Produção alimentar precisa integrar sistemas humanos, sociais e políticos

Relatório “Estado do Mundo 2011” aponta que agricultura consome 70% da água e emite até 75% dos gases de efeito estufa.

A agricultura tal como a conhecemos hoje está em apuros: as atividades agrícolas são responsáveis por 70% do uso da água do planeta e respondem por 75% dos gases de efeito estufa nos países pobres, onde falta tecnologia. Por outro lado, enquanto 925 milhões de pessoas (cinco vezes a população brasileira) ainda passam fome no mundo, o desperdício chega a metade da produção nas nações em vias de desenvolvimento.

Estes são os principais pontos levantados pelo relatório “Estado do Mundo 2011 – Inovações que Nutrem o Planeta”, documento que o Instituto Akatu e o Worldwatch Institute Brasil (WWI Brasil) lançaram nesta quarta-feira (19/10) na versão em português, no teatro Eva Herz, da Livraria Cultura, em São Paulo. O documento conclui que “os desafios e incertezas a serem enfrentados exigem uma mudança de paradigma que deve levar em conta a complexidade de “agri” e “cultura”, a intersecção confusa entre lavoura e sistemas humanos, sociais e políticos; e que a atividade agrícola sustentável requer muito conhecimento, pesquisa e a combinação de inovações com a experiência dos agricultores”.

O evento de lançamento do relatório contou com um debate sobre a segurança alimentar e as inovações para a sustentabilidade no campo. Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu, e Eduardo Athayde, presidente do WWI Brasil, mediaram a discussão que teve como convidados o professor Luiz Carlos Beduschi Filho, do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais da USP e ex-consultor da FAO/ONU, e o economista e engenheiro José de Anchieta Ribeiro Santos, coordenador da Pastoral da Criança no Estado de São Paulo.

Da esquerda para direita: Anchieta Ribeiro Santos, Eduardo Athayde, Helio Mattar e Luiz Carlos Beduschi Filho

O relatório pode ser baixado gratuitamente aqui. Seguindo os preceitos de consumo consciente e de sustentabilidade, que o Akatu e o WWI defendem, o livro não será impresso.

“Reduzir as perdas certamente é uma grande oportunidade para os problemas apresentados pelo relatório”, destacou Mattar, baseando-se em dados que indicam que apenas com a redução do desperdício de alimentos, é possível alimentar os 9 bilhões de pessoas projetados para 2050. “Neste sentido”, disse Mattar, “o Akatu vem trabalhando pela redução do desperdício de alimentos por meio da sensibilização, conscientização e mobilização do consumidor para que ele compreenda os impactos do desperdício de alimentos e se perceba capaz de contribuir, de fato, para a solução do problema”.

“Somos 7 bilhões de pessoas e um em cada sete de nós, quando acorda pela manhã, não sabe o que comer ou se se vai comer. Os números do desperdício de alimentos são alarmantes e, enquanto isso, especialistas discutem como produzir mais”, diz Athayde. Segundo ele, “nós não podemos mais continuar crescendo em um planeta que é finito sem a readaptação dos diferentes setores, sem um novo modelo de produção e consumo que seja sustentável”.

Para Beduschi Filho, é preciso dar protagonismo aos pequenos agricultores. “Só assim podemos encontrar soluções sustentáveis para a insegurança alimentar que, apenas na América Latina, afeta quase 60 milhões de pessoas”, disse, destacando que, paradoxalmente, as comunidades mais vulneráveis à fome são formadas, em geral, por pequenos agricultores.

Santos criticou eficácia das políticas públicas de combate à fome. “Elas precisam ser pontuais, respeitando a diversidade social, cultural e econômica das populações, inclusive aqueles grupos marginalizados que não têm educação, não têm noção de cidadania e estão fora do perímetro urbano”, disse.

Produção africana perdeu valor agregado
O relatório ainda destaca que um em cada quatro humanos que sente fome no mundo vive na África. E a contradição reside no fato de o continente ter perdido valor agregado na agropecuária nos últimos 40 anos, enquanto o planeta teve um ganho médio de 35%.

Para se ter uma ideia, estima-se que 8 milhões de agricultores africanos irriguem suas plantações utilizando balde com água. Porém, se a atividade se desenvolver por lá, os trabalhadores poderão se fixar nas plantações e retirar da atmosfera 50 bilhões de toneladas dos gases de efeito estufa, causadores do aquecimento global.

Outro destaque do relatório refere-se ao problema das perdas pós-colheita nos países pobres e em desenvolvimento: a perda de alguns produtos chega a 50% do volume da produção. Na média de calorias, então, o valor perdido supera o que chega à mesa.

Veja na tabela abaixo, a relação entre a população e produção de alimentos e a fome no mundo, com destaque par a realidade africana.

Fontes: FAO, ONU, Via Campesina, Eric Holt-Giménez, in “From Food Crisis to Food Sovereignty: The Challenge of Social Movements”, Monthly Review, UN HABITAT, UNICEF, Forum for Agricultural Research in Africa, Framework for African Agricultural Productivity (Accra, Gana: junho de 2006).

 

O documento destaca ainda o problema das perdas pós-colheita nos países pobres e em desenvolvimento. Em alguns produtos, a perda chega a 50% do volume da produção. Na média de calorias, o valor perdido supera o que chega à mesa.

 

 

 

Veja algumas dicas para evitar o desperdício de alimentos dentro de casa:

– Faça uma lista de compras: em média, um terço do que compramos em alimentos vai direto para o lixo, porque compramos a mais e estraga. Cada família média brasileira acumula um desperdício anual de 255,5 kg de comida, o que significa que se poupasse o valor jogado fora, a mesma família acumularia quase R$ 1 milhão ao longo da vida;

– Não valorize apenas a aparência: ao preferir legumes com um pouco de terra, você terá um produto que durará mais. Lembre-se de lavá-los apenas na hora de comer. Outra boa dica é escolher produtos cultivados na sua região, pois isso reduz o custo de transporte e o desperdício;

– Mesa farta e consciente: primeiro faça uma estimativa do consumo real que a família vai fazer em certo tempo. Então, compre apenas esa quantidade de alimentos e bebidas, para evitar o desperdício.

O relatório
O relatório Estado do Mundo é produzido há 28 anos consecutivos, em 30 idiomas pela equipe de pesquisadores do WWI, sediado em Washington (EUA). As inovações para manter o homem no meio rural e garantir a sustentabilidade no campo são os temas do relatório de 2011.

 

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