O Brasil ainda não inseriu a mudança do clima em sua agenda

Entrevista com Fábio Feldmann, consultor ambiental e de desenvolvimento sustentável e Secretário Executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas

O senhor acredita que o Brasil está no caminho certo para desenvolver-se com sustentabilidade?

Feldmann: Eu acho que o Brasil reúne todas as condições para isso, mas infelizmente estamos muito longe de termos incorporado as práticas sustentáveis de maneira geral. Eu digo que nós temos condições porque o Brasil é uma sociedade complexa, avançada de certa maneira, possui massa crítica e uma sociedade civil organizada. Eu penso que nós temos condições para sermos uma referência em sustentabilidade, mas infelizmente muitos indicadores mostram que estamos longe disso.

Inclusive os indicadores de Desenvolvimento Sustentável (apresentados pelo IBGE este ano) mostram que, apesar de termos reduzido a emissão dos gases que destroem a camada de ozônio, nosso país ainda está entre os cinco maiores poluidores do mundo.

Feldmann: Na verdade, essa redução depende de qual é o patamar. O Brasil é atualmente um grande contribuinte em função do desmatamento da Amazônia e das queimadas. Essa é uma posição muito incômoda e, além disso, o Brasil está em primeiro lugar em desmatamento – em segundo lugar, vem a Indonésia. Infelizmente, o Brasil está nesta posição desconfortável e penso que o nosso país ainda não colocou em sua agenda o tema da mudança do clima.

E como isso poderia acontecer? De quem deve partir essa iniciativa?

Feldmann: A sociedade brasileira tem condições de ter um papel de liderança no mundo. Na minha opinião, o ator social mais refratário à questão de sustentabilidade é o poder público. Eu acho que o poder público tem um potencial de liderança muito importante, tanto do ponto de vista de regulação quanto do ponto de vista de indução e de boas práticas. Mas infelizmente eu acho que não está na agenda do poder público, como deveria, o tema da sustentabilidade.

Hoje muitas empresas se dizem sustentáveis, mas o real entendimento do termo ainda é muito variável. Como avaliar quem é realmente sério de quem apenas faz propaganda?

Feldmann: Eu defendo que o consumidor, isso em qualquer parte do mundo, tem um papel crucial desde que ele tenha acesso às informações sobre bens e serviços. Quer dizer, ele deve procurar saber se determinada empresa é séria e se um produto provoca um maior ou menor impacto no ambiente. Neste sentido, eu penso que há de se fazer um esforço muito grande de criar os instrumentos para que o consumidor possa exercer o papel político. O que está faltando aí, e isso não é só no Brasil, é que esta informação seja produzida. Existem algumas iniciativas importantes, como os relatórios de sustentabilidade, pegada ecológica, mas ainda é necessário avançar muito em relação a isso.

Neste caso, este avanço a que o senhor se refere seria de o próprio consumidor buscar essas informações corretas?

Feldmann: Isso mesmo, para que ele próprio possa fazer o exercício correto das suas decisões.

Às vezes, esse acesso se torna difícil, pois muitas vezes o consumidor depende de informações que são passadas tanto pela mídia como pelas próprias empresas…

Feldmann: Sim, exatamente. Também falta dar ao consumidor uma melhor condição para as suas escolhas.

Quando se fala em desenvolvimento sustentável nos ambientes urbanos, qual tema deveria ser tratado com maior urgência?

Feldmann: Eu tenho dificuldade em dizer isso porque é quase como se você me perguntasse se eu prefiro morrer de câncer no pulmão esquerdo ou no direito. Hoje, eu acredito que um dos maiores problemas do cidadão urbano seja a poluição do ar. Fazendo uma relação com o que você me perguntou anteriormente, em relação a bens e serviços o consumidor tem uma autonomia de escolha; já com relação ao ar que ele respira, ele não tem. Portanto, eu penso que hoje o grande desafio seja combater a poluição do ar dos grandes centros urbanos brasileiros.

E percebemos isso justamente por conta do aumento dos veículos nas cidades, mesmo com o rodízio em vigor, o trânsito piora a cada dia…

Feldmann: Essas são as contradições do Brasil. O acesso ao automóvel cresce a cada dia. A indústria automobilística está muito bem de vida – o que só faz aumentar o congestionamento -, mas ao mesmo tempo não há opção, pois falta transporte público. Nós estamos em uma briga com a Petrobras com relação à qualidade do diesel. O Brasil deveria colocar em sua agenda o desenvolvimento sustentável, por exemplo, no campo dos transportes. O País está crescendo perigosamente a sua taxa de motorização, ou seja, cada vez mais pessoas têm acesso ao automóvel, e isso vem causando um impacto enorme na qualidade de vida, tanto na poluição do ar como no congestionamento, sem que haja boas políticas de mobilidade e de transporte.

O senhor comentou sobre essa preocupação em melhorar a qualidade do diesel, mas não seria o caso de incentivar as empresas de transporte a investirem em combustíveis mais limpos?

Feldmann: Nós estamos na briga com a Petrobras porque existe uma resolução do Conama, chamada 315/2002, que define o padrão de qualidade do diesel e a Petrobras está se recusando a oferecer este diesel nessa especificação. Então, este é um caso típico que depende do poder público, no caso da Petrobras, em oferecer um diesel de qualidade, tanto para as empresas de ônibus quanto para as transportadoras também.

Como deputado, o senhor criou várias leis ambientais. O senhor pretende candidatar-se novamente?

Feldmann: Não, não pretendo.

Por quê?

Feldmann: Eu fui por 12 anos deputado [foi eleito Deputado Federal por três mandatos consecutivos (1986 – 1998) e participou como Deputado Constituinte na elaboração da Constituição de 1988, sendo responsável pela elaboração do capítulo destinado ao meio ambiente], fui secretário [Secretário Estadual de Meio Ambiente de São Paulo de 1995 a 1998], e eu acredito que a política é muito importante como instrumento de transformação da sociedade. Eu penso que é preciso abrir espaço para pessoas sérias, comprometidas com os nossos temas, mas eu, pessoalmente, vejo esta fase em que me dediquei à política como um período da minha vida que se esgotou. Eu trabalho muito com ONGs, com a sociedade civil, trabalho com o objetivo de promover a conscientização, mas esta fase já passou na minha vida. Hoje eu já não pretendo mais me candidatar.

(*) Esta entrevista foi originalmente publicada na revista Ambiente Urbano

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