O melhor lugar do mundo é aqui

Embora subjetiva, a felicidade ganha espaço como assunto de Estado. Uma proposta é mobilizar, pois o desafio está em transformar a realidade

 

O assunto felicidade dá sinais de ter entrado definitivamente na agenda do século 19.  Em especial depois da constatação de que apenas o crescimento econômico não é suficiente para promover a felicidade individual e, além disso, contribui para a exaustão dos recursos naturais e a mudança climática, comprometendo a felicidade também das próximas gerações.

De críticas isoladas ao modelo centrado apenas no crescimento econômico no início dos anos 60 a uma profusão de artigos científicos e à construção de novos métodos para avaliação do bem-estar das pessoas nos dias de hoje, a felicidade passou a ser até assunto de Estado.

Talvez o mais significativo sinal dessa mudança seja a iniciativa do primeiro-ministro britânico David Cameron de seguir os passos do pequeno Butão e implantar um sistema que permita medir e entender o que é realmente importante para o bem-estar dos britânicos.  O Serviço Nacional de Estatísticas (Office for National Statistics) convida os ingleses a responder à pergunta: “O que é felicidade?”

Para Cameron, que começou a falar do assunto quando assumiu a liderança do Partido Conservador, em 2006, mensurar o bem-estar das pessoas é tão importante quanto medir o Produto Interno Bruto (PIB).  “Vamos começar a medir o nosso progresso como um país e não apenas pela forma como nossa economia está crescendo”, afirmou, em reportagem publicada pelo jornal Daily Mail.  Na visão de Cameron, é tempo de admitir que a vida é mais que dinheiro.

Mas o grande problema nesse tipo de abordagem é que o conceito de felicidade é altamente subjetivo.  O que é felicidade para uns pode não ser (e frequentemente não é) para outros.  O maior desafio é saber o que fazer em termos de políticas públicas com os dados levantados através da pesquisa, afirma Alan Walker, professor de Política Social da Universidade de Sheffield, em artigo publicado na revista The Economist.

O conceito de Felicidade Interna Bruta (FIB) nasceu no Butão, um pequeno país do Himalaia, em 1972, elaborado pelo rei Jigme Singye Wangchuck, e, a partir daí, com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud), vem sendo colocado em prática, inspirando ações em outras partes do mundo.  O FIB tem como base a premissa de que o objetivo principal de uma sociedade não deveria ser somente o crescimento econômico, mas a integração do desenvolvimento material com o psicológico, cultural e espiritual, sempre em harmonia com o planeta.

No Brasil, uma das principais iniciativas sintonizadas com a prática do FIB é o Instituto Visão Futuro, coordenado por Susan Andrews, uma americana que vive no Brasil há mais de 15 anos.  O FIB considera nove dimensões da vida humana no cálculo do índice de felicidade: bem-estar psicológico, saúde, uso equilibrado do tempo, vitalidade comunitária, educação, cultura, resiliência ecológica, governança e padrão de vida.  “É por isso que acho o FIB tão interessante.  É o pensamento sistêmico na prática.  Nove dimensões interligadas, interagindo entre elas”, diz Susan. (Acesse aqui mais informações sobre o FIB e teste seu nível de felicidade.)

Para escapar da armadilha apontada pelo professor Alan Walker, os formuladores do FIB sugerem o uso da mesma abordagem que vem sendo usada no Butão, Brasil e Canadá: aplicar o questionário ao nível das comunidades locais e não em grandes pesquisas nacionais.  Pois, uma vez que a meta final do processo do FIB não é de apenas medir a realidade, mas transformá-la, é importante que seja aplicado ao nível de pequenas comunidades onde os grupos possam se mobilizar coletivamente para efetivar mudanças positivas baseadas no resultado do levantamento.

Esse é o caminho escolhido pelo Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD), fundado há 27 anos pelo educador popular, antropólogo e folclorista Tião Rocha, em Minas Gerais.  No caminho para avaliação da qualidade dos projetos desenvolvidos pela organização não governamental, a equipe do CPCD criou uma metodologia de avaliação que hoje é uma referência no terceiro setor, feita com base em quatro dimensões: satisfação econômica, valores humanos e culturais, compromisso ambiental, e o que Tião Rocha chama de “empodimento”, uma versão cabocla para empowerment (empoderamento).

O projeto mais ambicioso é o Arassussa, no Vale do Jequitinhonha.  Desde 2005, 13 organizações brasileiras do Segundo e Terceiro Setor, ligadas à Fundação Avina, trabalham unidas com o objetivo comum de fazer de Araçuaí (com cerca de 36 mil habitantes, segundo o IBGE), cidade-polo da região, uma cidade sustentável.  O grau de felicidade é um dos 12 índices medidos pelos pesquisadores do CPCD como forma de avaliar o resultado das ações implantadas.  Felicidade, para o CPCD, significa “sentir-se bem com o que temos e somos”.

O trabalho ao nível local que transfere maior poder para as pessoas é também o objetivo de outra iniciativa do governo britânico.  O que David Cameron chama de Grande Sociedade (Big Society).  Mesmo duramente criticado pelos cortes que impôs ao orçamento em razão do déficit das contas públicas, Cameron leva adiante seu projeto de construção de um modelo mais participativo, que devolva o poder de decisão paras as comunidades.  Na visão dele, encorajar o trabalho voluntário e a ação social pode contribuir para o fortalecimento da sociedade britânica, e, consequentemente, aumentar o grau de felicidade individual.

