Entrevista com Paulo Adário, coordenador da campanha Amazônia

Em entrevista exclusiva ao Akatu, Adário, do Greenpeace, fala sobre como brecar o avanço do desmatamento, o impacto dos consumidores que valorizam a madeira certificada e de políticas públicas

A área devastada da Amazônia já supera o tamanho do território da França. Pior: 25% do desmatamento ocorreu nos últimos dez anos. Segundo a FAO, mais de 15 milhões de hectares de floresta primária foram desmatadas por ano durante a década de 90. Empresários que vendem e compram madeira ilegal são os alimentadores desse quadro caótico. Por isso, são os principais alvos das campanhas do Greenpeace. Paulo Adário,coordenador da campanha Amazônia, já foi ameaçado de morte por suas denúncias, em outubro do ano passado. Mas isso não aliviou o discurso do ativista contra o comércio de madeira ilegal. Em entrevista exclusiva ao Akatu, Adário fala sobre como brecar o avanço do desmatamento, o impacto dos consumidores que valorizam a madeira certificada e políticas públicas urgentes que devem ser adotadas pelos governos para impedir o fim das florestas.

Akatu — Os consumidores estão comprando mais madeira com o selo FSC (selo do Forest Stwartship Council que determina critérios para a boa exploração florestal, em termos sociais, ambientais e econômicos)?

Adário — Os consumidores, em geral, não exigem madeira certificada. Boa parte da madeira da Amazônia vai para a construção civil. Não se compra um apartamento porque ele tem portas, janelas e pisos FSC. Você compra um apartamento porque ele está dentro de seu orçamento, atende a seus desejos e possibilidades. Podemos promover a idéia do FSC junto ao público, em particular aquele que consome móveis. É, aliás, o que o Greenpeace está fazendo no Brasil, em particular para mostrar a responsabilidade dos cidadãos para com a preservação da Amazônia. Isso é altamente positivo, mas tem efeitos apenas no longo prazo.

Akatu — Por que poucos empresários até agora adotaram a certificação?

Adário —Os verdadeiros empresários, que cumprem a legislação e pretendem defender seu nicho de mercado, têm uma imagem a zelar. Mas só vão adotar a certificação se tiverem um ganho real econômico e condições para tanto. Isso não acontece hoje porque há muita madeira ilegal no mercado. Madeira ilegal não paga imposto, é retirada de qualquer forma e não custa quase nada. Enquanto houver essa imensa quantidade de madeira ilegal no mercado, os produtos das empresas certificadas não serão competitivos em termos de preço. Logo, só se certificarão aquelas que possam operar em nichos de mercado, com consumidores que exigem FSC. É uma pena, mas esse universo parece muito reduzido no momento. Além disso, a certificação FSC custa caro, demora, e há poucas certificadoras na praça. Para resolver esse problema, será preciso uma verdadeira revolução no perfil da indústria madeireira, inclusive a criação de linhas de crédito especiais para financiar o processo de conversão. Não é por acaso que apenas 5 empresas estão, no momento, certificadas pelo FSC na Amazônia.

Akatu — Qual o posicionamento das grandes empresas consumidoras de madeiras ou das revendedoras em relação à certificação?

Adário — Os consumidores corporativos não parecem muito dispostos a pagar prêmios por produtos FSC. Justificam-se alegando que operam com margem de lucro muito baixa, o que é verdade na maioria dos casos. Esses consumidores só vão optar por comercializar madeira certificada a curto e médio prazo se a imagem dessas empresas for comprometida, ou seja, se formos capazes de expor sua responsabilidade no desrespeito à lei, de forma que eles se arrisquem a perder mercado ou a pagar multas se não mudarem suas práticas. Eles são grandes, fortes e — e aí reside sua fraqueza — dependem do mercado. Esse grupo tem sido um dos principais alvos da campanha do Greenpeace: atacamos os grandes importadores de madeira ilegal que operam na Europa, Estados Unidos e Japão porque têm o que perder: têm ações em bolsa e uma imagem a zelar.

