Consumo é a chave para a sustentabilidade na Amazônia

Estudo de Ignacy Sachs propõe modelo não predatório de exploração da floresta e destaca a importância de conscientizar o consumidor

Hoje, enquanto 75% da população mundial têm apenas o mínimo ou até menos do necessário para sobreviver com alguma dignidade, os restantes 25% consomem muito mais do que realmente precisam. Existem vários outros dados preocupantes, mas apenas este é suficiente para, de maneira definitiva e prioritária, colocar na mesa de discussão a realidade à que a humanidade tem virado as costas: o modelo de vida atual não é sustentável e, se não houver mudança de comportamento, tanto o planeta como a humanidade correm sérios riscos.

Mais preocupante ainda é que predominam práticas e modelos que estimulam o consumismo e a competitividade entre os indivíduos, reforçando essa realidade. A boa notícia é que cada vez mais surgem e são reconhecidas iniciativas inspiradoras e que desenham um cenário de esperança para o futuro. Recentemente, o Brasil conheceu de perto duas iniciativas bem sucedidas.

Uma delas foi a adoção do índice FIB — Felicidade Interna Bruta — pelo Butão, um pequeno reino asiático junto à Cordilheira do Himalaia. O conceito, que substitui o PIB (Produto Interno Bruto) vê a felicidade dos cidadãos como um medidor de progresso nacional e um assunto de política pública. Em São Paulo, a 1ª Conferência Internacional do FIB, organizada pelo Instituto Visão do Futuro, trouxe ao Brasil especialistas para debater o tema. Entre os convidados, Dasho Karma Ura, coordenador do Centro de Estudos do Butão.

A outra vem de Bangladesh e seu promotor é Muhammad Yunus, prêmio Nobel da Paz em 2006 por sua iniciativa de conceder crédito a pessoas pobres demais para terem acesso ao sistema convencional, além de ensiná-las a saírem da pobreza. Durante uma palestra em São Paulo, promovida pelo Banco Real (parceiro apoiador do Akatu) e mediada por Helio Mattar, diretor-presidente do Akatu, Yunus explicou como fez para tirar da pobreza mais de 7 milhões de pessoas dentro e fora de seu país.

A felicidade como objetivo de uma nação
Imagine se entre as obrigações básicas do governo (garantir acesso à saúde, educação, trabalho e segurança) estivesse listada também o acesso à felicidade. Parece algo distante, mas isso é realidade no Butão, um reino que preferiu ir além do PIB — índice que mede a quantidade de riqueza produzida por determinada nação, sem, no entanto, considerar as condições humanas de sua produção — e adotou a FIB (Felicidade Interna Bruta).

“É um índice que combina vários indicadores que embasam as decisões políticas do país”, define Karma Ura. “Essas políticas, por sua vez, estão direcionadas principalmente para a felicidade da população.” São nove os indicadores que compõem a FIB: bom padrão de vida econômica, boa governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção e conservação ambiental, acesso à cultura, gestão equilibrada de tempo e bem-estar psicológico.

Esses indicadores, segundo Karma Ura, permitem que o governo conheça a realidade que está por trás dos números, garantindo o desenvolvimento integral. Ou seja, “a renda não é buscada pelo seu bem em si, mas para aumentar a qualidade de vida, para obter a felicidade baseada na ética, em cultivar relacionamentos entre a diversidade populacional e com a natureza”, completa.

Após a exposição do conceito de FIB, Karma Ura disse achar oportuno questionar: “é pela habilidade de produzir e consumir que devemos medir o sucesso de uma nação, ou pela qualidade de vida e a felicidade de do seu povo?” Para ajudar na reflexão, vale a pena lembrar que hoje a humanidade consome 30% a mais do que a capacidade de renovação da Terra, o que inviabiliza a sustentabilidade do planeta. Entretanto, mesmo com tamanha devastação dos recursos naturais, os conflitos entre as nações se multiplicam e a insatisfação da humanidade é cada vez mais evidente.

Para Susan Andrews, do Instituto Visão do Futuro, a pergunta colocada pelo coordenador parece óbvia, mas não é. “A grande maioria não consegue aliar a insatisfação pessoal com a necessidade de consumo”, explica. Segundo ela, em tempos da crise, os Estados Unidos, o maior centro consumidor do mundo, são um bom exemplo para demonstrar a ineficácia do consumismo. “Lá, o PIB aumentou três vezes nos últimos 50 anos, mas no mesmo período, o número de divórcios duplicou, o de suicídios entre adolescentes triplicou, o de crimes violentos quadruplicou e o da população carcerária quintuplicou. Está claro que precisamos olhar mais para dentro de nós, para o que somos e o que poderemos ser, e não o que poderemos ter”, questionou.

