Mille Bojer diz que só apoio intersetorial soluciona problemas sociais graves

Facilitadora da Reos Partners Brasil acredita que desafios como o aquecimento global devem ser enfrentados com ações coletivas e institucionalizadas

A dinamarquesa Mille Bojer chegou ao Brasil em 2008 para iniciar aqui o trabalho da Reos Partners (parceira institucional do Akatu), uma organização internacional dedicada a apoiar e desenvolver habilidades para inovações em sistemas sociais complexos. Como facilitadora profissional, Mille já trabalhou anteriormente com várias organizações da sociedade civil de alcance internacional, como a Climate Action Network, e passou oito anos na África do Sul em projetos com crianças órfãs e vulneráveis devido às mortes provocadas pela AIDS. Ela também é uma das fundadoras do Pioneers of Change, uma comunidade de aprendizagem formada por jovens agentes de mudança em todo o mundo. Nesta entrevista ao Instituto Akatu, Mille Bojer destaca a importância da educação do consumidor para o consumo consciente, mas cobra mais intervenções coletivas e institucionalizadas.

Quais as perspectivas de atuação da Reos Partners no Brasil?

Mille Bojer: Todo nosso trabalho é desenhado para abordar problemas sociais complexos, onde as causas e efeitos são difíceis de mapear devido aos diferentes setores e stakeholders [partes interessadas] envolvidos. No Brasil, ainda estamos na fase de entrevistas com lideranças locais para entendermos e sentirmos efetivamente o que está acontecendo aqui, ao mesmo tempo em que estamos montando a rede da nossa organização aqui no Brasil. Nesse sentido, já promovemos três cursos. O último deles abordava um problema presente no Brasil e no mundo: a questão do consumo. O estudo de caso foi realizado em parceria com o Instituto Akatu.

Como foi a experiência de trabalhar o conceito de consumo?

Mille Bojer: Na verdade, foi um exercício dentro do que chamamos de “Laboratório de Mudança”. Fizemos um mapeamento sistêmico para identificar os padrões de consumo, as estruturas e problemas mentais que estão criando esses padrões de consumo problemáticos. Isso permitiu que cada participante identificasse qual o padrão a que ele pertence e o que o influencia. Em seguida, perguntados sobre como se sentiam olhando para o grande mapa sistêmico criado, eles responderam que se sentem responsáveis, mas também se sentem parte de um coletivo maior. Resumindo, os resultados tenderam a mostrar que os indivíduos sentem que precisam fazer a coisa certa, mas identificaram também um sistema maior que cria dificuldades para eles.

Quais são essas dificuldades?

Mille Bojer: Nas discussões sobre sustentabilidade, trabalha-se bastante a idéia do consumo e fala-se bastante das soluções individuais. Por exemplo, aconselham as pessoas a comprar lâmpadas mais econômicas. Mas na área das mudanças climáticas temos metas para cumprir, como indicado por estudos que propõe reduzir em 90% as emissões. A pergunta que as pessoas se fazem é: será que apenas a minha lâmpada mais eficiente vai ajudar a atingir essa meta se na China todo mundo está comprando carro, ou se as pessoas estão viajando muito? Esse é o conflito. Portanto, quando o assunto é mudanças climáticas, por exemplo, acho que temos de pensar mais em ações coletivas e institucionalizadas. Na Dinamarca, existe uma ilha onde a comunidade resolveu adotar apenas energia renovável. A comunidade se juntou, criou cooperativas, comprou e montou as tecnologias necessárias. Esse tipo de organização da comunidade é muito válido e muito mais sólido para problemas imediatos.

Pela sua experiência como facilitadora em diversas partes do mundo, você relaciona o consumo excessivo entre as causas desses problemas que você ajudou a resolver?

Mille Bojer: Neste último curso escolhemos o consumo como um tema, pois ele é complexo por causa dos vários níveis que precisam ser analisados, desde o individual até o sistêmico. Daí a necessidade de abordar o problema em várias dimensões. Eu adoro o trabalho do Akatu porque vocês têm o diferencial de trabalhar as várias dimensões, desde o individual até o coletivo. Eu nunca tinha visto algo parecido antes. Respondendo à pergunta, nós temos levado em consideração o consumo, mas nossa tendência é focar a dimensão coletiva institucionalizada.

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