Carro: alternativas privadas e opções públicas

Para revertermos o paradoxo da imobilidade diante do maior boom de venda de carros, em que estamos quase imóveis, em ruas com trânsito inviável, e com ar irrespirável

Comemoramos muito recentemente o Dia Mundial sem Carro. No twitter, no facebook, nas redes sociais são inúmeras as manifestações. Muitas delas bem humoradas e irônicas, como a que se refere ao “dia sem carro” com as ruas abarrotadas de veículos e o trânsito caótico como de costume. “Ué, mas não era Dia Mundial sem Carro?”

O objetivo da data é nos alertar para o fato de o carro ser “uma” alternativa para a questão da mobilidade e não “a única” alternativa.  A prioridade dada à mobilidade motorizada individual está nos levando, pouco a pouco, a um colapso urbano de proporções nunca vistas. É preciso que cidadãos, consumidores, poder público e setor produtivo reflitam, planejem e implantem opções coletivas e compartilhadas para o transporte, evitando que nossos já tão mal tratados espaços públicos urbanos se tornem grandes estacionamentos a céu aberto. Sempre que olho a Avenida 23 de Maio, em São Paulo, seja pela manhã ou no final da tarde, é essa a imagem que me vem à cabeça: deve ser o maior estacionamento a céu aberto da América Latina. Se você vive em uma metrópole brasileira, deve ter também o seu “grande estacionamento a céu aberto” em algum lugar em alguns horários do dia.

A disputa pelo uso do espaço resulta em um processo perde-perde. Afinal, perdem os pedestres, os ciclistas, os skatistas, os usuários “enlatados” do transporte público e perdem os motoristas – blindados em suas máquinas travadas em nossas vias público-privatizadas pelos que tem automóvel.

Há também a questão da poluição e do aquecimento global. Segundo a Universidade de São Paulo, cerca de 3.000 pessoas morrem por ano na cidade devido a complicações de saúde decorrentes da poluição. E o escapamento dos carros e dos ônibus é um dos principais fatores de emissão de gases de efeito estufa nas cidades, nossa triste contribuição diária para o aquecimento global.

O uso consciente de transporte não implica em não comprar um carro, implica em usá-lo com consciência de que é um meio de transporte muito poluidor e que causa enormes transtornos em termos da mobilidade coletiva. Implica em usá-lo somente quando absolutamente necessário, procurando opções individuais não motorizadas e pressionando os governantes para que implantem soluções coletivas de qualidade, isto é, ágeis, confortáveis, bem distribuídas e baratas. Implica em exigir mais trens, mais metrôs, mais hidrovias, por exemplo.

Para que se possa ter um transporte público de melhor qualidade, quase que certamente será preciso piorar a mobilidade antes de melhorar. Por exemplo, eu não entendo porque a insistência de expandir ou fazer linhas de metrô subterrâneo quando seria muito mais rápido e muito mais barato fazer um metrô de superfície. Naturalmente, os governantes vão dizer que, para fazer um metrô de superfície, a cidade vai virar um inferno durante o período de tempo da construção do metrô. Será preciso fechar pistas para construir o metrô de superfície e isso tornará o trânsito muito mais lento. Mas, isso ocorrerá durante um espaço curto de tempo, dado que o metrô de superfície tem um tempo de implantação muito curto. Assim, isso ocorrerá por um tempo não muito longo, especialmente se for feito um esforço de construção do metrô de superfície de maneira concentrada.

Estive na China no mês passado. Na cidade de Hangzhou, foi construída a primeira linha de metrô subterrâneo em quatro anos, com uma extensão de 28 quilômetros. Ainda que algumas metrópoles brasileiras ofereçam dificuldades técnicas expressivas devido à geografia, ainda assim não me parece razoável termos que conviver com a enorme lentidão na execução do metrô, mesmo que a opção seja subterrânea. E, em Shangai, planeja-se a construção de 330 quilômetros de metrô subterrâneo nos próximos oito anos, cidade onde se passou de uma linha de metrô para 420 quilômetros de metrô subterrâneo em 15 anos… a maior extensão de linhas do mundo, comparável às de Nova York e Londres. O governo chinês está investindo 150 bilhões de dólares entre 2011 e 2015 para expansão do metrô subterrâneo nas grandes cidades. Em um país como o nosso, com uma arrecadação anual de impostos de cerca de 1 trilhão de dólares, será que não é possível priorizar fortemente o transporte coletivo nas grandes metrópoles, o que beneficiaria grandes parcelas da população brasileira?

