Filme do Futuro

Em vez do paraíso tecnológico dos Jetsons, estou vivendo no cenário poluído de Blade Runner

Quando era garoto, tinha certeza de que a minha vida adulta iria desaguar em um filme dos Jetsons. Energia farta, carros voadores e a ciência a serviço do bem-estar transformariam o viver dos meus anos adultos num paraíso tecnológico. Mas o enredo do meu futuro mudou de filme. O acúmulo de poluentes na atmosfera, a contaminação dos recursos hídricos e as mudanças climáticas compõem um cenário mais adequado a Blade Runner.

O século 19 nos ensinou que a combinação de máquinas com combustíveis fósseis nos abria a perspectiva de gerar eletricidade abundante, modificar o clima de nossas casas e nos movermos com máquinas a velocidades cada vez maiores.

Criamos servos mecânicos que movimentavam nossos corpos e nossas fábricas. Julgávamos ter subjugado a natureza e acreditávamos que a ciência e sua filha dileta, a tecnologia, iriam promover a equidade entre os povos. O futuro não poupou os nossos erros. Passamos a ser dependentes da energia, e as nossas máquinas voltaram-se contra o homem criador.

Consumimos mais recursos do que o planeta pode oferecer, criando duas ameaças: o aquecimento global e o aumento das concentrações de poluentes. O planeta está doente e, por conseqüência, adoecerão aqueles que nele habitam.

O momento de agir é agora, pois a agenda da natureza é implacável. Tornou-se primordial implementar ações centradas no homem e no seu comportamento. Enquanto esperamos que uma revolução tecnológica forneça energia limpa e sustentável, relutamos em modificar hábitos. Desejamos potência 4×4 para nos movermos a uma velocidade inferior à dos bandeirantes, que nos ultrapassariam montados em seus muares, por estarmos presos em congestionamentos intermináveis.

A compra de ilusão veicular tem um preço ético insustentável, visto que os efeitos da deterioração ambiental serão sentidos com maior intensidade nas populações carentes e que menos consomem energia. A dose de poluentes inalada será muitas vezes maior entre aqueles que se apinham em pontos de ônibus em comparação aos que se protegem no interior de carros com ar condicionado.

As ilhas de calor são mais intensas nas regiões carentes, onde a taxa de cobertura vegetal é nula. As conseqüências mais temidas dos extremos climáticos (alagamentos e deslizamentos) afetarão as vizinhanças dos córregos e favelas. Há justificativa ética para manter tal quadro? O homem é agente causal e vítima.

Compete, portanto, a ele tomar medidas efetivas para os problemas ambientais. Sabemos o que fazer. Teremos coragem de iniciar a caminhada?

*Paulo Saldiva é coordenador do Laboratório de Poluição Atmosférica da Faculdade de Medicina da USP. Artigo publicado originalmente na Revista da Folha.

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