Metade dos investimentos de saneamento básico no país está apenas nas 100 maiores cidades

A conclusão é do novo relatório “Ranking do Saneamento nas 100 Maiores Cidades”, elaborado pelo Instituto Trata Brasil e com parceria da consultoria GO Associados

Sistema de Esgotamento Sanitário em Campos do Jordão (SP). Crédito: Creative commons/Governo do Estado de São Paulo

 

Metade dos investimentos de saneamento básico no país está nas 100 maiores cidades, mas os avanços foram muito lentos, de acordo com a mais nova versão do “Ranking do Saneamento nas 100 Maiores Cidades” , elaborado pelo Instituto Trata Brasil, em parceria com a consultoria GO Associados, especializada em saneamento básico. As informações foram baseadas nos dados oficiais do Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento Básico (SNIS). Esse estudo é feito anualmente desde 2009.

Segundo o relatório, um dos pontos que evidencia a clara deficiência em avanços efetivos em todo o país é que as 20 melhores cidades do estudo investiram juntas, em 2014, o valor de R$ 827 milhões e arrecadaram R$ 3,8 bilhões com os serviços. Já a média de investimento dos últimos cinco anos (2010 a 2014) foi de R$ 188,24 milhões (R$ 71,47 por habitante/ano). Já os 20 piores municípios do Ranking investiram juntos, em 2014, o valor de R$ 482 milhões e arrecadaram R$ 1,9 bilhão com os serviços. Considerando a média dos últimos 5 anos, a média de investimentos foi de R$ 96,46 milhões (R$ 28,20 por habitante/ano). Isso mostra uma tendência das cidades com as maiores carências ficarem ainda mais atrasadas nesta infraestrutura mais básica.

“A preocupação é que os avanços em saneamento básico não só estão muito lentos no país, como cada vez mais concentrados onde a situação já está melhor. Estamos separando o Brasil em ‘ilhas’ de estados e cidades que caminham para a universalização da água e esgotos, enquanto que uma grande parte do Brasil simplesmente não avança. Continuamos à mercê das doenças”, diz Édison Carlos, presidente executivo do Instituto Trata Brasil, no relatório publicado no site da instituição. E  Gesner Oliveira, autor do estudo, complementa: “Caso se mantenha o ritmo atual, estimamos que só teremos serviços de saneamento universalizados a partir de 2050”.

Veja, a seguir, mais detalhes sobre o relatório do Instituto Trata Brasil.

População com água tratada

O estudo mostra que entre os 100 maiores municípios, 91 possuem mais de 80% da população com água tratada. Já 23 cidades informaram possuir 100% de atendimento total de água tratada. O indicador médio foi de 93,27%, o que indica que, no geral, esses municípios possuem níveis de atendimento em água superiores à média brasileira (83% pelo SNIS 2014).

Novas ligações de água tratada sobre ligações faltantes

Cerca de 37% das 100 maiores cidades fizeram mais de 80% das ligações faltantes, enquanto que 25 municípios fizeram menos de 20%. A média das 100 cidades foi de 28,47%, ou seja, os municípios estão fazendo pouco mais de um quarto das ligações faltantes para universalizar o atendimento de água tratada.

Atendimento da população com coleta de esgotos

A pesquisa apontou que em 42 cidades mais de 80% da população possui os serviços de coleta de esgotos, enquanto que em 8 municípios o índice ficou entre 0 e 20%. A maior parte (50%) reportou ter entre 20,1 e 79,9% da população com coleta. O indicador médio de população com coleta foi de 70,37% mostrando que, no geral, os maiores municípios possuem índice maior que a média do Brasil em 2014 (49,8%).

Novas ligações de esgoto sobre ligações faltantes

De acordo com o ranking, 12 municípios reportaram terem feito mais de 80% das ligações de esgoto faltantes, enquanto que 61 cidades fizeram menos de 20%. O indicador médio dos municípios é 8,87%, ou seja, o indicador está muito distante da universalização.

Tratamento de esgoto por volume de água consumida

O tratamento de esgotos com relação ao volume de água consumida é o pior indicador; apenas 19 municípios tratam mais de 80% de seus esgotos, 52% entre 20,1% e 79,9% e 29 cidades tratam menos de 20%, o que mostra que é o principal problema a ser superado.  A média de tratamento de esgotos dos municípios foi 50,26%, ligeiramente superior à média nacional de 40,8% – um patamar muitíssimo baixo.

Investimentos em saneamento básico versus arrecadação com os serviços

Na metodologia deste ano adotou-se como critério avaliar a média dos investimentos sobre receita dos últimos cinco anos e não somente o ano analisado. Apenas 36% das cidades investiram, na média dos últimos 5 anos (2010 a 2014), mais de 30% do que foi arrecadado na expansão ou melhorias dos sistemas de saneamento, o que é muito baixo. Já 64% dos municípios investiram até 29%. Indicador médio é de 23%.

Perdas de faturamento total com a água fornecida à população

O Índice de Perdas de Faturamento Total (IPFT) estima a água potável que foi produzida, mas não faturada. Apenas 7 cidades perdem 15% ou menos da água faturada (índice este apontado como ideal). Já 70 cidades perdem 30% ou mais. O município com pior índice de perdas de faturamento foi Manaus (AM) com 75%. O indicador médio de perdas é 41,90%.

Perdas de água nos sistemas de distribuição (IPD)

O indicador de perdas na distribuição mostra, do volume de água potável produzido, quanto é efetivamente consumido pela população. A perda média entre as 100 cidades foi de 38,34%, ou seja, um valor superior à média nacional em 2014, que foi de 36,7%. Já 79 cidades reportaram uma perda na distribuição igual ou superior a 30%, tendo 7 cidades com perdas acima de 60%. Os pontos de máximo e mínimo correspondem, respectivamente à Macapá (AP) com 77,35% e Limeira (SP) com  14,08%.

O Instituto Akatu acredita que inovações tecnológicas e políticas públicas podem ser ferramentas efetivas para a transição para uma sociedade mais sustentável. Mas é importante lembrar que é preciso também inovar nos padrões de produção e de consumo para que seja possível alcançar o bem-estar desejado pela sociedade com um uso muito menor de recursos naturais, como a água. Melhorar o saneamento básico é essencial. Necessitamos, ao mesmo tempo, de uma produção mais responsável e de um consumo mais consciente.

 

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