Akatu — Como no caso da madeireira malasiana WTK no Reino Unido

Adário — Sim, nós fechamos o mercado inglês para os compensados da Amaplac/WTK. Denunciamos o envolvimento dos importadores ingleses com uma empresa que opera com madeira ilegal no Brasil e que tinha comprado terras indígenas Deni. Invadimos navios e portos, mostramos que o prestigioso Museu Britânico havia comprado compensados Amaplac para a reforma de uma de suas alas. Resultado: a WTK, segunda maior madeireira do mundo, pediu água e veio negociar conosco. Aceitou não contestar os limites da terra Deni, o que de fato fizeram, e decidiu que suas operações na Amazônia serão FSC. Este último compromisso ainda não foi cumprido. E até que isso aconteça, vamos continuar a bater e também a cooperar com a empresa.

Akatu — Esse tipo de campanha já deu resultados com outras madeireiras internacionais?

Adário — Tem o exemplo da LaPeyre, o maior importador francês de madeira tropical, que controla a Eldorado no Pará. Mostramos o profundo envolvimento da Eldorado com madeira ilegal, atacamos navios, invadimos lojas LaPeyre, colocamos até uma homepage LaPeyre na praça. Em 2000, a LaPeyre convocou uma reunião em Paris. Comprometeu-se a ser 100% FSC no Brasil em cinco anos e propôs aderir ao Grupo de Compradores de Madeira Certificada que, no Brasil, é dirigido pelos Amigos da Terra (em escala internacional, quem coordena a iniciativa é o WWF). Aceitamos, mas exigimos que todo o consumo de madeira da LaPeyre fosse FSC e eles recusaram na ocasião. Tivemos recentemente uma nova reunião com a LaPeyre em Paris, e desta vez eles aceitaram adotar o FSC para todas as suas compras do Sul — o que inclui a África, o Sudeste da Ásia e talvez até mesmo a Papua Nova Guiné. Foi um grande passo: cerca de 40% da madeira deste gigante francês será FSC — se formos capazes de cobrar os compromissos assumidos.

Akatu — Um grande passo, mas ainda que não resolveu o problema da LaPeyre.

Adário — É, os outros 60% do consumo do grupo vêm da Europa e do Canadá e, nesses dois mercados, a LaPeyre não quer ouvir falar de FSC, já que a indústria madeireira aqui na América do Norte e na Europa defende seus próprios selos, muito menos rigorosos, e LaPeyre não quer romper com seus parceiros. De qualquer forma, consideramos os passos já dados promissores e queremos aumentar a cooperação com a Eldorado na Amazônia, pois podem desempenhar um papel importante e exemplar na região.

Akatu — E os governos, enquanto compradores de madeira?

Adário — Você lembrou bem, os governos também são grandes consumidores de madeira e, portanto, um perfeito e legítimo alvo. Fazem discursos bonitos pela preservação das florestas, mas continuam a comprar madeira ilegal e destrutiva. A alegação é sempre de base legal: “Nossa legislação define que preço (mais baixo) é condição fundamental em concorrências públicas”, dizem eles. Também não parecem dispostos a adotar, como condição de concorrência pública, a certificação. Será preciso modificar a legislação internacional (o que é uma tarefa hercúlea) se quisermos realmente modificar o perfil do mercado. Tivemos três reuniões na última semana com governos. Passos importantes foram dados para esclarecer a natureza do problema da madeira ilegal e discutir mudanças necessárias. Mas esse trabalho precisa envolver as grandes ONGs, os grandes formadores de opinião, os legisladores e governos de países consumidores e produtores, se quisermos chegar a algum lugar.

Akatu — O que você acha da tentativa do Grupo de Consumidores de Madeira Certificada de integrar as duas pontas do mercado de madeira interessadas na certificação florestal?

