tornarem mais duráveis?

Cosima Dannoritzer – Quando comecei a procurar alternativas possíveis, fiquei preocupada com o fato de talvez encontrar apenas alguns acadêmicos aposentados que as defendessem e cujas ideias não poderiam ser aplicadas na prática. Então foi uma surpresa prazerosa encontrar por aí diferentes abordagens para o tema sendo realizadas na prática. Por exemplo, há empresas que vendem produtos duráveis convencendo seus clientes de que isso pode ser um bom investimento e, junto com a oferta desses produtos, fornecem informações relevantes sobre cada novo modelo. Uma lâmpada que dura 25 vezes mais e custa 25 vezes mais, na verdade, não é mais cara. E você pode economizar tempo em longo prazo, bem como energia, se substituir a atual por uma que consuma menos eletricidade.

Da mesma maneira, se voltarmos a consertar as coisas, criaremos postos de trabalho e geraremos menos resíduos. Penso ainda que devemos reconsiderar os nossos valores mais básicos: por que a nossa definição de “riqueza” quase sempre depende exclusivamente do que temos? Por que não nos consideramos ricos se temos acesso a um sistema gratuito de educação e saúde, ou a ar puro, ou a postos de trabalho que não nos demandem 48 horas de trabalho por semana ou muitas horas extras?

Instituto Akatu – Há três anos o Brasil, recebeu contêineres cheios de lixo vindos da Inglaterra. Esse episódio foi alvo de mobilização da população, os contêineres foram devolvidos e o presidente se manifestou publicamente repudiando a conduta do estado britânico. Como você avalia a prática de países desenvolvidos de encaminhar o lixo para fora do seu território? É possível evitar? Como?

Cosima Dannoritzer – Neste momento, 75% do lixo eletrônico produzido pelo chamado mundo desenvolvido – quase 50 milhões de toneladas por ano – é exportado ilegalmente para o terceiro mundo. O carregamento que chegou ao Brasil provavelmente foi uma pequena parcela dessa montanha, e é parte de uma grande indústria que lucra com essas exportações ilegais. Pouco tempo atrás, meio milhão de geladeiras foram encontradas na Espanha, abandonadas na zona rural do país. Os responsáveis por esse material tomaram para si o dinheiro que deveria ser destinado à reciclagem desses resíduos e simplesmente despejaram os produtos nesse lugar, conseguindo um lucro de 10 milhões de euros.

Me senti especialmente encorajada pela maneira com que os espectadores do documentário reagiram às imagens do lixão em Gana. Uma vez que sabemos que é lá que os nossos aparelhos velhos tendem a acabar, é mais fácil de nos sentirmos motivados a fazê-los durar um pouco mais. Se eu usar o meu celular por dois anos em vez de usá-lo por um – e isso não é um grande sacrifício –, e se todos fizermos isso, significa que apenas metade dos telefones em desuso seriam enviados para lixões ilegais. Como consumidores, podemos fazer uma grande diferença porque somos muitos e o mercado depende de nós. Por isso, se começarmos a demandar produtos duráveis ou aparelhos que podem ser consertados mais facilmente, o mercado seguirá essas indicações.

Mudanças políticas também estão acontecendo e nós somos parte da solução possível – neste momento o governo europeu em Bruxelas está revendo as leis que podem proibir a exportação ilegal de lixo eletrônico de maneira que sejam mais efetivas. Mas enquanto isso, o número de contêineres chegando a Gana todo mês quase triplicou, apesar da crise econômica. E esse é um crescimento muito preocupante.

Veja o trailer do documentário e conheça a página do filme no Facebook.
Crédito da foto: Marc Martínez Sarrado/Media 3.14

Leia mais:
– O que a obsolescência programada tem a ver com você?
– Decálogo da Produção Responsável e do Consumo Consciente

Leia também:
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