Na área de energia, mudanças animadoras

Energias mais limpas ganham espaço e competitividade no Brasil e no cenário mundial, mas ainda há desafios a serem superados

Comentário Akatu: Apesar de notícias promissoras, como as destacadas no artigo do jornalista Washington Novaes, ainda será necessário longo tempo para que gradualmente se substituam as energias fósseis por renováveis. Para essa transição, e depois dela, é cada vez mais importante o papel do consumidor. Consumir energia de forma consciente é optar por fontes mais sustentáveis já existentes e demandar do mercado soluções de qualidade e em quantidade adequadas, além de utilizar o necessário para garantir bem-estar, sem desperdício. Demandar do poder público o apoio ao desenvolvimento de fontes renováveis de energia e à educação para o consumo consciente também são formas de contribuir para um futuro mais sustentável.

Com o panorama nacional na área de energia ainda parecendo confuso e contraditório, em razão de omissões e ações discutíveis de órgãos reguladores federais, felizmente surgem informações alentadoras, principalmente em setores das chamadas energias “alternativas”, dentro e fora do País.

Pode-se começar pela notícia de que o governo federal decidiu (Folha de S.Paulo, 5/7) incluir usinas eólicas no leilão de novas fontes que fará em outubro – depois de o diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) haver declarado que não poderia incluí-las porque certamente ganhariam e não dariam oportunidade a outras fontes (Estado, 26/5). Elas serão entregues em três anos, para se somarem à fração da matriz energética que já representam. Outra boa notícia é de que o governo resolveu (Agência Brasil, 3/7) desligar todas as usinas termoelétricas a óleo combustível e diesel, ligadas desde outubro de 2012 (34 no total), com a alegação de que o nível dos reservatórios das hidrelétricas estava “muito baixo”. A economia será de R$ 1,4 bilhão por mês. Mas permanecerão outras usinas, inclusive a carvão.

Também alvissareira é a informação (EcoD, 3/7) de que estudos do Ministério de Minas e Energia preveem que o custo de usinas movidas a energia solar “deve cair” quase 50% até 2018 – a ponto de os leilões a partir de 2016 já incluírem esse tipo de usina, assim como as que queimam resíduos sólidos (estas, discutíveis). Até de outros cantos vêm boas notícias, como a do Instituto Socioambiental de que os 10 mil moradores de 90 comunidades da área Raposa-Serra do Sol, em Roraima, vão instalar três torres para medir a intensidade de ventos e a possibilidade de terem usinas eólicas. As perspectivas são tão boas que uma grande empresa vai instalar aqui (Estado, 29/6) uma fábrica de aerogeradores, tendo em vista a expansão prevista, para 5.500 MW até 2017.

Mas nem de todas as controvérsias nossas autoridades do setor desistem: vão leiloar usinas térmicas a carvão, gás natural e biomassas em agosto. E o pretexto é o habitual: “demora” (ou incompletude?) dos estudos de impactos ambientais. Nem de novas usinas nucleares – tanto que a Eletronuclear vai responder ao pedido de impugnação de construtoras na área de Angra 3, prevista para operar em 2018. Mas a direção da Empresa de Pesquisas Energéticas descarta a possibilidade de outras usinas nucleares em curto prazo (O Globo, 5/7).

O alto potencial de usinas solares e eólicas pode ser visto, por exemplo, no levantamento da Secretaria de Energia do Estado de São Paulo, onde está dito que a irradiação solar em qualquer região brasileira supera os valores encontrados na maioria dos países europeus e é semelhante à das “grandes áreas referenciais do Nordeste brasileiro” – além de possibilitar custos reduzidos de transmissão e distribuição. Uma “oportunidade incontornável”, escreve ali o secretário José Aníbal. Cada metro cúbico pode gerar, em um ano, energia equivalente à de 56 metros quadrados de área inundada por reservatórios de hidrelétricas, 66 litros de diesel, 55 quilos de gás. O plano paulista é ter 1.000 MW de usinas solares até 2020. O potencial é tão alto que, segundo o estudo, 0,01% da radiação solar total equivale a toda a energia consumida no mundo.

Mas não é só a energia solar. O Atlas Eólico paulista prevê chegar a 2020 com 69% de energia “limpa” no Estado, incluindo o aproveitamento da energia dos ventos. Com estes a velocidade média superior a 6,5 metros por segundo, há várias regiões favoráveis no Estado, principalmente nas regiões de montanhas da Serra do Mar, no sul do Estado, e no entorno de Jaú. Com altitudes favoráveis, acima de 100 metros, há outras áreas onde os ventos chegam a 7 e 8 metros por segundo. Ao todo, o potencial do Estado nessa área é de 4.734 MW.

O mundo vai-se transformando nessas direções. Na Inglaterra, no estuário do Rio Tâmisa, está sendo implantada a maior usina eólica offshore, com 175 turbinas e potência de 630 MW, que poderá subir para 870 MW. Suas pás de mais de 120 metros ficarão 480 metros acima do mar. Lancaster, na Califórnia, quer ser a “capital da energia fotovoltaica”, com painéis solares em todos os telhados de casas e estacionamentos de veículos. Los Angeles quer instalar painéis solares nos telhados de 30 mil casas e pagar aos investidores pela energia que sobrar e for para a rede de distribuição. E os Estados Unidos já têm 8 usinas eólicas e 24 solares. A Europa instalou 124 solares e 33 eólicas em uma década. A China quer chegar com as alternativas a 40% da matriz em cinco anos. Já é o país líder nessa área, seguido dos Estados Unidos. E já há até conflitos comerciais entre a China e a Alemanha (Estado, 7/6), porque o país europeu sobretaxou a compra de equipamentos chineses nesse setor.

A França, por sua vez, aprovou resolução nacional que obriga edifícios não residenciais a apagar suas luzes durante a noite e evitar a emissão de 250 mil toneladas de carbono na geração de energia. Uma das poucas exceções é a Torre Eiffel (CicloVivo, 7/7).

Por aqui, ainda estamos na promessa do governo federal de reduzir o consumo de energia em 17% até 2020. Porque continuamos a importar gás natural para geração de energia (mais 77% este ano), petróleo e derivados (mais 11%). O déficit na conta dessa área é de US$ 11 bilhões, segundo a jornalista Miriam Leitão (9/6). E parte do gás se destina a termoelétricas.

Mas com tecnologias já disponíveis poderíamos atender a 10% da demanda total com energia eólica e solar. O potencial inexplorado é de 340 GW, três vezes mais que a capacidade total instalada (professor Heitor Scalambrini Costa, da Universidade Federal de Pernambuco, 25/6).

Ainda que o cenário pareça sombrio em certos momentos, a mudança está ocorrendo – para melhor.
Clique aqui para ler o texto original, publicado jornal O Estado de São Paulo em 12/07.

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