Consumo de arroz e feijão cai com o aumento da renda

Por outro lado, cresce o consumo de frutas e verduras, mas também o de gorduras

 

A renda mensal da microempresária Fernanda Laís Almeida, 27 anos, aumentou de R$ 600 para quase R$ 4.000 nos últimos dois anos. Ela saiu da casa da mãe e “automaticamente” abriu mão do arroz e feijão que comia todos os dias. Fernanda conta que “compensa” a falta do prato tradicional com pequenas refeições que faz durante o dia, na rua, visitando clientes.

“No meu carro sempre tem frutas e compro salgadinhos, chocolates, para manter o estômago tranquilo, por isso, meu almoço também é rápido”, justifica. E, pelo menos duas ou três vezes por semana, o dia termina no happy hour com os amigos. “Tomo cerveja, como pizza e outros salgados e, quando chego em casa, vou direto pra cama”.

A mãe, a aposentada Maria Lúcia, 56 anos, mantém a alimentação que ambas tinham quando moravam juntas. “Eu continuo comendo o básico, arroz, feijão e uma carne todos os dias”, conta a mãe. “Mas parei de comprar frutas porque só ela gostava”. A renda da aposentada é de aproximadamente R$ 700.

Fernanda e sua mãe confirmam as estatísticas encontradas pela Pesquisa de Orçamento familiar (POF) feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De acordo com o IBGE, o consumo diário de vários itens que constituem uma dieta saudável não acompanha necessariamente o crescimento da renda.

O levantamento revelou queda de 40,5% na ingestão per capita de arroz polido entre 2003 a 2009, e de 26,4% no consumo de feijão. Mas, melhor renda também se reflete no aumento do consumo de várias frutas e verduras, como por exemplo, banana (de 15,4 g diárias para 24,8 g), maçã (de 5,9 g para 18,3 g) e tomate (de 3,7 g para 10 g). O mesmo acontece com o leite desnatado, que aumentou de 1,8 g para 9,4 g.

Paralelamente, alimentos processados, que indicam uma dieta inadequada passaram a responder por 18,4% das fontes de energia consumidas, entre eles doces à base de leite (aumentou de 4,8 g diárias para 7,6 g), refrigerantes (de 54,3 g para 135,1 g), pizzas (de 0,7 g para 11,0 g) e salgados fritos e assados (de 6,3 g para 16,6 g).

Muitos desses alimentos são ingeridos em lanches ou refeições fora de casa, hábito que, segundo a POF, já faz parte do dia-a-dia de 40% dos brasileiros.
Como há ausência de grãos integrais e hortaliças no prato dos que têm menor renda e excesso de doces, pizzas e refrigerantes na dieta de quem tem salário maior, o resultado é que o Brasil foi reprovado na qualidade nutricional como um todo. Em geral, faltam ferro, vitaminas, cálcio e fibra para os brasileiros. Sobram açúcares, gordura e sódio.

Para Fátima Portilho, doutora em ciências sociais, mestre em psicossociologia das comunidades e ecologia social e membro do Conselho Acadêmico do Akatu, em geral, os brasileiros sabem quais são os alimentos mais benéficos e os que causam danos à saúde. “No entanto, por um lado, pela condição financeira, tende a haver uma objetividade maior no consumo dos mais pobres, que buscam alimentos que dão mais sustança às refeições. Isso pode explicar, em parte, o relativo baixo consumo de folhas e grãos integrais nesse segmento da população.”

Já em relação às pessoas com renda mais alta, “elas têm mais possibilidades de diversificar o que comem e podem, eventualmente, dar preferência a outros critérios de escolha como o sabor, ou pratos culturais”, pondera.

Segundo Deborah Malta, coordenadora-geral de Doenças e Agravos não Transmissíveis do Ministério da Saúde, os dados são “bastante preocupantes”. Ela afirma
que a ascensão dos brasileiros mais pobres fez com que a fome deixasse de ser um problema generalizado, o que é bom, mas acentuou o problema da qualidade da alimentação.

A pesquisa registrou um total de 1.121 itens alimentares citados pelos participantes. Para o consumo de cada alimento, os pesquisadores dividiram os resultados por renda mensal e identificaram que mesmo aqueles que ganham salários mais altos não enriqueceram a qualidade nutricional dos seus pratos. Ao que tudo indica, em tempo de maior fartura econômica, está em falta uma dose de consciência que provocasse um maior consumo de alimentos mais saudáveis.

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