“No Brasil, elas escolhem”

Samyra Crespo, do Ministério do Meio Ambiente, fala do papel da mulher no desenvolvimento sustentável

O Dia Internacional da Mulher é motivado pela busca de igualdade de direitos entre homens e mulheres, nos ambientes doméstico, político e de trabalho. Ele celebra as diversas conquistas do Movimento Feminista no mundo: participação política, salários mais próximos aos dos homens, ocupação de posições de poder, proteção contra violência doméstica, entre muitas outras. Junto com essas mudanças, há uma mudança também na visão que as mulheres têm de si mesmas: cada vez mais elas reconhecem sua própria autonomia e poder de transformação da realidade.

Em casa, cada vez mais elas contribuem e até assumem as contas. Muitas vezes controlam as finanças e são elas as responsáveis pelas decisões de compra. No Brasil, a renda média feminina na classe C aumentou 78% de 2002 a 2010, segundo pesquisa do Data Popular, encomendada pela Editora Abril, realizada entre março e julho de 2011. Além disso, entre 70% e 80% das decisões de consumo hoje no Brasil são tomadas por mulheres. Isso significa que, se as mulheres se tornarem consumidoras conscientes, o país tem grandes chances de tornar-se um país mais sustentável e melhor para se viver.

O Akatu entrevistou Samyra Crespo, Secretária de Articulação Institucional e Cidadania Ambiental do Ministério do Meio Ambiente, sobre o papel da mulher na transformação da sociedade, por meio de atos de consumo. Crespo comenta pesquisa a ser lançada pelo Ministério em que se evidencia a importância do papel da mulher em estratégias de educação para o consumo consciente. Intitulado “O que os Brasileiros pensam sobre Desenvolvimento Sustentável”, o levantamento conta com a participação do governo, da iniciativa privada e de organizações não governamentais, incluindo o Instituto Akatu. É o quinto estudo de uma série desenvolvida a cada quatro anos desde 1991.

Confira os principais trechos da entrevista.

Instituto Akatu – Qual o papel da mulher na transformação de hábitos em direção ao consumo consciente e ao desenvolvimento sustentável?
Samyra Crespo – As mulheres hoje são maioria em diversos países. Somos 52% da população no Brasil. Os últimos censos mostram que, além de ser maioria, as mulheres formam a parcela mais escolarizada da população. Evidentemente, qualquer projeto de desenvolvimento de um país não pode abrir mão desse grupo.

As atuais políticas de inclusão social e econômica apontam para o maior aproveitamento dessa mão de obra cada vez mais qualificada. Esse grande potencial intelectual é favorável a qualquer projeto de desenvolvimento, que esperamos e trabalhamos para que seja sustentável. E as mulheres por essas e outras características têm papel crucial no nosso plano de crescimento do país.

Instituto Akatu – A mudança do perfil econômico e cultural da população feminina pode ser fator mobilizador de políticas e ações pelo consumo consciente?
Samyra Crespo – Sim. Entre 70% e 80% das decisões de consumo hoje no Brasil são tomadas por mulheres – especialmente da classe C. Esta conclusão é fruto da interpretação feita pelo IPEA [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada] dos dados do PNAD [Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, produzida pelo IBGE] e da pesquisa realizada pelo Data Popular da Editora Abril. As mulheres sofrem influência do mundo em que vivem para decidir: opinião dos familiares, dos amigos, da mídia. Mas são elas que escolhem.

Reconhecer esse poder de escolha e a possibilidade de desempenhar mudanças de comportamento a partir dele é, antes, entender: que mulheres são essas? O que elas consomem? Que conhecimento e repertório construíram sobre o que são produtos sustentáveis? Mais que isso, é necessário avaliar também as condições disponíveis para que façam escolhas a partir do consumo consciente.

Acesso à informação não nos leva necessariamente a escolher este ou aquele produto ou serviço. Ter informação influencia tanto a escolha quanto as implicações econômicas do ato de consumo. Se os produtos sustentáveis continuarem sendo os mais caros nas gôndolas dos supermercados e nas prateleiras das lojas, provavelmente só uma parte dessas mulheres comprarão produtos mais sustentáveis, apesar de estarem informadas. O desafio é combinar informação com estratégias de mercado para que as mulheres possam fazer escolhas mais conscientes no consumo.

Instituto Akatu – O Ministério do Meio Ambiente também está fazendo uma pesquisa sobre a percepção dos brasileiros sobre o meio ambiente e o desenvolvimento sustentável. Você pode nos contar um pouco sobre essa iniciativa?
Samyra Crespo – Essa pesquisa é parte da contribuição do Ministério do Meio Ambiente para o tema da produção e do consumo sustentável. Pretendemos divulgar os resultados do estudo “O que os Brasileiros pensam sobre Desenvolvimento Sustentável”, em junho deste ano. A nossa expectativa é levantar um conjunto de informações que nos permita entender quais são os fatores determinantes do consumo e seus padrões atuais para pensar campanhas de comunicação e estratégias de educação ambiental, para promover os valores da sustentabilidade.

A pesquisa tem duas fases. Estamos finalizando a coleta de dados da fase qualitativa. Paralelamente estamos discutindo o questionário que será aplicado na fase quantitativa. Na fase qualitativa estamos ouvindo um grupo de 60 pessoas, homens e mulheres. A amostra da pesquisa é composta por profissionais de organizações feministas ou voltadas para a pauta de gênero, especialistas em consumo – do setor varejista, como vestuário e alimentos, por exemplo –, psicólogos e publicitários – para entender dimensões subjetivas dos atos de consumo – e grandes personalidades, ou seja, mulheres que se destacaram na sociedade brasileira, na política ou em outros ramos e que são exemplos para outras mulheres. Essa fase do projeto tem como título oficial “Mulheres e consumo: tendências presentes e futuras”.

Os resultados das duas fases comporão um conjunto de dados e análises a serem lançados na Semana do Meio Ambiente (de 1 a 6 de junho). Em seguida, serão divulgados na Rio+20, em forma de publicação e em um espaço aberto a discussão.

Instituto Akatu – Mas por que o interesse especial em mulheres da classe C?
Samyra Crespo – O aumento da renda no país aconteceu de tal maneira que reduziu muito as classes D e E, fazendo com que o padrão de consumo do país fique concentrado na classe C. Ou seja, podemos dizer que os padrões de consumo no Brasil se expressam no comportamento da classe C. O interesse especial pelas mulheres no recorte da pesquisa se justifica no fato delas formarem a população mais escolarizada do Brasil e o grupo decisório dos padrões de consumo no país.

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