OIT lança sistema de indicadores municipais de trabalho decente no Brasil

Estudo demonstra a enorme diversidade de oportunidades para promover trabalho decente no país e destaca necessidade de políticas públicas

Crédito: Creative commons/Prefeitura de Olinda

 

 

Comentário Akatu: Para alcançarmos um novo modelo de civilização, que valorize o bem-estar de todos é importante a participação de todos. Governos, sociedade civil e empresas – ou trabalhadores e empregadores, como a OIT define – precisam estar envolvidos nesse processo, que culminará na construção de um novo modelo de produção e consumo mais sustentável, que valorize as relações de trabalho mais justas. O estudo feito pela OIT sobre o sistema de indicadores municipais de trabalho decente no Brasil, mencionado na reportagem abaixo, pode contribuir muito para a construção desse modelo.

 

O escritório da Organização Internacional do Trabalho (OIT) no Brasil  lançou, no dia 28/11, um sistema inédito de indicadores municipais de trabalho decente. De acordo com a organização, o estudo demonstra a enorme diversidade de oportunidades e desafios para a promoção do trabalho decente no país, destacando a necessidade do fortalecimento de políticas públicas direcionadas às especificidades territoriais.

“O lançamento de um conjunto de dados sobre trabalho decente em nível municipal tão completo e específico como este é inédito no mundo”, afirmou a diretora da OIT no Brasil, Laís Abramo. “As informações reveladas por esse sistema são extremamente valiosas por permitirem a identificação das oportunidades e dos desafios particulares de cada um dos 5.565 municípios brasileiros nesse âmbito. Dessa maneira, elas constituem um recurso estratégico para a melhor implementação da Agenda e do Plano Nacional de Emprego e Trabalho Decente, além das agendas estaduais e municipais de trabalho decente e de políticas públicas de importância estratégica para o desenvolvimento do país, como o Brasil Sem Miséria e o Pronatec, na medida em que permitem uma análise integrada das dinâmicas laboral, espacial, econômica e social de cada município.”

O Sistema de Indicadores Municipais de Trabalho Decente é baseado no Censo de 2010 e em outras fontes de informações do IBGE, mas também utiliza registros administrativos de diversas instituições do Sistema Estatístico Nacional, como a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), além de outras estatísticas do Ministério do Trabalho e Emprego, da Previdência Social e do Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome.

As informações estão disponíveis para consulta no website http://simtd.oit.org.br, no qual é possível realizar o download de relatórios sobre cada um dos 5.565 municípios brasileiros existentes em 2010, além da respectiva base de dados e de uma síntese das principais evidências referentes ao conjunto dos municípios. Os dados se referem a distintos períodos, de acordo com a disponibilidade das informações e a natureza da análise, com predomínio para o período de 2010 a 2013.

O conceito de “trabalho decente” sintetiza a missão histórica da OIT de promover oportunidades para que homens e mulheres obtenham um trabalho produtivo e de qualidade, em condições de liberdade, equidade, segurança e dignidade humanas, sendo considerado condição fundamental para a superação da pobreza, a redução das desigualdades sociais, a garantia da governabilidade democrática e o desenvolvimento sustentável.

“O trabalho é um dos vínculos primordiais entre o desenvolvimento econômico e o social, já que representa um dos principais mecanismos pelos quais os seus benefícios podem efetivamente chegar às pessoas e, portanto, ser mais bem distribuídos”, ressaltou Laís Abramo. Os dados do novo sistema de indicadores municipais estão organizados em dez áreas temáticas, que correspondem às dez dimensões de medição do trabalho decente:

– oportunidades de emprego;
– rendimentos adequados e trabalho produtivo;
– jornada de trabalho decente;
– conciliação entre o trabalho, vida pessoal e familiar;
– trabalho a ser abolido;
– estabilidade e segurança no trabalho;
– igualdade de oportunidades e de tratamento no emprego;
– ambiente de trabalho seguro;
– seguridade social; e
– diálogo social e representação de trabalhadores e empregadores.

O Sistema de Indicadores Municipais de Trabalho Decente foi produzido pelo Escritório da OIT no Brasil, em cooperação técnica com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, com o apoio da União Europeia e do Departamento de Estatística da sede da OIT em Genebra. Seu lançamento dá continuidade à publicação do 1º Perfil do Trabalho Decente no Brasil, em 2009 , com dados nacionais, e do Perfil do Trabalho Decente no Brasil: um Olhar sobre as Unidades da Federação em 2012, com dados dos 26 Estados brasileiros e do Distrito Federal.

