Aumenta a participação dos jovens entre os brasileiros inadimplentes

Entre os consumidores que estão com pagamentos de dívidas atrasados, 8% têm menos de 20 anos; no ano passado eles respondiam por 4% da população inadimplente

O estudante de educação física e atendente de telemarketing Ney Oliveira Dias, 19 anos, pagou apenas a primeira das seis parcelas do material escolar que comprou no início do ano. “Comecei a trabalhar em dezembro de 2009, logo depois passei no vestibular e me empolguei. Comprei até material que não precisava para o primeiro semestre. Na hora de pagar, percebi que tinha feito besteira porque tinha outras despesas mais urgentes”, conta o estudante. “Na hora que o salário cai na conta é que você vê que não é suficiente”, completa.

Ney faz parte de uma população com uma representatividade cada vez maior entre os inadimplentes brasileiros: jovens com menos de 20 anos de idade. Segundo uma pesquisa semestral realizada pelo Instituto de Economia e Gastão Vidigal, da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) publicada em abril deste ano, entre os inadimplentes brasileiros, 8% têm menos de 20 anos. No ano passado, a participação deles entre a população com as dívidas em atraso era de 4%, o que mostra um crescimento.

O levantamento – que ouviu 830 consumidores que procuram informações no Balcão de Atendimento do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SPC-Serasa) – mostrou também que a maior incidência de inadimplência está na faixa dos que ganham de dois a três salários mínimos e na faixa de 30 a 40 anos de idade, ambos com 37% e 38%, respectivamente.

Para Marcel Solimeu, economista da ACSP, esse crescimento é resultado da entrada de novos consumidores brasileiros no mercado de crédito. “Com o aumento do emprego, aumentou também o número de pessoas com acesso ao crédito e isso é bastante positivo”, pondera. “Mas por outro lado, elas não têm experiência de tomar crédito e, em geral têm necessidades acumuladas a serem satisfeitas, o que leva a um descontrole na hora de consumir”, explica.

Com objetivo de orientar os jovens para a prática das relações do consumo, a Fundação Procon-SP lançou neste ano o Manual do Jovem Consumidor O Instituto Akatu também orienta os consumidores para o consumo consciente do dinheiro e do crédito. Para ler as dicas, clique aqui.

Problema cultural
Na opinião do diretor-presidente da Associação Brasileira do Consumidor (ABC), Marcelo Segredo, o problema da inadimplência no Brasil é cultural, já que se repete ao longo de gerações. “Esses jovens que hoje estão endividados cresceram vendo seus pais viverem o dia-a-dia utilizando o limite de cheque especial e cartão de crédito para sobreviver. Muitos deles incorporam esses limites como se fizessem parte do salário. Ou seja; não tiveram base alguma sobre a valorização do dinheiro e sobre o consumo consciente”.

Segredo vê tanto na falta de educação financeira (nas escolas e dentro de casa), quanto na atual sociedade consumista, as principais causas da inadimplência dos mais jovens: “É comum vermos jovens nessa faixa etária que recebem salário mínimo, mas calçam tênis que custam acima de R$ 500 bem como celulares de ultima geração que descartam rapidamente”.

Heloisa Mello, gerente de operações do Instituto Akatu, afirma que esse problema pode ter consequências e atingir toda a sociedade. “Se esses níveis de inadimplência aumentarem significativamente, isso pode levar à restrição ao crédito e ao aumento das taxas dos juros. Além disso, o consumo excessivo e sem planejamento demanda uma maior extração dos recursos naturais e em uma velocidade que supera a capacidade da terra de renovar seus recursos, causando problemas ambientais sérios”.

Para sair dessa situação, Segredo recomenda “atacar o problema em sua essência”, descobrindo onde são feitos os principais gastos e a partir daí tentar tapar os buracos, fazendo com que o dinheiro sobre ao final do mês. Assim, será possível renegociar a dívida, pagando parcelas que não devem ultrapassar 20% da renda mensal.

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