Conscientes desde o berço

Pais e mães adotam o hábito de doar e receber roupinhas e acessórios de crianças

Quando um casal descobre uma gravidez, normalmente é aquela festa. Nos nove meses de gestação, parentes e amigos ajudam a ir formando, pouco a pouco, o enxoval do bebê. Hoje em dia, com a grande variedade de roupas e acessórios, é muito fácil ser seduzido por todas aquelas peças fofas — e caras — que recheiam as vitrines especializadas. Só que, na prática, depois que a criança nasce, muitas vezes nem sequer usa todas as roupas compradas para ela.

É que os bebês crescem muito rapidamente e perdem as peças num piscar de olhos. Quando os pais se dão conta, têm uma pilha de roupinhas intacta, mas que não servem mais. Para evitar essa situação e prolongar a vida útil das roupinhas, muitas pessoas adotaram hábitos que, além de econômicos, demonstram um consumo consciente e responsável.

Herança boa
Márcia Cunha, jornalista de 45 anos, orgulha-se ao dizer que, quando a filha Teresa era bebê, comprou pouquíssimas roupas para ela: “Desde que ela nasceu, ganhava roupinhas dos amigos que tinham filhos mais velhos, e isso se tornou um hábito”, conta. “Dei muita sorte de receber peças de gente que, com certeza, gastava mais do que eu gastaria se fosse comprar. Eram peças superbacanas, que duravam muito. E, quando eu ia trocar a Teresa, sempre explicava que tal roupinha tinha sido de tal criança, deixando tudo muito natural”, lembra. “Agora que ela está com nove anos ganhamos menos peças, pois as crianças dessa idade usam a roupa até gastar, principalmente na escola. Mas, mesmo assim, ainda recebo roupas mais pesadas, como casacos e calças”.

Claro que Márcia manteve a corrente de doações e, quando sua filha deixava de usar algumas peças, estas já eram passadas para outras pessoas. “Doei todas as roupinhas da Teresa, fiquei com uma ou outra peça, só para guardar de lembrança”, conta. Para ela, essa atitude é óbvia e econômica, e ela nem pensava e agir de forma diferente. Criada numa família com quatro irmãos, bem próxima a cinco primas mais velhas, o reaproveitamento de roupas foi uma constante em sua vida. E ela sempre achou isso ótimo. Na sua casa, tenta manter esse espírito de reutilização. O berço usado por Teresa já tinha sido de quatro crianças antes dela. Hoje, o móvel está em outra casa, acompanhando o sono de mais uma criança.

Para quem precisa
A gerente financeira Priscila Gaspar, de 36 anos, morava no México quando descobriu que estava grávida de uma menina. Longe da família, ela e o marido fizeram o enxoval. Aproveitaram que estavam a poucos quilômetros dos Estados Unidos para fazer compras por lá, onde os preços são mais baixos. “Eu sei que comprei bastante coisa antes de a minha filha nascer, mas tenho certeza de que fiz uma grande economia. No Brasil, as roupas e acessórios para crianças são muito caros. E, exatamente por ter muita coisa, a cada três meses faço uma limpeza no armário, tiro o que não serve mais e dôo tudo”, conta.

Filhas de amigos e instituições de caridade já receberam roupinhas que foram da Lara, hoje com um ano. “Dôo para quem precisa. Quando estou com uma sacola pronta, converso com parentes e amigos, e alguém sempre conhece uma pessoa que está precisando. Agora mesmo vou mandar uma sacola para um primo. A filhinha dele nasceu e eu separei as melhores peças. Espero que ele use e, depois, doe mais uma vez, e que isso se repita até que os objetos percam a utilidade”, explica Priscila.

Além de se desfazer de objetos que sua filha não usa mais, Priscila também aproveita as doações. “Uma prima tem um filho mais velho do que a Lara. Quando a roupa é do tipo unissex, ela me manda. Já ganhei tênis, jaquetas, calças, livrinhos e, recentemente, ela me deu uma cadeirinha de brinquedo que toca música e acende luzes. Está praticamente nova! E a Lara adorou. Depois que ela não brincar mais, com certeza a cadeirinha vai para outra criança”.