Principais evidências

Informalidade
Uma das principais revelações do novo Sistema de Indicadores Municipais de Trabalho Decente é que um esforço concentrado em 24 municípios poderia reduzir significativamente o número de trabalhadores e trabalhadoras em situação de informalidade no Brasil. De acordo com os dados, um grupo de apenas 24 municípios com mais de 100 mil trabalhadores e trabalhadoras em situação de informalidade – composto por diversas capitais e grandes centros urbanos – abrigava 6,8 milhões de pessoas ocupadas em trabalhos informais, o correspondente a 20,5% do total nacional (33,2 milhões). É importante destacar ainda que, apesar de terem níveis de formalização maiores, as capitais abrigam um de cada cinco trabalhadores e trabalhadoras informais. Além disso, foi constatado que metade dos municípios com taxa de informalidade acima de 50% eram da região Nordeste.

Também se observou que, ao final de 2013, todos os municípios brasileiros contavam com trabalhadores e trabalhadoras formalizados na condição de microempreendedor individual (MEI). Naquela data, um significativo contingente de 3,66 milhões de trabalhadoras e trabalhadores já estava formalizado por intermédio da figura do MEI, o que contribuiu expressivamente para a redução da informalidade laboral. Com efeito, a título apenas de aproximação, este número de ocupados/as formalizados pelo MEI representava 11,0% do total da força de trabalho ocupada em trabalhos informais no país (33,2 milhões) no ano de 2010.

Desocupação
Os menores índices de desocupação entre as capitais foram observados em Curitiba (4,7%) e Florianópolis (4,9%) e os maiores em Salvador (12,9%) e Recife (12,5%). É importante enfatizar que, de um modo geral, a desocupação é maior entre as mulheres e a população negra. Em Salvador, por exemplo, enquanto a taxa de desocupação entre os homens brancos era de 7,1%, ela alcançava 18,0% entre as mulheres negras.

Rendimento
Segundo os dados do Censo 2010, cerca de 75% do rendimento domiciliar no Brasil era proveniente do trabalho, sendo que em 93,4% dos municípios brasileiros o rendimento do trabalho representava mais da metade do rendimento total domiciliar. Isso acontecia até mesmo na Região Nordeste – a mais pobre do país e que, consequentemente, conta com um maior volume de transferência de renda oriunda de programas sociais, sobretudo do Bolsa Família – onde o rendimento do trabalho é superior a 50% em 81% dos municípios.

Trabalho doméstico
Vale também destacar um grupo de 68 municípios com percentual de trabalhadores(as) domésticos(as) com carteira assinada abaixo de 25%, que inclui diversas capitais e municípios de significativo porte populacional das regiões Norte e Nordeste, como Teresina (24,1% de trabalhadores domésticos com carteira assinada), Macapá (24,5%) e Boa Vista (24,8%), além de Feira de Santana (21,6%) e Vitória da Conquista (19,9%), na Bahia, Petrolina (22,8%), em Pernambuco, Campina Grande (23,2%), na Paraíba, Sobral (9,7%), Juazeiro do Norte(11,7%) e Caucaia (14,2%), no Ceará, e Santarém (16,7%), no Pará.

Trabalho forçado
Os dados revelam que, dos 316 municípios brasileiros onde foram flagrados trabalhadores submetidos a condições análogas à escravidão em 2013, 62,3% não possuíam programas ou ações de combate ao uso de trabalho forçado.

Trabalho infantil
Das 888,4 mil crianças e adolescentes de 14 ou 15 anos de idade que trabalhavam conforme registrado pelo Censo de 2010, apenas 2,7% faziam isso na condição de aprendizes. Isso significa que o trabalho exercido por 97,3% dos adolescentes dessa faixa etária não era permitido por lei, enquadrando-se, portanto, na categoria de trabalho a ser abolido. Além disso, 86,3% dos municípios brasileiros não registravam um aprendiz sequer na faixa etária mencionada no ano de 2010.

Jovens
Um de cada cinco jovens entre 15 e 24 anos de idade no Brasil não trabalhava nem estudava em 2010. Considerando as jovens mulheres, os afazeres domésticos e as responsabilidades associadas à maternidade têm grande relação com isso. Em 2010, 48,3% das mulheres entre 15 e 24 anos que não trabalhavam nem estudavam eram mães.

Pessoas com deficiência
Considerando o grande desafio de incluir pessoas com deficiência no mercado formal de trabalho, 31,5% dos municípios brasileiros não tinham nenhuma pessoa com deficiência no mercado formal de trabalho, segundo dados do MTE de 2012. Em 72% deles a administração pública respondia por mais da metade do emprego formal. Isso quer dizer que, na condição de principais empregadoras do mercado formal nesses municípios, as prefeituras poderiam empreender políticas e ações inclusivas de pessoas com deficiência nos seus quadros funcionais.

Educação
Finalmente, com relação ao nível de instrução da população em idade potencial para trabalhar, observou-se que, em 81% dos municípios, mais da metade da população de 15 anos de idade ou mais não tinha instrução ou tinha o ensino fundamental incompleto.

Para consultar o Sistema de Indicadores Municipais de Trabalho Decente, acesse: http://simtd.oit.org.br

Fonte consultada: OIT Brasil

 

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