Adário — A lógica é bem interessante: tenta-se desbloquear o mercado e estimular produtores a se certificar. Uma “compradora” de madeira FSC estaria dando uma sinalização positiva ao mercado — se há compradores, candidatem-se a produtores. Seria preciso que esses compradores aceitassem pagar preços mais altos e se comprometessem formalmente a eliminar de suas carteiras a madeira não certificada em um certo prazo. Mas como não existe nenhum compromisso legal, nenhuma empresa pode ser punida se deixar de cumprir os compromissos. Logo, fica tudo por conta das regras do mercado, da livre iniciativa, das boas intenções. O mercado ainda está devendo exemplos concretos de que possa se auto-regular.

Akatu — A imposição da certificação da exploração florestal é a saída?

Adário — Não porque a obtenção de um selo tem que ser voluntária. Também não podemos esperar que as mais de 3,5 mil empresas madeireiras da Amazônia adotem espontaneamente o FSC por várias razões. Primeiro porque muitas delas não podem ser chamadas de “empresas”. Em geral são aventureiros, que hoje exploram, processam e comercializam madeira porque isso está dando dinheiro. Vivem na  ilegalidade porque isso aumenta seu lucro. Amanhã, vão vender alface, minérios e até mesmo drogas, se os riscos forem menores. Essas empresas querem maximizar lucros de curto prazo e estão se lixando para leis, selos e ONGs. Nada têm a perder, não têm imagem a preservar ou ações em bolsa que possam valorizar ou desvalorizar se atacadas por ONGs ambientalistas ou pelo governo. A grande maioria das empresas madeireiras da Amazônia só vai cumprir a lei e atuar de forma menos predatória se forem forçadas a isso. Logo, a elas o duro tacão da Lei, que tem que mudar para ser mais restritiva. Isso exige órgãos de fiscalização muito mais poderosos, honestos e eficientes do que são hoje. Por isso defendemos o fortalecimento do aparelho fiscalizatório e em particular do IBAMA. A floresta não pode esperar até que essas empresas se convertam ao bom manejo — ela acaba antes. Essas empresas vão continuar a trabalhar com madeira ilegal e a inundar o mercado com produtos madeireiros de baixo custo

Akatu — Afinal, o Greenpeace acredita ou não na certificação florestal?

Adário — O Greenpeace apóia o FSC, faz parte do processo, toca o bumbo na procissão, mas não acredita que, pela porta do FSC, vamos colocar a indústria ilegal sob controle, resolver o suprimento de matéria-prima, garantir a preservação dos remanescentes florestais ainda razoavelmente intactos, distribuir justiça social. Há uma imensa distância entre a empresa de madeira ilegal e aquela que pode ser certificada. Esse fosso envolve milhares de empresas, 80% de madeira ilegal. O FSC ou qualquer outro selo não vai e não pretende salvar a Amazônia. As florestas tropicais estão sendo destruídas num ritmo alarmante. Cientistas se dividem sobre prazos, mas é razoável supor que a Amazônia que conhecemos hoje pode desaparecer muito antes de que consigamos (ONGs e governos) educar consumidores e produtores para que, via mecanismos voluntários, ponham um basta neste processo destrutivo.

Akatu — E qual a alternativa?

Adário — Os problemas são muitos e complexos. A exploração madeireira é apenas uma das ameaças ao patrimônio ambiental. Logo, as soluções também serão muitas — e complexas. Entre elas, está uma nova legislação florestal que leve em conta a complexidade dos diferentes biomas amazônicos, que contemple alternativas para comunidades e empresas sérias, e até mesmo para diferentes espécies, mas que tenha como ponto de partida a realidade de que preservar o que sobra de florestas em todo o mundo é emergencial ou nada mais restará quando, finalmente, todos estiverem de acordo sobre os passos corretos a serem dados. Qualquer iniciativa que aponte para soluções será bem vinda.

