Entrevista: Betty Abramowicz

Coordenadora de projetos do Akatu fala sobre o poder que o consumidor tem nas mãos

 

Ao comprar um produto, o usuário na sua grande maioria não faz ideia do impacto que provoca no meio ambiente e na sociedade em geral. A missão do Instituto Akatu é justamente a de mostrar para este consumidor o quanto ele pode contribuir para o bem da sociedade no ato de simplesmente escolher bem o produto que consome. “Portanto, o que se quer é mostrar para o consumidor que, ao consumir qualquer produto, serviço ou recurso natural, ele tem o poder de escolher o mundo em que quer viver”, explica Betty Abramowicz, Coordenadora de Projetos do Instituto Akatu. Conheça, na entrevista abaixo, as estratégias deste Instituto para ampliar o conhecimento deste novo conceito pelo Brasil, bem como a melhor maneira de as empresas absorverem a idéia também no seu dia a dia:

 

1) Responsabilidade Social – Qual a proposta de atuação do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente?
Betty Abramowicz – A proposta de atuação do Instituto é de educar o consumidor para o consumo consciente. Trazer o consumo para a consciência, para que o consumidor possa ter em mente que tudo o que se consome impacta na coletividade. O consumidor consciente sabe enxergar que o ato individual de consumir pode contribuir para o bem da sociedade. Portanto, o que se quer é mostrar para o consumidor que, ao consumir qualquer produto, serviço ou recurso natural, ele tem o poder de escolher o mundo em que quer viver. Ele vê a diferença que a sua parte pode fazer no todo. O Instituto Akatu acredita ser possível transformar o ato de consumo em um ato de cidadania, um gesto político. A missão do Akatu é a de informar, sensibilizar, instrumentar e mobilizar o consumidor neste sentido. Acreditamos que essa seqüência aconteça de forma gradativa, onde o primeiro estágio é o de ele estar pré-disposto a receber a informação e o último é aquele em que ele passará a mobilizar a sua comunidade e o meio onde vive. O objetivo final do Instituto Akatu é contribuir significativamente para a formação de uma massa crítica de consciência que leve a uma mudança de atitudes e comportamentos na direção do consumo consciente.

2) RS – Como se define o conceito de Consumo Consciente? E o conceito de Responsabilidade Social? Ambos estão ligados de que maneira?
BA – O conceito do Consumo Consciente define-se por um processo de escolha que visa equilibrar o bem estar do consumidor com as possibilidades ambientais e as necessidades sociais. Os conceitos de consumo consciente e responsabilidade social estão diretamente ligados. Não por acaso o Instituto Akatu Pelo Consumo Consciente nasceu no âmbito do Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social. Será o consumidor consciente quem valorizará as empresas socialmente responsáveis. O consumidor consciente naturalmente fará inferências sobre os enormes impactos que a escolha de produtos e serviços pode ter quando considerar, no ato de compra, as características próprias desses produtos e de seu processo de produção, o uso e o descarte dos mesmos, os impactos sobre a sociedade e o meio ambiente. A responsabilidade social vem a seguir, significando a escolha das empresas das quais o consumidor vai comprar em função da forma como elas se relacionam com os seus diversos públicos: funcionários, fornecedores, meio ambiente, comunidade, governo, etc.

3) RS – No que consiste o programa 3‘R’?
BA – Em primeiro lugar é importante ressaltar que não é só na hora da compra que o consumo pode ser exercido conscientemente. Os 3 “Rs” consistem em: reduzir, reutilizar e reciclar e contemplam todas as fases do ato de consumir (escolha, aquisição, uso e descarte). Portanto, esse programa faz parte de um processo de educação do consumidor, onde o “reciclar”, hoje um termo bastante conhecido por todos, é o último estágio, pois anteriormente a ele a pessoa precisa tentar atuar nos outros dois “Rs”. Os três “Rs”, portanto, correspondem a três momentos distintos: 1) O primeiro “R” – questionar se realmente existe a necessidade para aquisição daquele bem, recurso natural ou serviço. Isso levaria automaticamente a uma redução, visto que grande parte do que consumimos não é necessário, é “compra por impulso”; 2) O segundo “R” – reutilizar, ou seja, verificar como os mesmos produtos, serviços e recursos naturais podem ser usados integralmente e de várias formas, inclusive mais de uma vez; 3) O terceiro “R” – reciclar, para que aquilo que efetivamente vai para o lixo possa ser reutilizado, se não por nós, que o consumimos em primeira instância , por terceiros.

4) RS – Quando e em que contexto surgiu a idéia do Consumo Consciente? É um conceito novo no Brasil?
BA – Há dois anos o conceito não era conhecido, mas hoje o adjetivo “consciente” já é utilizado junto à palavra “consumo” com naturalidade. Segundo diversas pesquisas, 20% da população já parecem refletir mais coerentemente sobre sua própria forma de consumo, o que significa a possibilidade de o consumidor perceber que suas escolhas são um forte instrumento de poder. Como indicativo dessa mudança de postura, surge o Instituto Akatu pelo Consumo Consciente, organização não-governamental sem fins lucrativos criada em 15 de março de 2001, Dia Mundial do Consumidor.