É dando que se recebe
Quando teve a filha Luiza, hoje com 4 anos, Mariana Tinoco, radialista de 37 anos, recebeu uma oferta de uma amiga: ela tinha uma menina mais velha em casa e muitas roupinhas que deixaram de ser usadas. “Essa amiga me deu a idéia e eu adorei. Nem havia pensando nisso, mas aceitei o empréstimo. Depois que as peças deixavam de servir, eu devolvia, para que outras pessoas pudessem ser beneficiadas”, lembra. Com o tempo, passou a emprestar ou doar também os objetos que comprava — roupinhas para a faxineira, um bebê-conforto para uma funcionária da loja em que o marido trabalhava… “Receber e doar é muito melhor do que gastar dinheiro ou jogar as peças fora. É uma economia importante. Com o dinheiro poupado, é possível, por exemplo, investir na educação da criança”, explica.

Perguntada se ela não vê problema em vestir em sua filha uma roupa que já foi usada por outra pessoa, ela é taxativa: “Problema nenhum, pelo contrário! Acho que a roupa vem com uma energia ótima, pois foi comprada pela mãe com todo o carinho para a filha usar. Quer coisa melhor do que isso?”.

Outro exemplo de reutilização é o berço em que Luiza dormiu por alguns anos. Ele era da prima de Mariana, foi pintado para combinar com a decoração do quarto e ganhou até admiradores. “Um casal de amigos que freqüentava a minha casa adorava o berço. Quando eles ficaram ‘grávidos’, perguntaram sobre o berço, que já tinha sido devolvido. Conversei com a minha prima e o berço estava com ela, inútil. É claro que ela emprestou, e hoje o berço está com os meus amigos. Eles até mantiveram a mesma pintura”, conta Mariana. Para guardar as roupinhas da filha, ela comprou um móvel usado nas Casas André Luiz, entidade em São Paulo que aceita doações e promove bazares.  Foi só reformar e pronto — uma atitude muito mais barata e consciente do que comprar um móvel novo.

Entre amigas
Os filhos de Anna Buchalla, artista gráfica de 42 anos, nem fazem idéia, mas suas roupinhas e brinquedos já fizeram a diferença em muitas casas. Quando as roupas não servem mais em Francisco, de 9 anos, e em Maria Eduarda, de 7 anos, ou quando eles ganham peças que acabam não usando, Anna doa: “Já doei para o segurança da rua, para os porteiros do prédio. Não importa para quem, eu só gosto de variar e não ficar beneficiando sempre as mesmas pessoas. É uma ajuda bem informal, mas que parece funcionar”.
Além disso, há uns quatro anos, ela e uma amiga começaram a trocar as roupas dos filhos, movidas pela busca de um consumo mais consciente, reutilizando o que ainda tem serventia sem gerar mais demanda de novos produtos. Elas também doam e trocam com outras amigas, incentivando o hábito entre o grupo.

Apoio às famílias carentes
O administrador de empresas Carlos Gomes Mendes, de 32 anos, freqüenta a Paróquia Santa Cruz, onde existe um grupo que cuida especialmente de crianças carentes, a Pastoral da Criança. Eles ajudam com a doação de roupas, alimentos, informações sobre nutrição e assistência médica. Carlos não trabalha diretamente com o grupo, mas, sempre que recebe doações ou as organiza em sua própria casa, entrega a um responsável da Pastoral. Ele é pai de um garoto de dois anos e meio. As roupinhas que deixam de ser usadas pelo menino, bem como a de parentes e amigos, têm destino certo.

“Meus amigos e colegas de trabalho sabem que eu freqüento a igreja. É natural que, quando tenham material para doação, me procurem. Mesmo indiretamente, as pessoas sabem que estão ajudando famílias que realmente precisam, e que estão dando utilidade a coisas que não serviam mais a elas”, conta Carlos.
Para Heloisa Torres de Mello, Gerente de Operações do Instituto Akatu, todos esses exemplos, desde a troca de roupinhas entre amigas até a doação a instituições, mostram que há várias alternativas para quem reflete sobre seu consumo e adota novos hábitos. “É uma questão de consciência e de criatividade”, afirma Heloisa. “Sempre é possível estender a vida útil de muitos objetos e roupas que temos em casa. E, no caso das roupinhas e acessórios de crianças, há um componente especial: são trocas e doações feitas com muito carinho.”
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