Akatu — E enquanto essa legislação não surge…

Adário — Temos que manter a pressão. Há menos de duas semanas tivemos uma longa reunião na Espanha com Maderas del Nordeste, um dos grandes importadores de madeira amazônica, e com o diretor da Associação Espanhola de Importadores de Madeira. Eles se comprometeram a não mais comprar mogno brasileiro e a trabalhar conosco para não comprar madeira ilegal. Nós nos comprometemos a ajudar os madeireiros que vendem para a Espanha e manter seus mercados. Teremos uma reunião de trabalho ainda no primeiro trimestre, na Amazônia. Note que não estou falando aqui de FSC, mas de madeira legal. Estamos trabalhando na mesma direção no Amazonas e, a partir de agora, em Santarém. Queremos que as empresas assinem um compromisso não conosco, mas com a Procuradoria Federal da República, o Ibama, os órgãos estaduais de meio ambiente, a Receita Federal etc, e se comprometa na Justiça a eliminar a madeira ilegal e a adotar práticas condizentes com o bom manejo — digamos nos padrões do FSC em prazo “X”. Ou seja, estamos falando de Termos de Ajuste de Conduta legalmente verificáveis e puníveis em caso de desobediência. Se elas vão se certificar ou não, é outra coisa. Se aderirem ao Grupo de Compradores, ótimo.

Akatu — As florestas vão sobreviver ao processo?

Adário — Difícil saber. Por exemplo, a Eidai, maior produtora de compensados da Amazônia, anunciou sua adesão ao Grupo de Compradores — depois de ser alvo de uma forte campanha do Greenpeace, que resultou em multas, ainda não pagas, de mais de R$ 3 milhões de reais. A Eidai tem sua linha de compensados concentrada em pouquíssimas espécies e parece improvável que consiga ser FSC antes de cinco anos, a não ser que mude sua estratégia comercial. Como é hoje, a empresa necessitaria de grandes áreas de floresta, não disponíveis na praça, para atender suas necessidades de produtos certificados ou teria que se dispor a ajudar seus fornecedores a se certificarem. A Eidai tem uma estratégia muito clara de greenwash — ou seja, maquiagem verde. Faz uma propaganda agressiva, anuncia aos quatro ventos suas pesquisas de plantações de paricá, enquanto continua a comprar madeira sem origem. Basta dar um pulinho no Rio Jaraucu para ver as jangadas… Compra de quem se dispõe a vender. Imagine se o Greenpeace poupar a Eidai de críticas porque a empresa quer ser FSC e, daqui há cinco anos, eles disserem: “desculpa, gente, mas não achamos madeira FSC na praça, não podemos fazer nada…” Terão proteção por cinco anos contra campanhas agressivas como a que fazemos. O mesmo vale para a Eldorado e todas as outras empresas.

Akatu — A extração de madeira cria renda para as comunidades tradicionais. Como resolver essa questão?

Adário — Madeira ilegal é também um problema social. Milhares de ribeirinhos e colonos da Amazônia não têm alternativa a não ser vender madeira. Não têm qualquer condição de obter licenças do Ibama para operar. Nós não temos a resposta, temos sugestões. A opção por produtos florestais não madeireiros é uma das opções — embora isso signifique um imenso desafio. Isso parecer exigir quase um Plano Marshall… O manejo madeireiro comunitário simplificado é uma das alternativas que não podem ser descartadas, já que madeira é a commodity do dia. Mas, honestamente, problemas sociais não são resolvidos com “iniciativas promissoras”, nem com boas intenções, nem a curto prazo. Exigem muita vontade política de governos e estamos muito longe disso no Brasil, na África, na Ásia…

Akatu — Segundo vários cientistas, se tudo continuar como está, em 50 anos podemos ter acabado com a Amazônia. Seremos capazes de conter este processo em uma geração?

Adário — Não sei. Nós somos apenas uma ONG. Mas somos bons de briga.

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