5) RS – De que maneira o Instituto Akatu intervém no trabalho das empresas que resolvem adotar uma postura de Consumo Consciente?
BA – O Instituto Akatu na verdade atua como um parceiro das empresas que resolvem adotar a postura do Consumo Consciente. Acreditamos que as empresas são importantes agentes transformadores e que têm um grande poder de influência sobre a maneira de pensar e agir de seus funcionários (hoje melhor chamados de colaboradores). Isso se souberem conduzir um processo de criação de cidadãos e não impor regras, como um agente detentor poderoso. Portanto, o Instituto Akatu provê informação/conteúdo para as empresas, para que estas possam fazer campanhas internas com seus funcionários ou ainda campanhas com seus fornecedores. Também incentiva e divulga atitudes que as empresas adotam com o sentido da responsabilidade social. Um fato importante é que o Instituto Akatu não adota a postura da denúncia. Nossa proposta é disseminar informações para que o consumidor possa fazer suas opções com consciência de que, qualquer que seja a sua escolha, existe a relação de interdependência com a sociedade onde vive.

6) RS – Quais são os principais projetos desenvolvidos pelo Akatu?
BA – O Instituto Akatu desenvolve diversos projetos e atividades. Entre eles estão o site www.akatu.net, que oferece ao usuário informações e serviços na área do consumo consciente; o Projeto Sou Mais Nós, que leva para empresas, escolas e comunidades um programa educativo com dicas e informações sobre hábitos conscientes de consumo; as publicações Akatu Diálogos, resultados de debates entre especialistas em temas relacionados ao consumo; pesquisas voltadas a conhecer a visão e os hábitos dos cidadãos nas áreas relacionadas ao consumo e campanhas direcionadas a orientar o consumidor frente a itens específicos, como água, energia, papel, embalagens, alimentos, móveis , etc.

7) RS – Quais as estratégias do Instituto Akatu para ampliar a idéia do Consumo Consciente para todo o país?
BA – O que ainda falta para que se amplie a idéia do Consumo Consciente no Brasil é o acesso à informação. É um “trabalho de formiguinha”, mas o Instituto acredita que, ao longo do tempo, será criada uma massa crítica na comunidade e isso mudará o mercado, como aconteceu nos casos da mão-de-obra infantil e da poluição. Há 20 anos, as empresas poluíam e, mesmo assim, os resultados sobre as vendas não caíam significativamente. Hoje, nenhuma companhia corre o risco de ter sua imagem associada pela opinião pública a este tipo de prática. A estratégia que o Akatu adota na verdade é o trabalho com três bandeiras: sustentabilidade ambiental, responsabilidade social das empresas e pressão sobre instituições e políticas públicas. Na primeira, o Akatu desenvolve programas educativos e informativos sobre o consumo consciente de recursos naturais e de produtos e serviços, em toda a sua extensão, do ato da compra ao descarte. Na segunda, são desenvolvidas atividades que induzem o consumidor a considerar a responsabilidade social da empresa produtora como critério de escolha de seus produtos de consumo. Na terceira, os programas são voltados às políticas públicas, com o objetivo de induzir e viabilizar os princípios do consumo consciente, oferecendo aos cidadãos caminhos para intervir por essa via.

8) RS – Na sua opinião, qual o aprendizado em Consumo Consciente que deve ser absorvido pelas classes empresarial e industrial, com maior urgência?
BA – São três as vertentes de aprendizado, todas elas estratégicas para as empresas. Em primeiro lugar, as empresas constituem-se, elas mesmas, em consumidoras – não raro grandes consumidoras. Se não estiverem atentas a alternativas de consumo consciente, certamente perderão oportunidades de reduzir custos e, com isso, de manter sua competitividade, já que o concorrente o fará. Ao fazê-lo, descobrirão que, além de manter a competitividade, estarão contribuindo para um mundo melhor. Em segundo lugar, os consumidores estão cada vez mais atentos à postura ética das empresas. Já há tendências claras e identificadas em pesquisas de mercado de que os consumidores com maior grau de instrução e das classes altas estão mais e mais preocupados (e agindo de acordo) com os aspectos da responsabilidade social empresarial, enquanto os de classe média e baixa mostram interesse e disposição para punir ou recompensar empresas segundo sua percepção da postura ética das mesmas. Nós, do Akatu, sabemos que essa tendência é crescente e que as empresas que quiserem manter maior grau de fidelidade de seus clientes deverão encarar com seriedade o desafio. Por último, as empresas devem considerar ainda que não é pequeno o seu potencial como “agentes transformadores” de valores e comportamentos, havendo, portanto, uma oportunidade magnífica de contribuir para a construção de um mundo melhor. Isso pode ser feito, por exemplo, a partir de programas internos de sensibilização e mobilização, pois cada colaborador levará para sua casa e comunidade os valores que adquire no trabalho.

9) RS – A senhora acredita que hoje há uma boa penetração do tema “Responsabilidade Social” dentro do governo federal? Podemos esperar que o atual governo esteja pronto e tenha a intenção de promover ações ligadas a este tema?
BA – Se você atentar para alguns dos principais programas desse governo, verá que na prática ele já identificou o potencial e a disposição de muitas empresas em colaborar ativamente para o estabelecimento de parcerias importantes e estratégicas nessa área. No Programa Fome Zero, por exemplo, ou na criação do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social da Presidência da República, há forte representação do empresariado, selecionada a partir de critérios de liderança e de prática da responsabilidade social. Também entre as lideranças do partido do governo destacam-se alguns pioneiros da introdução desse conceito no país. O governo sabe que não tem recursos para atender a todas as demandas e que, com a colaboração do setor empresarial, ampliará muito seu leque de atuação. Por outro lado, essa compreensão não é homogênea, se considerarmos as várias áreas e escalões governamentais. Como no caso do consumo consciente, o conceito de responsabilidade social é relativamente novo, mas vem ganhando adesão em grande velocidade. Portanto, estamos otimistas de que essa relação deve crescer.

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