Cameron busca alternativas para o modelo baseado apenas no crescimento econômico justamente porque a sociedade britânica já atingiu um patamar de desenvolvimento em que a aquisição de mais bens não resulta em mais felicidade.  O mesmo acontece com os Estados Unidos, o Japão, a França e outros países desenvolvidos.

Em 2008, o presidente francês, Nicolas Sarkozy, encomendou aos economistas Joseph Stiglitz e Amartya Sen (ambos Prêmio Nobel de Economia) um estudo que indicasse qual a melhor forma de medir o desenvolvimento.  O estudo concluiu que seriam necessárias medidas diferentes para avaliar o desempenho econômico, a sustentabilidade e a qualidade de vida.  Uma das propostas seria substituir o cálculo do PIB, a soma das riquezas produzidas no país, pela renda ajustada das famílias.  Ou seja, saber que quantia uma família tem efetivamente disponível para gastar.

Mas a mensagem-chave do relatório, no entanto, é clara: está na hora de mudar os critérios de avaliação, dando menos peso ao desempenho da economia e mais valor para o bem-estar das pessoas.

O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), do Pnud, e o Happy Planet Index (Índice de Felicidade do Planeta) aparecem como alternativas para medir o grau de felicidade individual e da sociedade.  O IDH, idealizado pelo economista paquistanês Mahbud ul-Haq, com a colaboração de Amartya Sen, pretende ser uma medida geral do desenvolvimento humano e não uma representação da felicidade das pessoas.  Enquanto o Happy Planet Index, da New Economics Foundation (NEF), coloca lado a lado a eficiência ecológica e a melhoria de vida.

Outro caminho é o Índice de Valores Humanos (IVH), também do Pnud, que trata de aspectos mais qualitativos do desenvolvimento.  Foi criado para ser complementar ao IDH e busca vivências nas quais os valores humanos têm um papel-chave.  Não é um indicador para governos apenas, pois aborda experiências vividas pelas pessoas em seu cotidiano.  Coisas simples como esperar por uma consulta médica, ter prazer ou sofrimento no trabalho, entre outras.

Ainda assim, medir a felicidade de cada um não é uma tarefa fácil.  O HPI, por exemplo, é definido por seus idealizadores como uma bússola capaz de indicar o que realmente importa para as pessoas, como o bem-estar em termos de uma longa, feliz e significativa vida e o que interessa ao planeta no que se refere ao consumo de recursos.  Pelo critério utilizado, a Costa Rica é o país com o melhor índice de felicidade no mundo (76,1 de 100 pontos), enquanto o Brasil é o nono, e a Inglaterra, o 74º.

Talvez comparar a felicidade individual com a saúde planetária não seja mesmo uma alternativa válida.  O professor Ruut Veenhoven, especialista em felicidade humana da Universidade Erasmus de Roterdã, na Holanda, investigou as relações entre consumo sustentável e felicidade.  Um dos argumentos mais comuns para a promoção do consumo sustentável é que ele poderia, a longo prazo, aumentar a felicidade de um grande número de pessoas.  As evidências sugerem, no entanto, que a mudança para o consumo sustentável envolveria uma redução da felicidade da geração atual, pelo menos temporariamente.  O consumo sustentável pela geração atual pode acrescentar a felicidade de gerações seguintes apenas se isso conseguir evitar a pobreza em massa e desastres ecológicos importantes.  Caso contrário, afirma Veenhoven, não se esperam efeitos substanciais.

O que ele aponta como algo positivo é que a sociedade atual pode viver igualmente feliz com menos luxo.

 

PEC da Felicidade

No Brasil, o Movimento + Feliz [1] procura fazer a ponte entre a felicidade atual e o bem-estar das futuras gerações a partir de duas iniciativas: desenvolvendo uma plataforma na qual as pessoas possam fazer uma autoavaliação de sua qualidade de vida e buscando incluir a palavra felicidade na Constituição, a exemplo do que já fizeram outros países.

A Proposta de Emenda Constitucional, conhecida por “PEC da Felicidade”, foi apresentada a pedido do Movimento + Feliz pelo senador Cristovam Buarque (PDT-DF), aprovada pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania e vai a plenário.  Pela proposta, o artigo 6º da Constituição teria incluído em sua redação a expressão a “busca da felicidade”.  Com a alteração, o artigo ficaria assim: “são direitos sociais, essenciais à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados”.

Não se trata de garantir a felicidade de todos, mas uma forma de ter o bem-estar como parâmetro de políticas públicas.  Criar as condições para que cada cidadão busque a sua felicidade.  “O objetivo da PEC é humanizar os indicadores de progresso, pois o PIB não pode ser um indicador de bem-estar, porque mede apenas o poder de compra.  E ter poder de compra não significa ser feliz”, diz Cristovam Buarque.

 

[1] Movimento que se apresenta como apartidário e não governamental, criado pela agência 141 Soho Square, com o objetivo de articular empresas, indivíduos e ONGs em torno de ações que levem à melhoria da educação no Brasil.

Este artigo foi escrito originalmente para a edição 50 da revista Página 22.

 

Se você quiser seguir o Akatu no twitter, clique aqui.

Gostou da notícia? Compartilhe!
Ajude a disseminar o Consumo Consciente entre os seus amigos.
Compartilhe:
Leia mais: