Festa de final de ano e cartões de crédito, uma mistura explosiva

O Instituto Akatu adverte: se mal usado, o “dinheiro de plástico” tende a provocar fortes dores de cabeça

Um explosivo coquetel de fim de ano costuma causar muitas dores de cabeça ao consumidor imprudente. Os ingredientes são os seguintes: o sempre aguardado e comemorado 13º salário, as alegres festas de natal e ano novo, e um cartão de crédito brilhante e tentador nas mãos. Aliás, tentação é a palavra que melhor define a verdadeira corrida às compras que faz desse coquetel uma freqüente causa de enxaquecas terríveis, principalmente, nos meses de fevereiro e março do ano seguinte, quando o consumidor tem que honrar as faturas do cartão. Por isso, é muito importante procurar o caminho do equilíbrio e da moderação que evite danos maiores no futuro.

Segundo estimativas do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos), o 13º salário vai beneficiar cerca de 64 milhões de brasileiros. O montante a ser injetado na economia do país deve atingir o valor de R$ 64 bilhões até dezembro.

Junte-se a isso o fato de que o uso do chamado dinheiro de plástico no Brasil, não pára de crescer. Entre cartões de crédito, débito e de lojas e redes estima-se que o mercado de cartões encerre o ano de 2007 com faturamento de R$ 181 bilhões. Isso representa crescimento de 20,6% em relação ao ano anterior. Se forem considerados apenas os cartões de crédito, nós brasileiros, já somos donos de 88 milhões de unidades, e o crescimento em 2007 é de 18% em comparação ao ano passado.

Inadimplência
A expansão do setor de cartões de crédito também desperta preocupação em razão dos índices de inadimplência. Pesquisa do Serasa – empresa de análises e informações para decisões de crédito -, mostra que, nos primeiros oito meses de 2007, as dívidas com cartões de crédito ocupam o segundo lugar na lista dos “calotes” que mais contribuem para a taxa de inadimplência, perdendo apenas para as dívidas junto aos bancos. As dívidas contraídas por meio do cartão de crédito respondem por 30,7% do índice de inadimplência, enquanto os débitos em aberto junto aos bancos são responsáveis por 38,7% e os cheques sem fundo, 27,9%.

O cartão de crédito, mesmo não ocupando o primeiro lugar em números absolutos, é o campeão no volume de concessão de crédito e também na cobrança dos juros que incidem sobre os débitos que ficam em aberto: são cobrados cerca de 12% ao mês (ou 289% ao ano). Um trabalho realizado pelo Idec (Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor) comparou a média dos juros mensais cobrado nos cartões de crédito com outras taxas do mercado. O estudo apurou que a taxa média de juros praticada no cheque especial é de 8% ao mês (151,8% ao ano). A modalidade com a menor taxa de juros é o empréstimo pessoal, que pode chegar a 4,5% ao mês (ou 69,5% ao ano), mesmo assim, ainda pode ser considerada elevada, já que está bem acima da inflação anual brasileira, que em 2006 foi de 3,84% durante o total do ano (segundo o IPC-M/FGV).

A maior parte dos consumidores tem dificuldade para precisar quanto o mercado de cartões de crédito cobra de juros, pois cada operadora trabalha com seus próprios números. Renata Reis, técnica do Procon (Fundação de Proteção e Defesa do Consumidor) acredita que essa é uma das principais razões para os juros dos cartões de crédito liderarem o número de reclamações na área de Assuntos Financeiros da entidade. “Não há uma lei que regule isso, por esse motivo os juros são tão extorsivos e os mais altos do mercado”, afirma Renata.

Marcos Abreu, gerente de análise setorial do Serasa, informa que o maior pico da inadimplência se dá nos primeiros meses do ano. Os problemas quase sempre têm origem no descontrole financeiro das compras de final de ano e vão repercutir no começo do ano seguinte. ”Além do pagamento de prestações das dívidas contraídas no fim do ano, os meses de fevereiro e março são especialmente dispendiosos por causa dos impostos (IPTU e IPVA estão entre os principais) e as despesas escolares (matrícula e material escolar)”, afirma Abreu.

É por essa razão que Renata Reis, do Procon alerta que o consumidor deve controlar o impulso e planejar as compras de forma adequada ao seu orçamento doméstico. “O consumidor deve optar pelo pagamento à vista negociando descontos ou, se houver necessidade, pagar uma prestação que caiba no seu bolso”, alerta Renata. A representante do Procon deixa claro que a pior solução é optar por pagar os juros do cartão. Nesse caso é melhor renegociar a dívida em termos compatíveis com a renda do consumidor ou até mesmo fazer um empréstimo pessoal no banco para liquidar a dívida do cartão.

