Instituto Ethos, CBN e Revista Época reúnem especialistas para debater o problema da obesidade

Educação, prevenção e atuação multidisciplinar e conjunta da sociedade aparecem como pontos centrais para reverter esse problema

O Brasil, assim como diversos países do mundo, encontra-se hoje frente a uma grande contradição. Enquanto milhares de pessoas passam fome, cresce o número de brasileiros com problemas de obesidade. Há uma tendência de aumentar o número de obesos nas classes sociais mais baixas, como C e D. Atualmente, 35% das crianças no mundo apresentam obesidade infantil. As causas são diversas: genética, alimentar e social. Mas é um problema que se tem agravado principalmente em função de um estilo de vida em que o sedentarismo e a atividade física inadequada atingem mais de 60% da população mundial. Educação, prevenção e atuação multidisciplinar e conjunta da sociedade aparecem como pontos centrais para reverter esse cenário.

As propostas foram feitas pelos especialistas que participaram do debate sobre a obesidade, suas conseqüências e impactos na sociedade contemporânea, promovido no dia 25 de agosto de 2004, pela Rede Ethos de Jornalistas, Rádio CBN e Revista Época. O evento, realizado no auditório da Editora Globo, é o segundo de um ciclo de debates que serão organizados em parceria pelas instituições para abordar assuntos que envolvam aspectos da responsabilidade social das empresas e que sejam de interesse da sociedade.

Segundo o endocrinologista Márcio Mancini, do Grupo de Obesidade e Doenças Metabólicas do Serviço de Endocrinologista do Hospital das Clínicas (USP), há diversas maneiras de se medir a obesidade, como, por exemplo, o índice de massa corporal. Em alguns casos, a pessoa apresenta sobrepeso, e isso não chega a ser nocivo. No entanto, o excesso de peso também pode trazer problemas de saúde. Isso quer dizer que a criança não deve ser tratada apenas como “fortinha” ou “fofinha”, pois essa criança é uma séria candidata a ser um adulto com problemas. “Muitos pais obesos levam seus filhos obesos para tratamento. Mas, se eles não se tratarem também, o prognóstico de sucesso é muito menor. As crianças levam os hábitos de casa”.

Estudos apontam que de cada dez crianças e adolescentes obesos, oito permanecerão obesos na vida adulta. “A obesidade é mascarada e os especialistas não fazem o diagnóstico precoce. A criança só vai ter conseqüências mais tarde, pois as doenças não são visíveis em curto prazo. Quando a criança não come, todo mundo na casa tem uma receita para que ela coma mais. Essa ânsia para que ela coma pode ser o começo da obesidade”, diz Mauro Fisberg, médico, pediatra, nutrólogo e professor da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressaltando que a verdadeira causa do crescimento da obesidade é a modificação total das atividades físicas. “Nunca tivemos tantas crianças fazendo atividades físicas, mas de forma inadequada”, completa.

Fisberg acredita que cabe à família estabelecer limites, o que não ocorre atualmente. Léo Bick, diretor-técnico da Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) – entidade indicada a representar empresas do setor como o McDonald ” s e a Kraft Foods, convidadas a participar do debate mas que não o aceitaram -, ressaltou o fato de a atual legislação obrigar as embalagens a explicitar o conteúdo nutricional dos alimentos. Na opinião de Bick, falta conscientizar os consumidores para que as leiam.

Arthur Kaufman, coordenador do Programa de Atendimento ao Obeso (Prato) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, lembra, porém, que as crianças não levam em conta esse tipo de alerta e, por isso, a informação do rótulo não é suficiente.

“O que se espera é que as embalagens esclareçam os consumidores. Mas, a questão fundamental é aliar a responsabilidade das empresas com o consumo consciente. Já existe, em algumas empresas, esse movimento de educar o seu consumidor”, destaca Maria Cristina Nascimento, membro do Conselho Deliberativo do Instituto Ethos. O Instituto Akatu, por exemplo, lançou um caderno que apresenta essas questões. “Mas não é só a responsabilidade sobre os seus produtos. As empresas precisam olhar também para a saúde dos funcionários e de seus familiares”, completa Maria Cristina.

O professor da Unifesp aponta três maneiras de as empresas colaborarem: a primeira junto aos seus funcionários, com programas de qualidade de vida; a segunda é a própria responsabilidade social da empresa; e a terceira é a modificação dos produtos buscando produzir alimentos mais saudáveis e adequados.

Bick lembrou que nos EUA algumas empresas já alteram suas fórmulas e embalagens com essa proposta. Para ele, essa tendência deverá crescer também no Brasil. Prova disso seria o aumento de produtos diets/lights, que se preocupam em eliminar o excesso de gorduras, carboidratos e sódio que são negativos para a saúde das pessoas. Para Mancini, no entanto, isso não deve ser apenas resultado de um interesse mercadológico. “Acredito que deve haver alguma forma de regulamentação. O papel da indústria é informar melhor, e não somente oferecer produtos diets/lights porque existe mercado para isso. Tem de haver uma maneira de informar o que tem de bom ou ruim nos produtos”, alertou o endocrinologista.

