Dê preferência a frutas da estação e ajude a economizar água

A produção de frutas, legumes e hortaliças da estação exige menos recursos hídricos e insumos agrícolas

Arte: Ale Kalko

 

Quantos litros de água são consumidos para produzir as frutas que você come? Ao pensar nisso, considere não só a quantidade de água que o fruto carrega no momento em que você o saboreia, mas também em todos os litros que foram necessários durante o cultivo desse alimento.

O resultado desta conta vai depender muito do tipo de fruta e das condições em que ela foi produzida. Se for cultivada em terreno e região propícios para o seu desenvolvimento natural e na sua melhor época, isto é, “durante a sua estação”, vai consumir muito menos água e, possivelmente, apenas água de chuva. Já para produzir fora da estação da fruta, só com irrigação e muita água. Um quilo de manga, por exemplo, pode exigir até 450 litros de água de irrigação para ser cultivada caso seja produzida fora da estação no semiárido do Nordeste, segundo Fábio Miranda, pesquisador da Embrapa, Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). Nesta região, o volume de irrigação é alto também para outras frutas produzidas fora da estação, como a goiaba (400 litros/kg para a irrigação), o mamão (360 litros/kg) e a melancia (140 litros/kg).

Segundo o especialista, quando uma fruta é produzida em sua estação, a irrigação geralmente não é necessária. Isso significa algo importante: que preferir frutas da estação ajuda a economizar água. Por isso, no Dia Mundial da Água (22/03), saiba que tomar a simples atitude de comprar frutas da estação na região onde você vive pode ajudar a diminuir o impacto hídrico de sua produção – o que é muito bom para o meio ambiente e, consequentemente, para todos nós.

Quando cultivados fora da estação, frutas, hortaliças e legumes precisam não só de mais água, mas também de mais recursos para o seu crescimento – a produção geralmente exige maior uso de insumos como pesticidas e fertilizantes. Isso encarece a produção – motivo pelo qual os legumes, as frutas e as hortaliças da estação são mais baratos e abundantes do que os alimentos produzidos fora de época. Aliás, essa é uma maneira simples de identificar que um dado produto está sendo produzido durante a sua estação, pois a disponibilidade será grande e os preços estarão mais baixo do que costumam estar.

A irrigação é responsável pela maior parte do consumo hídrico nacional, já que uma das principais atividades econômicas do Brasil é a agricultura. Segundo a Agência Nacional das Águas (ANA), foram captados 969 mil litros de água por segundo para esse fim em 2016, o que significa 67,2% de todo o consumo no território nacional. O número representa quase o dobro do consumo do segundo colocado da lista, o abastecimento urbano, que exigiu cerca 488,3 mil litros por segundo no mesmo ano.

A manutenção e operação dos sistemas de irrigação exigem uma grande estrutura e tecnologia, além de consumir bastante energia e recursos, afirma Miranda, do Embrapa. Mesmo assim, a irrigação tem uma eficiência baixa no Brasil, de 59% – perdas ocorrem em função da escolha de métodos de irrigação inadequados para determinada cultura, para local ou clima específico, má gestão do tempo e períodos de irrigação, resultando em desperdício.

Olhar para os grandes números do consumo de água do setor agrícola pode ser desmotivador para o consumidor. Frente a um consumo tão gigantesco, será que nós, como indivíduos, somos capazes de fazer alguma diferença? Nesse sentido, é importante perceber que o esforço para produzir produtos fora da estação só existe porque há demanda dos consumidores. Isso significa que os gastos de recursos hídricos para a irrigação podem ser amenizados se o consumidor der preferência a frutas, legumes e hortaliças produzidas “na época da safra natural”, isto é, no período em que a natureza produz a fruta sem necessidade de uma intervenção tecnológica mais intensa.

Além disso, é preciso lembrar que cada um de nós influencia a forma de consumir dos familiares e dos amigos, de modo que, mesmo sem fazer nenhum esforço, já multiplicamos o impacto das ações de consumo que praticamos. Se, ativamente, cada um de nós contar o que leu neste artigo para pessoas conhecidas, buscando mobilizálas para mudar seu comportamento, haverá uma “multiplicação” e o impacto de nossas ações de consumo será maior.

Em um país com território tão vasto como o Brasil, a estação para produção de cada alimento varia de acordo com a região: mangas, por exemplo, costumam crescer naturalmente no Sudeste entre os meses de outubro e dezembro enquanto, no Nordeste, podem ser colhidas durante o ano inteiro em áreas propícias para o cultivo na região; já os cajus são naturalmente abundantes de agosto a dezembro em estados como Ceará, Piauí e Rio Grande do Norte; também no Nordeste, a safra do cajá ocorre de março até junho; e no sul do país, a safra dos figos geralmente acontece entre dezembro e abril.

Claro que é possível consumir alimentos da estação que vêm de outro local, mas, se ao fazer a sua escolha o consumidor der preferência para as frutas da estação da sua região, além de provocar uma muito menor demanda por água na produção, ele está automaticamente garantindo um uso menor de combustíveis fósseis no transporte desses produtos até as prateleiras do supermercado. A menor necessidade de combustível usada nesse transporte reduz o impacto ambiental do produto, uma vez que alguns dos gases emitidos pelo uso de combustíveis fósseis, como o gás carbônico (CO2), são grandes responsáveis pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas que o planeta vive atualmente e que ameaçam o bem-estar dos ecossistemas e das pessoas.

As frutas que são transportadas por longas distâncias também consomem energia elétrica para mantê-las refrigeradas. É mais um fator que aumenta o impacto, visto que é preciso refrigerar a carga, além de encarecer o produto final que chega às mãos do consumidor. Veja o caso das cerejas, por exemplo, que geralmente fazem parte da ceia de Natal. Por serem produzidas em países de clima frio, são importadas e têm preço salgado para os brasileiros. Por isso, se você é fã de cerejas, não precisa deixar de consumi-las, mas pode reduzir o consumo delas e combinar o prato de sobremesas com outras frutas da estação na sua região.

Frutas transportadas por distâncias menores não só ficarão mais baratas na conta final como terão menos chances de sofrer amassamento e deterioração no percurso – o que diminui o seu desperdício e as torna mais atraentes nas prateleiras do supermercado. Ao chegarem mais frescas ao consumidor, essas frutas também estão mais saborosas e nutritivas.
Mas, como saber quais são as frutas da estação? Existem muitas listas divulgadas, com informações que algumas vezes são divergentes, já que a “época da safra natural” pode variar de ano para ano em função do clima e de região para região, o que pode confundir o consumidor. A melhor dica então é ficar de olho nos preços e no aumento da oferta do produto. Ambos são indicativos de que a estação do produto chegou.

Se você está disposto a comprar sempre os produtos da estação, há boa chance de você encontrar, na feira ou no mercado, um alimento da estação, delicioso, a bom preço e com menor impacto ambiental. Tenha essa atitude simples – e deliciosa!

 

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