Cidades brasileiras carecem de planejamento para ampliar e gerenciar a mobilidade

Para especialistas, governos devem investir em sistemas públicos de qualidade para estimular o cidadão a deixar o carro em casa

Uma cena que se torna cada vez mais comum nos grandes centros urbanos do Brasil: filas intermináveis de carros parados no trânsito soltando muita fumaça. Do lado de dentro, motoristas e passageiros (quando há), impacientes. No mesmo cenário, ônibus, metrôs e trens lotados e usuários desesperadas para entrarem nas conduções e, quem sabe, chegarem a tempo aos seus destinos. A impressão que dá é que nada funciona, não é mesmo? “A crise do automóvel chegou ao limite. O uso excessivo do carro está causando um mal tremendo não só aos que usam carros, mas a todos os cidadãos. Precisamos encontrar soluções mais sustentáveis de se locomover na cidade” afirma Eduardo Jorge, secretário do Verde e Meio Ambiente do município de São Paulo.

Atualmente, o Brasil possui uma frota nacional de cerca de 34 milhões de veículos e, juntas, as quatro maiores capitais, aumentam diariamente esse número em mais de 1.600 unidades. O problema, segundo especialistas, é que há um forte crescimento da frota, mas poucas ou nenhuma cidade brasileira têm um plano claro e muito menos contínuo para gerenciamento da mobilidade.

Para piorar a situação, os serviços de transporte público oferecido raramente satisfazem plenamente as necessidades dos usuários. Este cenário – o consumo excessivo do transporte individual, em detrimento do coletivo – já mostra seus impactos ambientais, sociais e financeiros na vida dos brasileiros. Apenas a cidade de São Paulo, a maior e mais rica do país, deixa de ganhar, anualmente, algo em torno de R$ 33 bilhões devido ao trânsito intenso e caótico, segundo um estudo realizado em 2008 pela Fundação Getúlio Vargas FGV. Na cidade, a maioria dos cidadãos (68%) está insatisfeita com a situação porque gastam, em média, quase três horas para realizar todos os deslocamentos diários, ou seja, a cada mês, os paulistanos perdem dois dias e seis horas no carro ou no transporte público para se locomover. “Além disso, cerca de 4.000 pessoas morrem nesse mesmo período devido a problemas de saúde causados pela emissão de poluentes no ar, derivados da queima de combustíveis”, declara Paulo Saldiva, médico do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da Faculdade de Medicina da USP. Segundo Saldiva, automóveis, caminhões e ônibus são responsáveis pela emissão de 90% dos gases poluentes nas cidades. Entretanto, 90% do espaço viário das cidades é usado para transportar apenas 20% das pessoas, segundo dados da Associação Nacional dos Transportes Públicos (ANTP).

“Isso acontece porque as pessoas que se deslocam de carro, ainda são minoria, mas apenas uma delas, se descolando em um carro, ocupa um espaço sete vezes maior do que ocuparia em um ônibus” explica o urbanista Nazareno Stanislau Affonso, coordenador do Movimento Nacional pelo Direito ao Transporte Público de Qualidade (MDT).   Lincoln Paiva, ambientalista e consultor de mobilidade sustentável, destaca que “o carro por si só, não é o problema. Mas é fundamental que, diante de uma frota nacional extensa e que tende a crescer, sejam criados sistemas de gerenciamento de mobilidade para desestimular o uso inadequado do carro”.   Segundo Affonso, apenas em 2009, o governo investiu mais de R$ 14 bilhões em renúncias fiscais para estimular o mercado automobilístico. “Com 30% desse valor, seria possível fazer mudanças significativas no sistema de trânsito das grandes cidades para que as pessoas dependam menos do carro individual”.

Veja algumas das medidas, que na opinião dos especialistas, deveriam constituir políticas públicas para a viabilização de uma mobilidade mais sustentável nas cidades:

Priorizar o transporte coletivo sobre o individual: investir na expansão das linhas de trem, metrô e ônibus, destinando a estes espaço viário que possa atender os usuários com rapidez e conforto, por meio de definição de corredores, faixas exclusivas e áreas destinadas à integração ao metrô e trem;

– Desestimular o consumo do carro: cobrança de pedágio urbano, principalmente para circulação na região central das cidades. Proibir o estacionamento em vias públicas, inclusive no espaço frontal às residências dos proprietários;

Estimular o consumo de meios não motorizados: construir faixas exclusivas para bicicletas e outros meios não motorizados. Viabilizar calçadas em bom estado para evitar que pedestres sofram acidentes causados pela má conservação dessas vias. Só o Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas, em São Paulo, recebe diariamente, em média, 30 pedestres que sofreram acidentes em calçadas. O número é mais que o dobro do de motociclistas acidentados que procuram o instituto.

– Garantir autonomia econômica às diversas regiões da cidade: multiplicar e descentralizar as atividades econômicas e espaços de lazer ao longo do perímetro urbano, reduzindo as necessidades de longos deslocamentos de casa para o trabalho, ou de casa para a escola.

– Destacar transporte e trânsito como elementos da questão ambiental: incorporar novas abordagens para orientar as intervenções no ambiente urbano, considerando os conceitos de ambiência e qualidade do espaço, poluição sonora, qualidade do ar, permeabilidade do solo e densidade da cobertura vegetal.

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Todo processo de consumo tem impacto e gera uma reação em cadeia que acaba afetando a todos. Nesse sentido, também na forma de nos transportarmos, nossas escolhas podem trazer uma grande contribuição positiva, tanto do ponto de vista social como  ambiental, e nosso exemplo pode mobilizar outras pessoas nessa mesma direção. Algumas perguntas antes de tirar o carro da garagem podem ajudar a tornar o consumo do transporte mais consciente. Meu modo habitual de deslocamento gera muita poluição? Há como reverter esse quadro? Uso meu carro somente quando não há outra forma de transporte? Como eu posso mudar os meus deslocamentos e evitar o agravamento do congestionamento? Há formas de eu me deslocar que causem menos impactos a mim e a outras pessoas?

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