A FIB vem se tornado referência em diversos países do mundo e sua adaptabilidade no ocidente tem demonstrado resultados promissores, ainda que tímidos. É o que pensa o canadense Michael Pennock, consultor das Nações Unidas sobre o índice. “Em algumas regiões de países desenvolvidos, onde os custos ambientais na produção de bens foram levados em conta, a prosperidade individual aumentou e o bem estar e a felicidade estabilizaram, apesar da diminuição do capital social individual e coletivo”, contou.

Ladislau Dowbor, professor da PUC-SP e consultor das Nações Unidas em gestão econômica descentralizada, enfatizou a viabilidade da FIB. “O medo do desemprego não nos permite enxergar a depredação de bens e da dignidade humana causadas, principalmente, pelas negociações desiguais entre as partes. Os indicadores da FIB têm esse alcance”, avalia.

Segundo Dowbor, o PIB mundial é US$ 55 trilhões por ano. Se a distribuição de renda fosse igualitária entre todos os habitantes, cada família de quatro pessoas poderia ter uma remuneração mensal de R$ 5.000. “Estaremos mais perto das soluções dos problemas quando todos nos questionarmos sobre o que produzimos, para quem produzimos e, principalmente, a que custo produzimos”, concluiu.

Um grito de desespero que deu certo
Para Muhammad Yunus, o sucesso de seu empreendimento, concedendo crédito aos mais pobres, não tem mágica: “pode ser feito por qualquer um, em qualquer lugar”. Ele conta que em Bangladesh, por exemplo, a motivação inicial veio do desespero causado por conviver com uma situação de extrema miséria. “Precisávamos fazer alguma coisa que fosse diferente do que já existia e que não reproduzisse a tendência de tornar os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres”, contou.

Em Bangladesh, principalmente devido à cultura machista, o principal grupo atingido pela pobreza absoluta era composto por mulheres. Por isso, o desafio era um pouco mais difícil, admitiu o prêmio Nobel. “Ainda assim, decidimos que elas eram nosso foco se quiséssemos fazer diferença”, afirmou. Contra religiosos muçulmanos que viam seus dogmas ameaçados e banqueiros que o alertavam em tom de deboche para a “imprudência” de investir no público feminino e pobre, Yunus criou o Grameen Bank, hoje considerado o maior banco de microcrédito do mundo. Em seis anos, os “tomadores de empréstimos” são metade mulheres e metade homens, assim como indicam os dados demográficos da população do país.

A metodologia de trabalho do Grameen Bank é baseada em entrevistas presenciais e levantamento das necessidades nas casas de cada uma das famílias, buscando priorizar as situações mais precárias. Ao conceder o empréstimo, o banco não exige nenhuma garantia, dispensando a necessidade de advogados. Para Yunus, a iniciativa tem dado certo, primeiro, porque a negociação é feita humanamente, olho no olho: “O ser humano não é totalmente egoísta ou totalmente altruísta. É uma combinação dos dois”.  Segundo, porque a filosofia do banco que dirige define:“ganhar dinheiro é um meio, usá-lo em investimentos sociais é um fim”.

Para deixar claro que o modelo funciona, Yunus comparou-o ao convencional, evidenciando que, apesar das inúmeras garantias que são necessárias para a obtenção do crédito, a humanidade passa hoje por uma das maiores crises econômicas mundiais. “A crise foi deflagrada essencialmente por falta de confiança, e esse é um valor que está além dos advogados, das garantias”, afirma.

Helio Mattar, moderador do debate, definiu Mohammad Yunus como um “herói moderno, urbano, pois ele luta não só em causa própria, mas pelos destinos dos outros, buscando transformar o mundo em um lugar melhor para todos”. Segundo Mattar, essa postura está alinhada com a causa defendida pelo Akatu: “todas as escolhas que fazemos têm impactos na economia, nas relações sociais, na natureza e em cada indivíduo. A consciência das nossas ações pode levar à maximização dos impactos positivos e a minimização dos negativos”.

Com base nessa lógica, Yunus opinou sobre o Programa Bolsa Família, do Governo Federal, que dá dinheiro às famílias pobres. “Apenas dar dinheiro não serve. Mas, se tiver uma segunda etapa que ensine essas pessoas a mudarem de vida usando esse dinheiro, isso pode dar resultado. Mudando a vida de uma família, daremos chances às crianças e faremos uma corrente do bem que vai se refletir na nossa sociedade”, afirmou Yunus.

Hoje, o Grameen é o maior e mais famoso banco de microcrédito do mundo, tem um superávit anual de 22 milhões de dólares, conta com 22 mil funcionários e já emprestou mais de US$ 7 bilhões a cerca de 7,5 milhões de pessoas. O índice de inadimplência é de dar inveja a qualquer banco convencional: não chega a 2%. Para Mohammad Yunus, “odireito ao crédito deveria ser o primeiro dos direitos humanos, porque ele estabelece os outros direitos”.

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