Além disso, durante o período de construção do  metrô de superfície, quem sabe seria melhor dificultar ainda mais o transporte individual, reservando faixas para bicicletas movidas pela energia humana ou bicicletas elétricas, tão comuns em várias partes do mundo, de modo a incentivar as pessoas a usá-las? Mais: com as obras dessas novas linhas, as ciclovias já poderiam ficar implantadas de forma permanente, oferecendo assim mais uma alternativa de mobilidade para as distâncias mais curtas.

E que tal pensar em proibir o estacionamento nas ruas em geral, de modo que os carros tenham espaço para fluir melhor e também para que haja mais espaço para metrô de superfície e para faixas exclusivas de ônibus? Sim, eu sei que as pessoas vão reclamar. Mas, será que não é melhor que deixa-las reclamar quando se sabe que a solução proposta trará uma melhoria para o coletivo a curto ou médio prazo?

O Brasil é um país hídrico. Milhares dos nossos municípios são cortados por rios. E qual o uso que fazemos desse importante recurso natural para o transporte? Não digo apenas o transporte intermunicipal, muito comum na Amazônia, que precisaria ser estendido para todo o país, mas o transporte urbano, dentro do município. Gastamos bilhões de reais para fazer corredores de ônibus e linhas de metrô, quando temos corredores naturais em muitas cidades à disposição para um uso muito mais barato que construir centenas de quilômetros de túneis subterrâneos. E isso poderia ainda ser um incentivo para a preservação dos rios que ainda estão limpos e a recuperação dos poluídos. Usando os rios como importante artéria de transporte, podemos despertar a atenção do cidadão, fazendo-o cuidar melhor do seu lixo, que, se descartado de maneira errada, pode parar nas galerias pluviais, que em parte desembocam nos rios; conscientizando-o a não instalar redes clandestinas de esgoto e mobilizando-o para fiscalizar outros cidadãos e o setor produtivo –
a fim de não destruir o rio – e para cobrar o setor público a fazer sua parte na urbanização, no saneamento e na preservação.

Em Helsinque, capital da Finlândia, com o bilhete único, o cidadão usa o metrô, os ônibus, os modernos bondes (que são metrôs de superfície, com composições menores que o metrô tradicional) e os barcos que interligam as ilhas do município. Por que não podemos fazer o mesmo em Porto Alegre, São Paulo, Rio, Recife, Belém, Manaus ou outras cidades brasileiras?

Se você usou o carro no Dia Mundial sem Carro e o faz diariamente, provavelmente, imagina não ter alternativa viável. Que tal amanhã começar a ir à padaria, à academia, à igreja, à escola… a pé ou de bicicleta? E que tal começar a pressionar nossos governantes para acelerar obras e criar inovações no transporte coletivo? Caso contrário, corremos o risco de viver em um paradoxo de imobilidade quando do maior boom de venda de carros, em que estamos quase imóveis, em ruas com trânsito inviável, e com ar irrespirável. Desse jeito, todos os dias serão Dia Mundial sem Carro ainda que estejamos dentro dos nossos carros tentando nos safar dos intermináveis estacionamentos em ruas a céu aberto.

 

*Helio Mattar, Ph.D., é diretor-presidente do Instituto Akatu pelo Consumo Consciente.
Siga no twitter

Curta no facebook

Adicione no orkut

Gostou da notícia? Compartilhe!
Ajude a disseminar o Consumo Consciente entre os seus amigos.
Compartilhe:
Leia mais: