Aspartame: longe de um consenso

Estudos feitos em diversas partes do mundo divergem sobre as consequências do consumo do produto para a saúde humana

Quem utiliza adoçante ou consome bebidas dietéticas já deve ter ouvido falar das polêmicas envolvendo o aspartame. O produto já esteve relacionado a doenças ou distúrbios como enxaquecas, esclerose múltipla, alzheimer, câncer, linfomas e tumores cerebrais, entre outras.

Essa associação é provocada, principalmente, pelo fato de sua metabolização no corpo humano liberar metanol, um composto químico que possui efeito tóxico e acumulativo no sistema nervoso. Apesar de estar presente naturalmente em pequenas quantidades no frango, em carnes, no feijão e no leite desnatado, quando ingerido em grandes quantidades o metanol pode causar cegueira, entre outros problemas. Este fato é conhecido desde a aprovação do aspartame nos EUA, pelo Food and Drug Administration (FDA). No entanto, a quantidade de metanol presente no aspartame é ínfima para causar algum dano ao organismo.

Por essa razão, o consumo de aspartame é considerado seguro dentro dos limites estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), que é de 40 mg/kg de peso corpóreo/dia. Isso significa o equivalente a 30 latas de refrigerantes com esse adoçante por dia. A entidade até disponibilizou em seu site, uma seção de “Perguntas Freqüentes” (http://www.anvisa.gov.br/faqdinamica/asp/usuario.asp?usersecoes=28&userassunto=42) e um informe técnico (http://www.anvisa.gov.br/ALIMENTOS/informes/17_190106.htm) sobre o produto.

Para Carlos Alberto Werotsky, médico nutrólogo e diretor da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran), a relação direta entre a substância e dores de cabeça é improvável. Mas ele alerta, em conjunto com outras entidades internacionais que estudam doenças encefálicas, que, caso o indivíduo desconfie que o consumo de refrigerantes esteja provocando dores de cabeça, deve procurar um neurologista.

O Aspartame é composto de ácido aspártico (40%), fenilalanina (50%) e metanol (10%), A substância está presente em adoçantes, mas também é utilizada pela indústria alimentícia por conta da ausência de calorias (recomendável a pessoas que fazem dieta) e pelo fato de não ser açúcar, mas adoçar 200 vezes mais (recomendável a diabéticos). Na opinião do diretor da Abran, “se considerarmos que o açúcar de mesa é cariogênico (causa cáries), ao contrário do Aspartame, e que a obesidade é uma epidemia mundial, os adoçantes podem ajudar a combater o excesso de calorias na dieta.”

Segundo a Anvisa, somente as pessoas que nascem com o problema de dificuldade de metabolizar a fenilalanina (uma doença chamada fenilcetonúria) devem evitar o aspartame, bem como alimentos que contenham fenilalanina (peixes, frango, feijão, leite, etc). No caso de produtos industrializados, como os refrigerantes, geralmente há um aviso no rótulo ou na embalagem sobre a presença da fenilalanina.

No entanto, as preocupações com o produto persistem. E se intensificaram especialmente após a publicação, em 2005, de um estudo italiano realizado com 1.800 ratos, que não estabeleceu uma relação entre o consumo de aspartame e o desenvolvimento de tumores cerebrais, mas mostrou uma incidência estatisticamente mais significativa de linfomas, leucemias e tumores malignos nos rins das fêmeas e de tumores no sistema nervoso periférico dos machos.  (http://www.ramazzini.it/fondazione/pdfUpload/Eur%20J%20Oncol%20Vol%2010%20107-116_2005.pdf)

Um ano depois, o National Cancer Institute (NCI), entidade de pesquisa norte-americana sobre essa doença, realizou um estudo envolvendo 340.045 homens e 226.945 mulheres, com idades entre 50 e 69 anos e concluiu que não há relação entre o consumo do produto, por meio de refrigerantes ou como adoçante do cafezinho, e a incidência de câncer (http://seattlepi.nwsource.com/national/265559_soda05.html).

A diferença entre os estudos, além do fato de um ter sido realizado com seres humanos e outro em ratos, é que o primeiro leva em consideração o consumo do produto pelo período de um ano e não o consumo ao longo da vida, como foi o teste feito pelos pesquisadores italianos. Esse é o principal argumento dos críticos ao estudo do NCI.

Para o Dr. Kazusei Akiyama, clínico geral e doutor em Medicina Preventiva, o consumo, mesmo que pequeno, mas ao longo de um grande período, deve ser considerado com cuidado. “O problema nem é tanto a substância em si, e sim como ela chega ao organismo”.

Segundo Akiyama, dois dos componentes do aspartame, a fenilalanina e o ácido aspártico, são aminoácidos que podem ser encontrados na natureza – porém, não em sua forma “pura”, mas apenas como partes integrantes de outra proteína. Como conseqüência, quando ingeridos em sua forma natural, o sistema digestivo faz a “quebra” das proteínas para obter seus subprodutos, os aminoácidos, mas o faz no ritmo adequado ao organismo.

No caso do aspartame, o corpo recebe uma alta dose dessas substâncias já “quebradas”, forçando a velocidade do processo de metabolização – o que pode ser prejudicial ao organismo, da mesma forma como é prejudicial forçar o motor de um carro, pois provoca picos de concentração dessas substâncias no sangue. Para Akiyama, os problemas vêm a longo prazo, a exemplo dos ratos. “Nossa alimentação atualmente vai contra os princípios da boa alimentação. Nunca houve na história tanto consumo de alimentos manipulados quimicamente. Será que é seguro?”, pergunta.

Enquanto a ciência não chega a um consenso sobre a resposta a essa questão, o ideal é aplicar o conceito do consumo consciente à alimentação. Dar preferência a alimentos in natura na hora de elaborar o cardápio é uma opção saudável para o indivíduo e para o planeta.

E se alguém quiser adoçar sua bebida, evitando o açúcar refinado e também o aspartame, Carlos Alberto Werotsky lembra que existem outras substâncias e alimentos adoçantes, mas que, também, possuem suas desvantagens. “Se as pessoas quiserem optar, podem usar a frutose, que é 1,5 vez mais doce que o açúcar, mas é tão calórica quanto ele”, diz o médico. Também como alternativa ao aspartame, tem sido apontada com cada vez mais freqüência a stevia, um adoçante natural produzido a partir de uma planta da família do crisântemo. Estudos têm sido realizados sobre esse adoçante e, até o momento, não foi constatada nenhuma toxicidade.

O mercado também dispõe de substitutos como mel, açúcar mascavo e açúcar orgânico. No caso dos dois últimos, apesar de possuírem valor calórico similar ao do refinado, são mais saudáveis e sustentáveis porque são menos processados industrialmente do que o açúcar comum e, com isso, chegam ao organismo menos “quebrados” na linguagem usada pelo Dr. Akiyama. Forçam menos o organismo, não causando grandes concentrações de fenilalanina e de ácido aspártico no sangue, sendo, possivelmente, mais saudáveis no longo prazo.

Mas, infelizmente, não há ainda uma posição consensual entre os estudiosos sobre este assunto. Corre-se o risco ou não? Escolha de cada um.

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