O que conta é o exemplo

Não se deve julgar o mérito de um homem pelas suas qualidades eminentes, mas pelo uso que faz delas” – La Rochefoucauld

Se algum marciano visitasse o Brasil ouvindo discursos e palestras, lendo artigos e editoriais e fazendo pesquisas de opinião pública, estaria com a certeza que somos quase todos contra a corrupção e a violência, a favor da ética, de uma melhor distribuição da renda, de eleger a criança e o adolescente, a educação e a saúde pública como grandes prioridades do país.

Ao mesmo tempo, nosso país é um dos mais corruptos e violentos do mundo, temos a pior distribuição de renda do planeta, nossas crianças e adolescentes estão entre as mais maltratadas do mundo e a nossa educação e saúde pública estão caindo aos pedaços.

Certamente algo está completamente errado. A prática não acompanha o discurso e, o que é pior, muita gente não percebe a relação e a compatibilidade que deveriam existir entre discurso e prática. Tão ou mais grave ainda é a inconsciência quanto ao fato de que o que conta mesmo são as ações, as atitudes, principalmente daqueles que ocupam posições de autoridade e que possuem o poder de criar exemplos e referências.

Discursos de anos a fio, de pais para filhos, sobre cidadania e respeito às regras e aos direitos do próximo são jogados no lixo no momento em que se pega o acostamento no congestionamento de fim de semana com a família dentro do carro assistindo a tudo.

O setor empresarial é atualmente o setor mais poderoso da sociedade. Não faço julgamento de valor dizendo que isso é bom ou ruim. Constato apenas uma realidade. É o setor que possui imensos recursos, um grande patrimônio (o faturamento de algumas empresas é maior que o PIB de muitos países), detém informações, conhecimentos, tecnologia, poder de influenciar pessoas e criar hábitos e culturas (controla meios de comunicações, é um grande anunciante e distribui informações para diversos públicos com os quais se relaciona) e possui um grande poder político (todos sabem do peso do poder econômico no processo eleitoral e político).

Onde há poder deve haver responsabilidade. Quanto maior é o poder maior é a responsabilidade. Por isso, a adoção da responsabilidade social por parte das empresas é tão importante para uma transformação ética e social em nosso país. Ao adotar políticas e práticas socialmente responsáveis a empresa cria valores e exemplos que influenciam as diversas comunidades que são impactadas por suas ações.

Em primeiro lugar, é fundamental que os valores e princípios adotados pela empresa sejam praticados em todas as suas ações e com todos os públicos com os quais a empresa se relaciona. A coerência é que dá credibilidade e é o que transforma ações em exemplos. Não adianta a empresa investir em projetos educacionais na comunidade se não se preocupar com a educação dos seus funcionários e dos seus filhos, se poluir o meio ambiente , se envolver em corrupção e burlar as leis, apoiar políticos corruptos e que não compartilham dos mesmos valores, enganar e lesar o consumidor, discriminar pessoas por motivos de raça, gênero, crenças religiosas, convicções políticas, por idade ou por serem portadoras de deficiências físicas ou mentais, praticar concorrência desleal, lesar acionistas ou ignorar práticas socialmente irresponsáveis de fornecedores.

Todos os dias a empresa, seus dirigentes e funcionários tomam decisões. São escolhas a fazer, custos e benefícios a pesar. A responsabilidade social é praticada quando serve de balizamento para tomada de decisões. Esta é a hora da verdade, o momento de verificar a coerência entre discurso e prática, o momento de dar o exemplo. É fundamental saber que há sempre um preço a pagar, existe sempre uma perda mas que o ganho de credibilidade é infinitamente maior.

Por último quero ressaltar o crucial papel dos altos dirigentes da empresa, a começar por seu presidente. Sem seu comprometimento e seu exemplo não há a mínima possibilidade da empresa se tornar socialmente responsável. As pessoas olham os dirigentes e balizam suas ações não por seus discursos mas pelo exemplo de suas práticas, atos, atitudes e decisões. Se a alta direção não aderir ao conjunto dos princípios e valores da empresa, os demais profissionais não terão motivação para fazê-lo. A máxima do “não faça o que faço, faça o que digo” não é eficaz em terreno algum.

O Brasil está mergulhado na violência e numa imensa crise social e de valores. O setor empresarial, ao adotar políticas e práticas socialmente responsáveis, por seu grande poder e influência, pode, pelo exemplo, ajudar e ser um importante parceiro na criação de valores e referências éticas que possam aglutinar a sociedade em torno do projeto de um país prospero, ético e socialmente justo.

Oded Grajew é diretor-presidente do Instituto Ethos, presidente do Conselho de Administração da Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e membro do Conselho Deliberativo da Transparência Brasil

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