Na moral? Precisamos falar mais de consumismo

Programa da Rede Globo debate sobre a sociedade de consumo.

Crédito: Divulgação/ Rede Globo

 

Quando a produção do “Na Moral” da TV Globo (apresentado por Pedro Bial) me convidou para participar do programa desta semana que debateu a sociedade de consumo, me dei conta – e a sensação foi de perplexidade – do quanto esse é um tema ausente na televisão.

Perguntei por que haviam me convidado. “Vimos uma palestra sua na internet sobre o assunto”, me disse a produtora, ao se referir à palestra no formato TED Talks que já soma mais de 30 mil visualizações no Youtube. Poderia ter sido também em outro raro programa de TV que debateu o tema – no Canal Futura  – em que eu tive o privilégio de participar com o colega Arthur Dapieve. Haveria, ainda, a possibilidade deles terem acessado minhas críticas ao hiperconsumo nos livros que lancei, nos meus comentários na CBN, em algumas edições do Cidades e Soluções (na Globo News), nesta coluna (publicada no portal G1), ou nas aulas que dou há 10 anos na PUC/RJ.

E por que não se debate consumo na TV brasileira? Haverá algum receio em relação aos anunciantes que sustentam as principais mídias (não apenas a televisão) com publicidade? Ou será desconhecimento dos impactos vorazes do consumo exacerbado sobre os recursos naturais não renováveis do planeta? Não tenho resposta para isso. Esse deserto de reflexão nas mídias sobre vários assuntos (não apenas consumismo) torna ainda mais especial o trabalho de Pedro Bial e sua equipe no prestigiado “Na Moral”.

No dia da gravação no Projac constatei que estaria sozinho na defesa dos gravíssimos impactos ambientais do consumismo sobre o planeta. E que até a minha entrada no set eu seria o único convidado a defender uma maior consciência (ambiental e social) no ato de consumir.

Foi pouco tempo para falar, mas jornalista precisa dar o recado no prazo disponível. O programa é gravado com alguma flexibilidade em relação ao relógio, mas depois os editores realizam os cortes para que possa ir ao ar no tempo certo. Quem quiser conferir o resultado final pode ir ao site do programa “Na Moral”.

Aos leitores que preferirem a versão escrita de minha participação (com fragmentos de pensamento que não foram ao ar acrescidos de outros que me ocorrem agora) resumirei em breves linhas meu pensamento.

O consumo favorece a vida, precisamos consumir para viver. O problema portanto não é o consumo, é o consumismo, que alude ao excesso e ao desperdício. O desperdício de qualquer coisa (água, comida, roupa, tempo, energia etc) é imoral. Ostentar a abundância onde ainda haja tanta escassez é efeito colateral de uma sociedade alienada e desconectada da realidade. Em um mundo onde os recursos naturais não renováveis – fundamentais à vida – são limitados e se esgotam rapidamente, é preciso consumir com consciência. Sabendo usar, não vai faltar. Nesse sentido, o consumo pode ser entendido como um ato político.

Os ambientalistas foram historicamente os responsáveis pela introdução de uma nova ética em relação às gerações futuras, ao defender os direitos de quem ainda não está aqui de viver em um planeta saudável e também ter acesso aos recursos naturais que garantam sua sobrevivência. Quem consome de forma irresponsável age de forma individualista, egoísta, hedonista, sem noção do quanto contribui para a destruição dos estoques de natureza que necessitamos para viver. Nós e os outros que ainda virão.

Qual o projeto civilizatório da sociedade de consumo? Se for consumir à exaustão, entender como diversão a acumulação ilimitada de bens e de posses, a ostentação do supérfluo (entendendo-se o supérfluo como aquilo que não merece ser chamado de necessário em uma consulta à própria consciência) não vejo saída possível.
Os que defendem o amplo direito de todos consumirem sem restrições ignoram importantes estudos já produzidos sobre os limites do planeta. O Banco Mundial e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUD) – que não são entidades ambientalistas, é bom frisar – já se manifestaram claramente sobre os riscos do hiperconsumo para a sobrevivência de nossa própria espécie.

A WorldWatch Institute, com sede em Washington, estima que se todos no mundo consumissem como a classe média americana o planeta só suportaria uma população de 1,3 bilhão de pessoas. Com mais do que isso, a conta não fecharia.

A mais importante pesquisa já feita no Brasil para medir a pegada ecológica das classes A e B foi realizada em 2008 pela organização WWF (Fundo Mundial para a Natureza) com o apoio do Ibope. O objetivo foi investigar os impactos ambientais causados pelos hábitos de consumo dos segmentos mais abastados do país. A conclusão foi surpreendente: se todos no mundo consumissem como as classes A e B do Brasil seriam necessários três planetas para suprir as demandas dessa civilização consumista.

Quem se diz consumista ignora a armadilha em que se encontra, pois nunca estará totalmente saciado. Será sempre refém de novas campanhas publicitárias, que despertam novos sonhos de consumo. Quem se justifica dizendo ser movido por “compulsão” ignora a gravidade dessa doença e o quanto ela escraviza a vontade e o livre-arbítrio. Chama-se “oneomania” a compulsão por consumo e quem se reconhece nos sintomas deve procurar tratamento.

Leia o artigo completo publicado no blog Mundo Sustentável, do portal G1.

André Trigueiro, jornalista, é editor-chefe do programa Cidades e Soluções, da Globo News, e comentarista da Rádio CBN. Criador do curso de Jornalismo Ambiental da PUC/RJ, leciona a disciplina Geopolítica Ambiental.

 

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