Brasil tem 100 milhões de linhas de celulares

O consumo de celulares nem sempre está ligado à real necessidade do produto

A base de clientes da telefonia celular no Brasil atingiu os 100 milhões de linhas em janeiro deste ano. Por pouco, a marca não foi atingida ainda no ano passado, como era a expectativa da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), mas o mês de dezembro fechou com 99.918.621 linhas ativas. Os números de janeiro indicam o crescimento de 15,1% em relação ao início de 2006, segundo a Anatel.

A grande quantidade de linhas ativas no País certamente representa o acesso de mais pessoas a essa tecnologia. No entanto, como qualquer ato de consumo, essa situação exige também a reflexão sobre até que ponto é realmente necessário ou prioritária a aquisição de um aparelho celular. Isso porque nenhum ato de consumo é isento de causar impactos ao próprio indivíduo, às relações sociais, à economia e à natureza. A reflexão sobre muitos do hábitos de consumo é fundamental para garantir a sustentabilidade da vida humana no planeta. Especialmente no momento atual, em que a humanidade já consome 25% a mais do que a Terra é capaz de renovar. Se o ritmo de consumo se mantiver, serão necessários dois planetas como o nosso, até 2050, para atender à demanda de consumo.

Em todo o mundo a telefonia celular tem crescido num ritmo acelerado. Segundo o relatório Digital Life 2006, da International Telecommunication Union (ITU), agência ligada à ONU, a telefonia fixa demorou 125 anos para atingir um bilhão de usuários no mundo, ao passo que os usuários de celulares chegaram ao mesmo número em apenas 21 anos. Ainda conforme o relatório, o segundo bilhão foi atingido em apenas três anos.

A pesquisa “Perfil do Consumidor Brasileiro de Telefonia Celular” realizado pela operadora Vivo, indica que, no Brasil, o usuário de um celular apresenta renda inferior a R$ 480 e utiliza o sistema pré-pago. Uma carga mínima de créditos para celular varia entre R$ 15 e R$ 20, dependendo da operadora. Considerando que este valor seria gasto no período de um mês, isso representaria, para alguém que ganha um salário mínimo por mês, um comprometimento de cerca de 4% de seus rendimentos, sem contar o custo da aquisição do aparelho.

Ainda de acordo com a pesquisa, em 1998, quase 100% do mercado de telefonia móvel era concentrado nas classes A e B. Em 2006, 60% deste mercado estava nas mãos das classes C, D e E. Um dado interessante é que a faixa etária de sete a 13 anos aparece como a segunda faixa (abaixo das pessoas acima de 51 anos) que mais impulsionou o setor em relação ao ano passado, com crescimento de 33%.

A jornalista Mara Luquet, em artigo publicado no jornal Valor Econômico, recomenda justamente que os pais não dêem um celular para seus filhos, mas façam uma aplicação em poupança com os valores que pagariam pelo celular e sua manutenção (R$ 800 o aparelho e R$ 50 a conta mensal) que, no final de 18 anos, poderia render o suficiente para comprar um apartamento. “Ralos enormes no orçamento doméstico, como contas de telefone e de luz e ainda a pressão por gastos com as últimas novidades tecnológicas são criados pelos próprios pais. Eles vão buscar paliativos que custam caro. Mas, veja que ironia, o melhor investimento para seu filho não exige dinheiro, mas justamente o que lhe é mais caro: seu tempo”, diz a jornalista.

Se um produto ou serviço é excluído do orçamento, pode ser uma boa oportunidade para poupar. É recomendável que se reserve ao menos 5% do salário para a poupança. Esta ação não só é boa para o poupador, mas também para a economia em geral. Quando bem aplicado, o dinheiro retro-alimenta círculos virtuosos da economia: além de render benefícios e oportunidades ao seu dono, volta para circular no sistema produtivo.

Forte expansão
Alguns fatores podem justificar o crescimento dos aparelhos celulares, como o barateamento das novas tecnologias, ou a própria necessidade do mundo moderno de permitir uma maior mobilidade ou portabilidade da tecnologia e da comunicação.

Outro fator, apontado pela psicanalista Fátima Milnitzky, é a questão da percepção da inclusão social do usuário. “Existe o aspecto da novidade que cada aparelho traz e o consumidor sente que precisa estar incluído, em dia com as novidades” diz ela. “Mas é a idéia de ter ‘acesso’ a uma outra posição social que move o consumidor”.

Em outras palavras, a busca por um aparelho celular mais moderno, mesmo quando não é necessário, tem o mesmo princípio de consumo dos produtos que supostamente geram algum indicativo social relacionado ao perfil de seu portador, como automóveis ou objetos de luxo. “As campanhas de celulares trabalham com slogans que transmitem uma idéia de sonho, conto de fadas. E também buscam identificar o consumidor à idéia da aceleração, velocidade, o ‘tempo em movimento’, idéias que estão em vigência atualmente”. Segundo a psicanalista, esse seria um dos principais motivos para que algumas pessoas comprometam seu orçamento com a manutenção de um aparelho celular.

Fátima Milnitzky diz que esse fenômeno é bem recente. “Surgiu com o advento do crédito individual ao consumidor, no início do século XX”. Isso trouxe uma mudança na mentalidade das pessoas e estimulou o consumo. “Antigamente, a pessoa que devia não era de confiança. Mas hoje você pode comprar a prazo e isto significa que você merece confiança, você merece crédito. E o raciocínio também se aplica aos produtos: se você tem um celular, você é de confiança”.

Como qualquer outro produto de consumo, o celular deveria representar para seu usuário um adicional efetivo de bem estar. Só assim se justifica o consumo dos recursos do próprio consumidor, da sociedade e do meio ambiente. O consumidor consciente procura analisar suas reais necessidades antes de comprar, somente sacrificando recursos para a compra de produtos que de fato contribuem para atender suas reais necessidades dentro de suas possibilidade e das do planeta. Pense nisso antes de comprar o seu primeiro celular ou trocar o seu celular por um novo!

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