Como chegar a uma alimentação saudável?
A alimentação equilibrada é um ponto fundamental para garantir uma vida saudável. Mas como resistir aos apelos de produtos pouco saudáveis, com embalagens chamativas e grande carga de sedução para as crianças? Os debatedores procuraram responder a essa questão, levantada pelo jornalista e mediador da discussão Adalberto Piotto, âncora da Rádio CBN – que teve a seu lado a participação de Cristiane Segatto, jornalista da Revista Época.

Adriano Segal, diretor de Psiquiatria e Transtornos Alimentares da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade (Abeso), afirma que o primeiro passo é acabar com o mito de que “todo gordinho é feliz”. Na maioria das vezes, a pessoa obesa força essas características para ser mais aceita. O que se percebe é que quanto mais obesa, maior as chances de ocorrência de problemas psiquiátricos. “Eles apresentam melhor qualidade de vida quando deixam de serem obesos, tanto em aspectos da saúde como sociais e psicológicos”. Outro problema é o preconceito. De acordo com os participantes, profissionais obesos têm menos chances de conseguir emprego, ganham menos e, normalmente, têm maior incidência de afastamento do trabalho.

De acordo com os especialistas, mais do que informar através das embalagens, é preciso formar os cidadãos, começando com as crianças, pois dificilmente os adultos mudam os seus hábitos. Para Arthur Kaufman, é necessário trabalhar a educação alimentar na escola, tendo a cantina como laboratório. Mancini lembrou um estudo francês que aponta que a obesidade dos pais diminuiu quando os filhos levavam para dentro de casa informações alimentares adquiridas nesse tipo de experiência.

“A educação é importante na formação de hábitos alimentares saudáveis. A população não se alimenta bem porque não há um equilíbrio correto de nutrientes. É preciso educar as crianças. Mas ainda não houve uma ação efetiva do governo para isso”, destaca Bick. Dentro dessa proposta de formação, Segal aponta que é preciso mudar a forma de comunicar os benefícios da alimentação saudável. Dificilmente uma pessoa irá trocar uma pizza por uma alface pelo simples pretexto de que é melhor para a saúde. Com as crianças, destaca Fisberg, a abordagem tem de ser ainda mais cautelosa, já que elas são imediatistas e não têm noção das conseqüências.

Os meios de comunicação podem desempenhar um papel fundamental nesse processo. “O problema é que vários produtos apresentados nos programas ou nos comerciais dizem que é fácil tratar a obesidade. É só tomar um chazinho e resolve o problema. E não é bem assim”, destaca o diretor da Abeso.

Kaufman lembra que os meios de comunicação, por meio de suas celebridades, criam padrões de belezas e, hoje, a sociedade dá mais valor à aparência do que à essência, o que se traduz pela imitação dos ídolos. Assim, as pessoas buscam ter um belo corpo porque os ídolos têm. “São corpos inimagináveis para grande parte da população. O preocupante é o que os jovens vão querer fazer para ficarem iguais”, comenta Fisberg.

O médico aponta que as modelos, assim como as bailarinas e os jogadores de hóquei, são um grupo de risco e estão mais propensos a apresentar distúrbios alimentares. No entanto, ao contrário do que se imaginava, o Projeto Saúde Modelo, que acompanha e analisa a saúde de três mil garotas oriundas de programas de seleção para a carreira, mostrou que as modelos não são desnutridas.

Segundo Mancini, os distúrbios alimentares, na maioria das vezes, não compõem um quadro de bulimia nem de anorexia, mas sim um transtorno de comer compulsivo, ou seja, a pessoa come uma grande quantidade de alimentos num curto espaço de tempo. O endocrinologista explica que o grande problema do tratamento é a expectativa fora da realidade. Quando o paciente consegue perder de 10 a 15% do peso, o tratamento já é considerado um sucesso.

Outro problema, de acordo com Mancini, é a falta de conhecimento de muitos médicos sobre a gravidade da obesidade ou o receio de falar sobre o assunto com o paciente. A obesidade acaba sendo subestimada e o tratamento é feito de forma incorreta, não se abordando diretamente a causa e, simplesmente, atacando a pressão alta ou o colesterol, por exemplo. Para o tratamento ter sucesso, lembra Kaufman, é preciso analisar o que a comida representa para a vida da pessoa. “A grande satisfação de muitas pessoas está ligada à comida, sair para jantar. É a vida social. Se você tira isso, ela pode voltar a engordar rapidamente”.

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