Educação que transforma o ato de consumo em um ato de cidadania

A Escola Viva, desde sua origem, tem destacado a importância da interação da criança com a natureza, por Célia Tilkian

Há doze anos trabalhamos a Educação Ambiental em um projeto fundamentado em quatro eixos principais. O primeiro deles é a formação continuada dos professores e dos profissionais envolvidos no processo educativo, efetuada de maneira sistemática e que pressupõe, no caso dos professores, tanto os conteúdos conceituais necessários para o desenvolvimento de um projeto, quanto as práticas metodológicas.

Os eixos seguintes são a coleta seletiva de lixo, a organização do espaço interno – “o quintal da escola” – e, por último, o planejamento pedagógico do tema.

Começando com os pequenos – A conscientização do respeito à natureza acontece imediatamente, nas séries iniciais. Chega a ser comovente ver nossas crianças menores, que chegam à escola a partir de um ano e meio, já aos dois trazerem caixinhas de leite para a coleta seletiva. Tarefas como essa foram incorporadas à nossa tradição e fazem parte da proposta pedagógica da escola. São fortemente estimuladas e organizadas de tal maneira que as próprias crianças possam fazer a seleção, apesar de a grande maioria ainda não saber ler.

Dessa forma crescem conscientes da necessidade de selecionar o lixo e conhecem possibilidades de reutilização de alguns dos resíduos coletados.

Deve-se salientar que as crianças gostam de executar o trabalho e as famílias colaboram conosco, sabendo que temos uma destinação para o material recolhido: uma parte é reutilizada nas aulas de Arte, no próprio ateliê da escola; outra é doada para instituições e, atualmente, estamos ampliando o projeto para toda a comunidade do bairro.

A organização de nosso quintal é outra característica forte da escola. Os alunos crescem em meio a plantas e animais, aprendendo a respeitar e a conviver com diferentes espécies, o que permite fazer com que essa atitude vá se instalando cada vez mais na vida de cada um deles.

O projeto pedagógico – A relevância deste assunto pede que eu me detenha um pouco mais sobre ele. Eu diria que a grande preocupação da Escola Viva tem sido, mais do que ensinar conteúdos conceituais, transmitir para os alunos uma maneira diferente de olhar o mundo, na qual eles se sintam comprometidos com a preservação do meio ambiente, possam olhar para si e para o mundo compreendendo a importância de seus atos.

Nosso quintal é muito arborizado e as crianças se divertem brincando e se sujando no chão de terra. Desde pequenos trabalham com a horta, assumem a rega das plantas e o cuidado com os animais.

Assim, pouco a pouco, o envolvimento com relação ao meio ambiente vai se interiorizando e eles passam a ser multiplicadores de idéias, já que é muito mais fácil transmiti-las aos pais através das crianças do que pelo caminho contrário: crianças são mais maleáveis que adultos, ainda não têm os vícios de consumo e de algumas facilidades a que nós, mais velhos, já nos habituamos.

A título de exemplo, gostaria de citar um trabalho que a 5 a série realizou, no ano passado, a respeito da água. Ele não estava exatamente previsto para o primeiro semestre, mas, diante do racionamento de energia, o estudo foi antecipado, permitindo que os alunos construíssem uma aprendizagem significativa, uma vez que partia da experiência de racionamento que eles viviam em suas próprias casas. Os trabalhos foram apresentados em um sábado letivo e chamou-se “Viva con-Vida”. Para a apresentação foram convidados os pais e moradores do bairro, para quem nossos alunos puderam transmitir seus conhecimentos. Trabalho semelhante também foi realizado sobre o lixo, mostrando a importância de “Reduzir, Reutilizar e Reciclar” – a importância dos três “erres”.

Como se vê, todo nosso planejamento pedagógico parte da realidade da vida e do mundo do aluno, na tentativa de fazê-lo produzir consciência a respeito da necessidade de preservar o meio ambiente.