Outra dica importante é usar o 13º salário com parcimônia, priorizando o pagamento de dívidas, liquidação de empréstimos pendentes e, sempre que possível, pensar em aplicar parte do saldo para emergências futuras.

Cartão de Crédito não é vilão: basta saber usá-lo
Apesar de todos os problemas, é importante deixar claro que o cartão de crédito não é um vilão, pelo contrário, ele existe para facilitar a vida do consumidor. Bem utilizado ele é um “bom companheiro”. Para isso, o uso consciente é o melhor e único caminho a ser seguido pelo usuário.

Foi pensando nisso que a ANUCC (Associação Nacional dos Usuários de Cartão de Crédito) iniciou recentemente uma campanha de conscientização para que o usuário possa fazer o melhor uso possível de seu cartão. Entre as principais recomendações estão as de escolher a data de pagamento da fatura próxima da data do crédito de seu salário e rendimentos. A fatura deve vencer na mesma data dos créditos, ou poucos dias após. Desse modo, é possível concentrar os pagamentos em um único dia por mês, podendo assim, programar as obrigações financeiras.

O consumidor também deve fazer alguns importantes questionamentos:
(a) Já verificou quanto custa ter e manter o cartão de crédito? Quase todos cobram algum tipo de anuidade do titular.

(b) Os benefícios oferecidos pela operadora, como milhagem, pontos e promoções, realmente atendem ao seu interesse?

Ao responder a essas perguntas e analisar a conveniência de cancelar cartões que não são usados, de trocar de cartão e até mesmo de negociar com a administradora uma redução do valor ou até mesmo a isenção da taxa de manutenção, o consumidor estará usando o seu poder de escolha a seu favor. E não deve se intimidar em propor essa redução do valor ou até mesmo a isenção da taxa, pois a administradora ganha um percentual do valor de cada compra que você faz, cobrando esse percentual do estabelecimento onde você utilizou o cartão. Assim, a administradora do cartão tem alguma margem para negociação, dependendo do quanto o consumidor gasta em seu cartão.

Dinheiro e Crédito: As dicas do Akatu
Vale lembrar as dicas de consumo consciente do dinheiro e do crédito, preparadas pelo Instituto Akatu e divulgadas no final do ano passado.

·        Não compre por impulso. Planeje suas compras e, com isso, não estoure seu orçamento.

·        Lembre-se que não existe pagamento parcelado sem juros. Os juros já estão embutidos no preço à vista. Portanto, quando comprar à vista, negocie um desconto.

·        Pesquise sempre mais de uma alternativa antes de comprar. Avalie o custo-benefício do produto que você está comprando, não só para você mesmo, mas também para a sociedade, a economia e o meio ambiente.

·        Não gaste seu dinheiro à toa. Procure guardar ao menos parte de seu 13º salário. È importante buscar poupar sempre, buscando aplicações em instituições e fundos que se propõem a investir em empresas social e ambientalmente mais responsáveis. Agindo assim, usamos a poupança para criar melhores condições para nós e para toda a sociedade.

·        O fim de ano é um dos períodos em que o consumidor mais entra no vermelho, por gastar além do que pode. Faça uma reserva de recursos para os pagamentos típicos de início de ano, como IPVA, IPTU, matrícula escolar, entre outros.

·        Só faça viagens programadas para o final de ano. Caso não tenha programado uma viagem que esteja dentro de suas possibilidades, opte por fazer programas em sua própria cidade, ou por simplesmente descansar. Assim, além de valorizar sua região, você evita gastos excessivos e mantém as finanças em dia.

·        Reavalie a necessidade de fazer algumas compras. Reflita sobre a felicidade que você encontra nos momentos em que você passa com a família e a que é realmente trazida pelos presentes que são trocados nas festas de fim de ano, buscando um equilíbrio entre elas.

E consulte o conteúdo do Akatu contido na Série Temática – Consumo Consciente do Dinheiro e do Crédito, conjunto de quatro publicações que tratam da educação financeira associada ao consumo consciente. A coleção tem o patrocínio dos bancos Real e Ibi, e do Grupo VR.

Links de interesse:

www.serasa.com.br

www.procon.sp.gov.br

www.anucc.org.br

www.idec.org.br

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