Desafios para a nova juventude: comunicação, consumo e convivência

Ao nos voltarmos cada vez mais à satisfação de necessidades individuais, talvez estejamos relegando ao esquecimento a solução de problemas coletivos

São nítidas as grandes transformações pelas quais os meios de comunicação passaram desde o surgimento da internet como veículo social. Hoje, a tendência entre os jovens é uma demanda cada vez maior pelo conteúdo desejado, no formato desejado, no momento desejado – e totalmente à disposição. Recentemente, isso foi mais uma vez reforçado pelo relatório sobre consumo de mídia dos jovens elaborado por Matthew Robson, estagiário do banco Morgan Stanley de apenas 15 anos de idade.

O consumo de mercadorias também tem passado por transformações semelhantes. Chris Anderson traduziu muito bem esse movimento na teoria apresentada em seu livro A Cauda Longa: as empresas, principalmente aquelas que atuam no meio virtual, terão suas receitas originadas cada vez menos de best sellers e cada vez mais de produtos destinados a nichos de mercado, que, apesar de venderem pouco individualmente, existem em enorme variedade e acabam representando grande parte do faturamento. Grandes sites de comércio eletrônico e de vendas de músicas online, por exemplo, já convivem com essa realidade.

Tudo aponta, assim, para a difusão do consumo de produtos e serviços personalizados e oferecidos sob medida. E isso surge como reflexo de uma macrotendência.

Com o desenvolvimento das novas tecnologias, os indivíduos têm encontrado facilidade em se limitar a seus universos particulares, construídos por si próprios e pela percepção que os outros têm da sua personalidade. Em contato apenas com aquilo que lhes parece relevante, ficam progressivamente mais distantes de experiências e conhecimentos verdadeiramente novos e inesperados – elementos essenciais ao surgimento de reflexões, questionamentos e mudanças. A abundância de recursos para personalização à disposição das pessoas contribui cada vez mais para esse distanciamento, ao mesmo tempo que permite a empresas e organizações determinarem detalhadamente o perfil de seus interlocutores para se comunicar com eles da forma mais individualizada possível.

Em entrevistas recentes, Gay Talese, jornalista norte-americano idealizador do movimento do new journalism, manifestou sua preocupação com o assunto, analisando-o sob o ponto de vista do consumo de notícias. Enquanto jornais trazem conhecimentos acerca não apenas de acontecimentos pontuais, mas de diversos temas a eles relacionados, contribuindo para compreensões de maior complexidade, a internet aponta no sentido oposto. Ao oferecer grande facilidade à pesquisa por informações específicas, muitas vezes isoladas do seu contexto e apresentadas de forma resumida, ela acaba minando a profundidade analítica do jornalismo.

Fenômenos como esse podem ser observados em diversas outras esferas da interação social. O fortalecimento do ensino e do trabalho à distância, a criação de perfis e personagens para convivência em realidades virtuais, como games e comunidades online, e a possibilidade de customização de bens industrializados oferecida por algumas marcas estão entre muitos outros exemplos possíveis dessa tendência à individualização das experiências.

Todo esse cenário está profundamente relacionado a uma problemática já levantada por teóricos como Erich Fromm e Zygmunt Baumann: a progressiva perda de referenciais que o homem enfrenta na contemporaneidade. Com a crescente facilidade para navegar entre diferentes universos e desfrutar de mais e mais ofertas e oportunidades, sempre sob uma inundação de mensagens e estímulos de grande efemeridade, ficou difícil encontrar, no meio social, elementos concretos que possam servir como bases ou guias para a construção de ideais de vida e a tomada de decisões, sejam elas de qualquer dimensão. Simultaneamente, os indivíduos são deixados cada um a própria sorte, devendo responder a uma enorme pressão por supostos sucesso e felicidade, mas dependendo exclusivamente do seu próprio esforço para atingi-los.

Talvez por tudo isso estejamos nos voltando, cada vez mais, a nós mesmos.

São inegáveis os benefícios trazidos por tais tecnologias, e suas potencialidades são inúmeras. Tentar frear ou reverter seu desenvolvimento seria uma atitude que dificilmente obteria sucesso. Contudo, é preciso atentar para os riscos de tamanhas mudanças. Ao nos voltarmos cada vez mais à satisfação de necessidades individuais, não estaríamos relegando ao esquecimento a solução de problemas coletivos? Todo esse processo não estaria fomentando o desenvolvimento de indivíduos cada vez mais egoístas? O contato com a diversidade e sua aceitação, assim como todo o crescimento que essa interação traz, não estariam perdendo importância?

Reflexões acerca desse tema trazem um desafio atual. A educação de crianças e jovens para a convivência e o consumo precisa ser repensada e adaptada desde já aos tempos em que vivemos. E a urgência por mudanças está intimamente atrelada ao desafio da nossa atuação em relação à sustentabilidade ambiental, econômica e social do planeta, que exigirá união e colaboração sem precedentes para permitir a perpetuação da vida.

O cenário é de transformações profundas, que seguem em ritmo acelerado. Poder usufruir de todas as vantagens dos recursos hoje disponíveis é um privilégio ímpar, mas é preciso saber reconhecer e prevenir seus riscos e malefícios. Essa é uma tarefa primordial para as famílias, para as escolas, para as corporações, para o Estado e para toda a sociedade.

*Pedro Telles integra a equipe de comunicação do Projeto Criança e Consumo, do Instituto Alana.

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