Índice de bem-estar relaciona variáveis sociais a econômicas

Novo indicador lançado pelo Itaú mostra que aumento do PIB não significa melhora automática na qualidade de vida da população

 

O Itaú lançou no dia 12 de junho o Índice Itaú de Bem-Estar Social, mais um indicador para contribuir com as análises de qualidade de vida da população.

Numa época em que se discutem a eficácia do PIB (Produto Interno Bruto) como indicador de prosperidade dos países e a necessidade de novas contabilidades nacionais e empresariais de forma a incluir outros valores no cálculo da riqueza das nações e das empresas, o novo índice alia variáveis de distribuição de renda e condições humanas às condições econômicas.

“O índice é indicador quantitativo do bem-estar, nos moldes do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH)”, disse Ilan Goldfajn, economista-chefe do banco.

Caio Megale, economista da equipe de Goldfajn, apresentou a composição e os resultados do novo índice e destacou que “os resultados mostram que, em muitas ocasiões, a evolução do bem-estar não acompanhou a variação do PIB. Mas houve um avanço importante da qualidade de vida dos brasileiros nos últimos 20 anos”.

Após apresentação, houve debate com comentários dos economistas Eduardo Gianetti da Fonseca, da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo (FEA-USP), e Samuel Pessoa, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre-FGV).

O estudo reuniu dados de uma série histórica de quase 20 anos do Brasil, compreendida entre 1992 e 2010. À medida que novos números sejam divulgados, a série será atualizada a cada ano.

O novo índice é composto por uma média de três grandes grupos de variáveis: condições econômicas, condições humanas e distribuição de renda. “Como a escolha de pesos acaba sempre sendo um pouco arbitrária, optamos por dar pesos iguais aos grupos de dados”, explica Megale.

O pacote de condições econômicas inclui dois blocos: consumo e mercado de trabalho. O bloco do consumo é composto por vendas no varejo, vendas de veículos e inflação. O bloco de trabalho considera taxa de desemprego, renda real e taxa de participação da população em idade ativa na população ocupada.

As variáveis de condições humanas foram subdivididas em três blocos: saúde e saneamento, educação e segurança. O bloco saúde e saneamento incorpora dados de mortalidade infantil, expectativa de vida, relação entre tuberculose reportada e tuberculose estimada, percentual da população com banheiro em casa e percentual da população com acesso à rede de esgoto. O bloco de educação é composto por anos médios de escolaridade e uma espécie de “Gini” da educação. O tradicional índice de Gini mede a desigualdade de renda do trabalho. “Nossa intenção foi construir uma variável com a metodologia do Gini, só que para indicar a desigualdade na distribuição dos anos de estudo”, explica Megale.

Assim, o “Gini” de educação tende a zero (piora) quando houver concentração de brasileiros em um certo número de anos de estudo. O índice melhora, tendendo a um, quando a população estiver mais bem distribuída pelos anos de estudo.

O bloco da segurança leva em conta a taxa de homicídios do país.

O terceiro grande pacote de variáveis, desigualdade social, tem um único bloco, que é o de distribuição de renda, que considera os índices de Gini e de Theil.

Desafios
A própria equipe do Itaú alerta sobre limitações do novo indicador e destaca a falta de dados sobre a saturação do ambiente físico, que envolve diversos aspectos como congestionamento de vias públicas, tempo perdido nos deslocamentos e questões como qualidade do ar, poluição e desmatamento. Segundo o economista Megale, faltam ainda dados nacionais e comparáveis sobre tais assuntos. “Mas é um desafio nosso, incorporar nas próximas atualizações do índice de bem-estar o que estiver disponível nesses temas”, diz.

Comparado com o crescimento do PIB na mesma séria histórica, o índice de bem-estar mostra que houve avanços, mas que o crescimento do Produto Interno Bruto não significa necessariamente melhora da qualidade de vida.

No período entre 1992 e 1997, em que o PIB cresceu muito pouco, não houve perda de bem-estar. Ao contrário, este índice é ligeiramente superior.

Entre 2000 e 2006, os dois índices crescem no mesmo ritmo. A partir de 2008, o PIB cresce mais sem que isso se reflita no índice de bem-estar. Não há perdas, mas os ganhos de bem-estar não acompanham os do PIB.

“Esse trabalho nos mostra que a vida pode melhorar muito, mesmo com baixo crescimento do PIB”, afirmou o economista Eduardo Gianetti da Fonseca na abertura do debate para comentários. “Isso é um convite para que olhemos menos para o PIB e mais para as condições de vida.”

“Acho que falta ao indicador um componente subjetivo. Parece-me que os dados escolhidos não captam a densidade humana, a questão das amizades, das relações humanas. E mesmo a dimensão subjetiva do trabalho”, diz Fonseca. “As pessoas estão felizes no trabalho? Ou, como escreveu Drummond, ‘trabalham infelizes num mundo caduco‘?”.

Ilan Goldfajn, coordenador do trabalho no Itaú, ponderou que essa é uma dificuldade inerente a esse tipo de índice, e, na oposição entre um índice de bem-estar (mais objetivo) e um de felicidade (mais subjetivo), a equipe optou pelo primeiro.

O economista Samuel Pessoa, da FGV, que foi consultor na elaboração do índice, lembrou que nas próximas versões também seria possível incorporar variáveis sobre democracia, como liberdade civil, direitos humanos, violência.

“Avalio que cometemos três grandes erros coletivos nos séculos 19 e 20. No 19, mantivemos o país no atraso nas questões de trabalho e da concentração de terras; no 20, foi um erro coletivo na educação. Não universalizamos o acesso há 50, 60 anos. No pós-guerra tivemos um crescimento econômico grande, mas com enormes desequilíbrios sociais. Acho que uma sociedade mais democrática não cometeria os mesmos erros”, afirmou Pessoa.

Questionado sobre como conciliar os diversos índices que procuram oferecer informações que vão além do PIB, Goldfajn afirmou ser desnecessário conciliar. “Precisamos avançar. Ver os que se consolidam, como conversam e sofisticar, inclusive os sistemas de indicadores e mensuração. Veja-se a questão da saturação do meio ambiente: não incluímos nesta primeira versão do índice, não por dificuldades metodológicas, mas por não ter os dados”.

Que elementos fazem parte do Índice Itaú de Bem-Estar Social?

1. Condições econômicas
Consumo
– vendas no varejo
– vendas de veículos
– inflação

Mercado de trabalho
– taxa de desemprego
– renda real
– taxa de participação da população em idade ativa na população ocupada

2. Condições humanas
Saúde e saneamento
– mortalidade infantil
– expectativa de vida
– relação entre tuberculose reportada e tuberculose estimada
– percentual da população com banheiro em casa
– percentual da população com acesso à rede de esgoto

Educação
– anos médios de escolaridade
– “Gini” da educação

Segurança
– taxa de homicídios do país

3. Desigualdade Social
Distribuição de renda
– índice de Gini
– índice de Theil
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