Eduardo Jorge: Para a maioria dos brasileiros, todo dia é Dia Mundial Sem Carro

Secretário municipal de Verde e Meio Ambiente de São Paulo defende o dia sem carro como forma de reflexão e pede um planejamento urbano voltado às pessoas

Um dia com menos automóveis nas cidades não resolve nada, mas pode levar os cidadãos e o governo a pensar e debater as melhores alternativas para a mobilidade urbana. Essa é a opinião de Eduardo Jorge, secretário municipal de Verde e Meio Ambiente de São Paulo, sobre o movimento que tem crescido nas cidades brasileiras nos últimos quatro anos. Nesta entrevista ao Instituto Akatu, ele propõe uma mudança cultural, para que os cidadãos motorizados se disponham a usar o transporte público.

Rogério Ferro: Como o Dia Mundial Sem carro pode ajudar na conscientização da população sobre a necessidade de repensar o uso do automóvel?

Eduardo Jorge: Quando a Secretaria começou essa campanha, em 2005, eu fui ridicularizado. Na internet e nas rádios, vinham questionamentos do tipo “o que um dia só vai resolver na cidade de São Paulo?”. É claro que um dia só não resolve nada do ponto de vista imediato. Aliás, fizeram muitas ironias, dizendo que nesse dia o congestionamento até piorou, que muita gente saiu com o carro com a idéia de que “antes que proíbam alguma coisa com o carro, vou sair com ele enquanto posso”. Ora, o Dia Mundial Sem carro, que é uma iniciativa francesa, não é para resolver as coisas da noite pro dia. Nossas cidades estão dessa forma, com os carros reinando e oprimindo a cidade e todos nós, como resultado de um tipo de urbanização e de industrialização de mais de 100 anos. Você não pode, evidentemente, mudar 100 anos em um dia. O importante é que é um dia de educação, de reflexão, para as pessoas pensarem que é possível e necessário ter outra forma de mobilidade na cidade e exigir dos seus parlamentares, dos seus governantes, providências nesse sentido. E também pensar na sua contribuição em relação a essa mudança de mobilidade. Essa é uma questão que tem que ser resolvida ao nível político, mas também pela opção do dia a dia das pessoas. O Dia Mundial sem Carro é um dia de educação ambiental ligada à mobilidade. E esse diálogo ambiental vai tendo reflexos na forma de pensar das autoridades e das próprias pessoas.

RF: Nesse sentido, mudou alguma coisa nesses quatro anos?

EJ: Mudou. Em 2005, praticamente só eu e o prefeito Serra [José Serra, hoje governador de São Paulo] participamos. Hoje, é um movimento de centenas de entidades e isso também está acontecendo em outras cidades do Brasil. Quando você tem uma idéia boa, mesmo que você entre sozinho no começo, ela vai frutificar.

RF: Por que, em sua opinião, muitas pessoas continuam a preferir usar o automóvel, apesar de elas estarem conscientes da emissão de poluentes e de gases de efeito estufa, além do problema dos congestionamentos? O que é preciso para que as pessoas façam escolhas mais sustentáveis?

EJ: É preciso que se discuta essa questão, e nesse sentido o próprio Dia Mundial sem Carro responde em parte a isso. Por outro lado, é preciso expandir o transporte público de qualidade e em quantidade. Mas, insisto que também é por uma questão cultural, ligada ao status — a propaganda da sociedade do consumo liga muito o consumo do automóvel à questão do status. Muitas vezes, mesmo em bairros que têm transporte público de boa qualidade, como nos bairros centrais e no centro expandido de São Paulo, as pessoas não o usam por uma questão de status — elas se sentem rebaixadas se usarem transporte público. Isso é um absurdo. Eu por exemplo, moro na Vila Mariana, um bairro do centro expandido de São Paulo, que tem um transporte de boa qualidade. No entanto, vejo pessoas lá que não usam o transporte público em hipótese alguma, nem para ir ao cinema na Paulista [avenida próxima ao bairro]. Elas podem pegar o metrô quase na porta de casa e descer na entrada do cinema. Mas, não fazem isso, vão de carro e ficam rodando para achar um estacionamento, aumentando a poluição e o estresse. Isso é errado, aqui em qualquer lugar do mundo. É uma atitude egoísta, que não ajuda a cidade. Quem realmente precisa de transporte público e que tem o direito de reclamar são os que moram mais longe, os 70% que não têm carro em São Paulo. Eu tenho dito sempre que, para esses 70%, para o trabalhador de Guaianazes e do Grajaú, todo dia é Dia Mundial sem Carro.

RF: Quais são as ações da prefeitura para melhorar a mobilidade urbana, diminuindo os congestionamentos e a emissão de poluentes e de gases de efeito estufa pelos ônibus, caminhões e automóveis?

EJ: Em parceria com o governo do Estado, estão sendo investidos cerca de 30 bilhões de reais na expansão de transporte público de mais qualidade e visando a utilização crescente de combustíveis mais limpos. Isso se expressa na expansão do metrô, na modernização dos trens, na criação de ciclovias e na instalação de bicicletários, que vão chegar a 30 até o final do ano. Outro ponto importante são as reformas nas calçadas, para garantir a acessibilidade aos cadeirantes, por exemplo. E todas as obras públicas e privadas que são licenciadas pela Secretaria do Verde saem com a obrigatoriedade de implantar a calçada verde, que tem uma faixa de grama, permeável, onde as árvores são plantadas, o que garante uma melhor qualidade do ar. Geralmente não se fala muito das calçadas, mas esse é um ponto muito importante, porque as pessoas andam muito a pé. Aliás, esse é o meio de transporte mais tradicional na história da humanidade.

RF: Favorecer o uso do transporte público em detrimento do automóvel também é uma questão de planejamento urbano — por exemplo, ter centros comerciais próximos a áreas residenciais, evitar a expansão de bairros para fora da cidade e adensar o centro, criar condições para que as pessoas morem mais perto do local de trabalho. É possível fazer isso em São Paulo?

EJ: Na lei municipal das mudanças climáticas que acabamos de aprovar — aliás, a primeira do Brasil —, um dos pontos mais importantes é a diretriz de que São Paulo deve ser uma cidade mais compacta. Que conceito é esse? A idéia é que precisamos parar de crescer nos mananciais e em direção a eles, como as regiões de Guarapiranga, Parelheiros e Serra da Cantareira, para onde são expulsas e empurradas as populações mais pobres. Isso obriga os trabalhadores a andarem duas horas de ônibus para vir trabalhar, mais duas para voltar, e faz com que caia o número de habitantes das regiões do centro e do centro expandido. Parelheiros está há quase 15 anos crescendo 8% ao ano, e a região de Perus, próxima à Serra da Cantareira, está crescendo a 10% ao ano, enquanto o centro e o centro expandido decrescem quase 4% ano. Isso é um absurdo, a diretriz da lei das mudanças climáticas diz que isso tem que ser revertido. É preciso parar de crescer na periferia, nas chamadas áreas frágeis, que abrigam reservas de água, e voltar a crescer na região central. Além de ser uma diretriz para economizar combustível e com isso diminuir a emissão de poluentes e de gases de efeito estufa, é um planejamento mais humanista, no sentido de que o trabalhador vai ficar mais perto do seu trabalho e da família, e as classes sociais vão poder conviver entre si. Isso é cultura de paz, porque possibilita a convivência entre as classes. Essa mudança realmente tem de ser feita.

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