Consumidor consciente pode incentivar a produção de ovos com bem-estar animal

Em entrevista ao Instituto Akatu, a diretora de sustentabilidade do GPA fala sobre a importância da cobrança da sociedade para uma produção de ovos com mais bem-estar para as galinhas.

Crédito: iStock

 

Em março, o varejista GPA assumiu um compromisso público pelo bem-estar animal na produção dos ovos. A companhia se compromete a oferecer, até 2025, 100% dos ovos de marca próprias produzidos por galinhas livres de gaiolas. Algumas ONGs de proteção animal ainda pressionam o grupo para que o GPA estenda seu compromisso a todos os ovos oferecidos nas lojas, não apenas às marcas próprias. Em entrevista ao Instituto Akatu, a diretora de sustentabilidade do GPA, Laura Marie Louise Pires, afirma que há muitos obstáculos para atingir tal objetivo e, para isso, seria necessário o engajamento de produtores e dos demais grandes varejistas.

Seguindo a mesma tendência, o GPA lançou em julho a linha “Ovos de galinhas livres de gaiolas” para a marca própria Taeq, que cria galinhas em galpões, em um sistema que garante a produtividade e, assim, não eleva tanto os preços do produto. O item está à vendas nas lojas Pão de Açúcar e também em unidades do Extra. Laura explica que se trata de uma nova categoria de produto, intermediária entre os ovos convencionais (produzidos por galinhas criadas em gaiolas) com os ovos caipiras e orgânicos, que seguem alguns requisitos específicos em sua produção.

Na visão de Laura, para viabilizar uma transição para um mercado em que todas as galinhas sejam criadas fora de gaiolas, é essencial que o consumidor esteja informado sobre os diferentes tipos de produção de ovos e passe a valorizar o produto que promova o bem-estar animal. “É importante que o consumidor entenda e perceba essa diferença, para que haja uma demanda que possibilite a transição”.

Também é preciso que todo o setor produtivo de ovos e varejo estejam empenhados na mudança, segundo Laura. Leia a seguir a entrevista da diretora de sustentabilidade do GPA ao Instituto Akatu:

INSTITUTO AKATU: O GPA lançou em julho uma linha de ovos de “galinhas livres de gaiolas”, de uma marca própria. Como vivem essas galinhas?
LAURA PIRES: Elas vivem soltas dentro de galpões. Como as galinhas não vivem em gaiolas, podem manifestar o seu comportamento natural, com liberdade para: ciscar, empoleirar, tomar banho de poeira e bater as asas.

AKATU: Por que o GPA criou essa linha de ovos? Foi reflexo da pressão das ONGs de proteção animal, que pedem pelo fim da venda de ovos de galinhas criadas em gaiolas?
LAURA: O GPA enxerga que qualquer trabalho da sociedade civil sobre conscientização dos consumidores e aprimoramento das práticas da cadeia de alimentos é importante para o varejo evoluir. Trabalhamos com o tema do bem-estar animal não só por causa de uma campanha específica. A agenda de sustentabilidade do GPA está dedicada constantemente à busca por impactos positivos, sociais ou ambientais. Essa nova linha de “ovos de galinhas livres de gaiolas”, da marca Taeq, é uma solução que combina preço acessível e o benefício do bem-estar animal. É um produto com custo 15% a mais que o convencional, o que significa que ele é mais barato que um ovo caipira ou orgânico.

AKATU: Qual é a diferença na produção do “ovo de galinha livres de gaiola” e do ovo caipira?
LAURA: O modelo de produção de ovo caipira tem uma regulamentação no Brasil, que define vários detalhes. Por exemplo, a galinha caipira precisa ter acesso a um pasto e não recebe antibióticos. A produção de “ovos de galinhas livres de gaiola” ainda não está regulamentada no Brasil.

AKATU: Como o GPA faz o controle dos fornecedores dos ovos que são vendidos em suas lojas?
LAURA: Com todos os fornecedores, de qualquer produto, há uma preocupação do GPA de formalizar as regras de qualidade e de sustentabilidade exigidas pelo grupo. Nos contratos, há cláusulas relacionadas aos nossos compromissos e também às normas do país. Está estipulado nos contratos o nosso cuidado com o meio ambiente e o respeito com os animais. Há várias áreas no grupo responsáveis por identificar e avaliar o produtor, e verificar se ele atende aos critérios exigidos para a produção de um produto que será vendido em nossas lojas. No caso dos ovos, todos os fornecedores são auditados, para garantir que os padrões do GPA foram respeitados no processo de produção. No caso das marcas exclusivas, há uma auditoria específica que olha os aspectos de bem-estar animal. Até o produto estar na gôndola, há um trabalho de homologação e desenvolvimento com o fornecedor.

AKATU: Recentemente, o GPA anunciou um compromisso público de viabilizar, até 2025, a comercialização de 100% de ovos de marcas exclusivas provenientes de criação de galinhas sem gaiolas. Algumas ONGs de proteção dos animais estão insatisfeitas com esse compromisso público porque se aplica somente a ovos das marcas próprias. Qual é o obstáculo para um compromisso que abranja todas as marcas?
LAURA: Esse trabalho não é fácil. Estamos falando da transição de uma cadeia, o que exigiria rever a produção. O compromisso que estamos assumindo agora, com prazo de 8 anos, já é ambicioso. Em países europeus, como a França, em que os grandes varejistas são responsáveis por 80% do comércio de ovos e onde já tem uma regulamentação clara, essas migrações aconteceram entre 12 e 15 anos. Aqui temos uma situação diferente: os grandes varejistas vendem menos de 10% dos ovos no Brasil. Por isso o GPA não consegue alavancar sozinho essa mudança de mercado. Sabemos que sem o compromisso dos outros grandes varejistas e sem o setor produtivo efetivamente engajado não conseguiremos fazer uma mudança maior do que a que nos comprometemos atualmente. Assim, preferimos anunciar um compromisso realista e possível de ser atingido.

AKATU: Como o grupo francês Casino, controlador do GPA, lida com seus fornecedores de ovos na Europa?
LAURA: Na França, a bandeira premium do grupo Casino, a Monoprix, anunciou em 2013 que ofereceria apenas ovos de galinhas livres de gaiolas em suas marcas exclusivas. Além disso, o Casino tem um compromisso de que todos os ovos vendidos em suas lojas serão produzidos por galinhas livres de gaiolas até 2020. Atualmente, todos os grandes varejistas na França estão comprometidos a fazer a transição até 2025.

AKATU: Qual é a diferença entre a demanda do consumidor europeu e a do brasileiro?
LAURA: O consumidor europeu é muito informado e exigente, inclusive quando se fala de bem-estar animal. É importante que o consumidor brasileiro também venha com essa demanda, que entenda e perceba a diferença de um produto que valoriza o bem-estar animal, pois isso nos ajuda a promover essa mudança de grande porte no mercado. Por enquanto, o ovo convencional é responsável por 95% das vendas. E estamos falando da proteína mais barata disponível no mercado. A demanda por ovos caipira ou orgânico é pequena, ainda é um produto de nicho. Mas acreditamos, sim, que a questão do bem-estar animal, de forma geral, será um tema crescente, na medida em que o consumidor fica mais consciente.

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