Consumo consciente de álcool. Existe isso?

A busca por um estilo de vida mais saudável e sustentável passa pela reflexão de todos os nossos hábitos: das escolhas alimentares à maneira que ingerimos bebidas alcoólicas

Passado algum tempo desde que nossas casas assumiram as funções de escritório e academia e as videoconferências se tornaram também happy hours, parece ser mais fácil enxergar com clareza as mudanças trazidas pela pandemia.

A preocupação com a saúde — mental e física — há tempos não era a primeira prioridade. A atenção para uma alimentação de base natural se reflete nas receitas mais buscadas na internet. E o cuidado com o outro e a valorização dos momentos com amigos e família deixam claro que o humano se afirma (e reafirma) por meio do afeto.

O que vemos acontecer é uma reavaliação de prioridades e um movimento rumo a estilos de vida mais saudáveis e sustentáveis. Assim como crises anteriores, a do coronavírus funciona com um catalisador de mudanças desejadas — de acordo com a nossa pesquisa Vida Saudável e Sustentável, realizada em 2019 em parceria com a GlobeScan, 49% dos brasileiros desejam melhorar sua saúde e bem-estar. 

O “novo normal” leva à sedimentação dessas mudanças. E os hábitos de vida mais saudáveis e sustentáveis que vemos ganhar destaque no modo de ser dos consumidores perpassam todas as esferas da vida. Algumas são facilmente identificadas, como a alimentação e o cuidado com a mente. Mas há outras a serem adicionadas nesta equação, como, por exemplo, a maneira que se consome álcool.

Reavaliar a sua relação com as bebidas alcoólicas é um dos pressupostos para a adoção de estilos de vida mais saudáveis e sustentáveis. O não consumo ou a ingestão moderada de álcool, aquela feita sem exageros, é um hábito de consumo consciente.

—> Ouça as dicas do psiquiatra Jairo Bouer para você ser um consumidor consciente de bebidas alcoólicas!

Um estudo realizado no Reino Unido (2018) revelou que há uma associação entre bem-estar mental e consumo de álcool. Analisando uma amostra representativa de adultos, de 18 a 75 anos, verificou-se que pessoas que consomem álcool com moderação apresentam maior bem-estar mental do que os que consomem de maneira prejudicial, exagerada ou dependente. 

Em tempos de pandemia e de isolamento social, o que mais precisamos é manter corpo e mente sãos. Portanto, a adoção de hábitos mais conscientes de consumo de bebidas alcóolicas merece estar entre as nossas prioridades.

A relação consumo de álcool e isolamento social

A casa virou escritório; uma só roupa serve para tudo; os dias de semana se assemelham aos sábados e domingos; os happy hours, agora virtuais, acontecem em horários variados. Pois é, nossa vida é outra, e o jeito de socializar também.

Como velhos horários e normas não cabem mais neste “novo normal”, beber mais cedo ou todas as noites pode não parecer inapropriado. Mas, não se pode dizer que que seja um consumo consciente. Porque o efeito do álcool no organismo é o mesmo, em qualquer circunstância — com ou sem pandemia, em isolamento social ou não. 

Para lidar melhor com a flexibilidade de horários na quarentena, é importante determinar bem os momentos de sua rotina. Afinal, a regra não muda: continua válida a recomendação de não consumir álcool enquanto se está trabalhando ou exercendo atividades que exijam tomada de decisões e/ou coordenação motora. 

Isso porque dentre os efeitos da ingestão exagerada do álcool estão: diminuição da resposta aos estímulos, da capacidade de discernimento, da paciência, da atenção e da vigilância, além de dificuldade de coordenação e redução da força muscular.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o consumo nocivo de álcool é responsável por 7,1% e 2,2% do total de doenças para homens e mulheres, respectivamente. Também é o principal fator de risco para mortalidade e incapacidade prematuras entre as idades de 15 a 49 anos, representando 10% de todas as mortes nessa faixa etária. Além disso, estudos demonstram que o consumo de álcool aumenta a chance de desenvolver pelo menos nove tipos de câncer.

Na pandemia, quando cuidar de nós mesmos significa também cuidar dos outros, a maneira com que consumimos álcool ganha maior relevância. 

Não por acaso, a OMS publicou recentemente um guia incentivando as pessoas a “minimizar o seu consumo de álcool a qualquer momento, principalmente durante a pandemia da covid-19.” O documento destaca que o álcool prejudica o nosso raciocínio, podendo aumentar a violência entre as pessoas (inclusive entre parceiros). Consumi-lo de forma exagerada durante o isolamento social pode tornar a saúde física e mental vulnerável e exacerbar comportamentos de risco.