Estudos do meio – Também a partir da 5 a série são organizados estudos em espaços reservados à preservação do meio ambiente. Assim, paralelamente ao tema água, os alunos estudam o rio Tietê, o que inclui conhecer a nascente e acompanhar seu curso para comprovar a falta de consciência ecológica e as causas da poluição.

Já os alunos da 7 a série têm de realizar um projeto sobre o tema em estudo – preservação – buscando responder se “é possível haver desenvolvimento e preservação do meio ambiente”. Para tanto, eles fazem várias visitas: vão ao aterro sanitário, à represa de Guarapiranga, ao centro de São Paulo e à região do Petar – uma área de preservação ambiental que acabou se tornando um dos locais mais pobres do estado de São Paulo, devido ao tombamento das cavernas sem um projeto de desenvolvimento econômico para a população da região.

Os alunos saem para o estudo do meio com estas orientações:

“Todo o lixo não-orgânico deverá ser trazido de volta, mesmo o produzido

por outras pessoas. Cada participante deve ter seu saco de lixo pessoal.

O trajeto é tão ou mais importante do que o ponto de chegada.

Seja observador. Não tire nada além de fotos, não deixe nada além

de pegadas e não mate nada além do tempo”.

Mantendo essa mesma filosofia, quando construímos o prédio do Fundamental II (na época das Olimpíadas da Austrália e das construções ecológicas), tivemos a sorte de encontrar o Márcio Araújo, do Instituto para o Desenvolvimento da Habitação Ecológica, que nos orientou sobre os materiais disponíveis no mercado nacional para a construção daquele que foi chamado o Primeiro Prédio Ecológico do País.

A construção ecológica – Utilizamos materiais que agredissem o menos possível o meio ambiente: madeira de reflorestamento com selo verde na estrutura do prédio e outros que poupassem energia e economizassem água – desde fios elétricos de malha ecológica, canos decobre, controle de fluxo nas torneiras e válvulas de descarga, captação das águas pluviais usadas na limpeza e na rega do jardim e piso 100% natural, de flor de linóleo, cujo colorido, bastante decorativo, também deixou a escola muito bonita.

A mesma preocupação orientou a seleção de outros itens, como o telhado, feito de embalagem reciclada de leite longa vida, combinando com os móveis da cantina. Esta, aliás, permite o ensino do consumo consciente, pois não temos refrigerantes, fritura, salgadinhos, balas ou chicletes. Não é uma cantina alternativa: temos hambúrguer e cachorro-quente, mas não vendemos produtos que prejudicam a saúde de nossos alunos, crianças ou adolescentes, que crescem recebendo noções para uma alimentação saudável. Percebemos que, tal qual o trabalho sobre o meio ambiente, esse outro tema transversal – a saúde – também vai se incorporando à prática de vida.

Etapas de um processo – Todo processo educativo passa por uma fase inicial mais direcionada, algumas vezes até imposta, depois por uma disciplina consentida que leva, finalmente, à autodisciplina. Acreditamos que esse processo permite formar cidadãos conscientes, que podem contribuir para a construção de uma sociedade mais justa.

Todos os que estão preocupados em produzir consciência, seja para a preservação do meio ambiente, seja para o consumo, devem lembrar sempre destas frases – síntese do processo educativo – que cito com freqüência para os meus professores:

“Quando nada parece ajudar, penso no quebrador de pedra. E o vejo martelando a sua rocha cem vezes, sem que nada aconteça. Na centésima primeira vez, a rocha se abre em duas e eu sei que não foi aquela martelada, mas todas as outras que vieram antes”.

Um dia, quem sabe, poderemos ver a centésima primeira martelada dando frutos em nosso ambiente.

Célia Tilkian – formada em história pela PUC-SP, com especialização em Psicopedagogia. sócia-diretora da Escola Viva – Ed. Infantil e Fundamental de São Paulo. Membro do Grupo Educação do PNBE até 1997.

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