A publicação também aborda o que temos escutado com frequência, que “as pessoas bebem para aliviar o estresse da crise”. O álcool realmente tem um efeito de relaxamento, mas se ingerido em exagero trará impactos negativos à saúde e até mesmo sintomas de dependência. Para combater o estresse, há alternativas que devem ser privilegiadas, tais como praticar atividades físicas, comer bem e dormir o suficiente, todas elas maneiras comprovadas que ajudam a aliviá-lo. 

O guia da OMS ainda vai além. Ele também desmistifica uma série de fake news sobre o combate ao coronavírus associadas ao consumo de álcool. Confira:

MITOS VERDADES
O consumo de álcool destrói o coronavírus, o causador da covid-19. A ingestão de álcool não destrói o vírus. O seu consumo, aliás, pode aumentar os riscos à saúde se uma pessoa for diagnosticada com covid-19. O álcool (a uma concentração de pelo menos 60%) funciona como um desinfetante na sua pele, mas não tem em absoluto esse efeito no corpo quando ingerido.
Beber álcool forte mata o coronavírus no ar inalado. O consumo de álcool não mata o coronavírus no ar inalado, assim como não desinfeta a boca e garganta e não oferece nenhum tipo de proteção contra a covid-19.
O álcool (cerveja, vinho, bebidas destiladas ou álcool à base de plantas) estimula a imunidade e a resistência ao coronavírus. Muito pelo contrário, o álcool compromete o sistema imunológico do corpo e não estimula nem a imunidade nem a resistência ao vírus.

 

No próximo happy hour virtual, vá com moderação

Mas, afinal, como avaliar o meu consumo de álcool? Essa pergunta não é nova e é  importante buscar informações de fontes confiáveis para respondê-la. E como as bebidas têm diferentes graduações alcoólicas e são servidas em recipientes diversos (garrafas, latas, copos, etc.) a avaliação exige atenção. 

Vale ressaltar que não existe uma dose que possa ser considerada segura para o consumo de álcool. Além disso, não foi estabelecida no Brasil uma “dose padrão”, que permita uma fácil comparação entre as bebidas como há nos Estados Unidos, por exemplo, que é de 12g de álcool, e no Reino Unidos, de 8g. A “dose padrão” pode ser útil para educar o consumidor, pois indica o volume de cada tipo de bebida em que há a mesma quantidade de álcool. Lembre-se: uma cerveja, um vinho ou um drink possuem o mesmo tipo de álcool, o etanol (também conhecido como álcool etílico). E é a quantidade de álcool consumida — e não a bebida escolhida — que determina o seu efeito no organismo. 

Se considerarmos uma dose de 10g, as seguintes bebidas têm a mesma quantidade de álcool:

Para não ultrapassar o consumo moderado de álcool, a sugestão é que mulheres não ultrapassem duas doses por dia, enquanto os homens devem consumir até três doses por dia.

Essa diferença se explica porque a mulher produz quantidades menores da enzima ADH, que é liberada no fígado para decompor o álcool. Além disso, a mulher possui naturalmente índices mais altos de gordura corporal, que causam a retenção do álcool no corpo.

E se você está planejando beber um drink no encontro (virtual) da família e não quer correr risco de ultrapassar o limite? Consulte uma calculadora de consumo de álcool — acesse aqui (em inglês) e aqui (em português). Ao selecionar a bebida e inserir o número de doses que ingeriu ou pretende ingerir, ela informa o tempo necessário para o seu corpo processar o álcool e a quantidade de calorias que tais doses possuem. Este cálculo incorpora outra questão importante, que é o tempo recomendável entre a ingestão de uma dose e outra.

Vale ressaltar também que o consumo de álcool só deve ser feito por maiores de 18 anos — pesquisas comprovam que a ingestão de álcool pode causar sérios danos ao desenvolvimento cerebral na infância e na adolescência (SBP). Todo e qualquer adulto, independentemente de porte físico, deve fazer um consumo consciente, sem exageros. E caso esteja enfrentando alguma dificuldade relacionada a esse consumo, a melhor opção é buscar a orientação de um profissional.

Por outro lado, não devem ingerir álcool mulheres grávidas, as em período de amamentação, pessoas que estão tomando medicamentos, ex-alcoólatras em recuperação e todos que precisam desempenhar uma tarefa que exige habilidade e coordenação.

Se feito com responsabilidade, o consumo de álcool se encaixa em um estilo de vida mais saudável, aquele em que o seu bem-estar próprio e o dos outros está em primeiro lugar. Aprecie com moderação. Seja um embaixador do consumo consciente de álcool você também!

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