Ar poluído prejudica o coração

Estudos realizados na Universidade de São Paulo mostram como partículas liberadas na atmosfera afetam ritmo cardíaco

Comentário AkatuA poluição do ar provoca a morte de 3 milhões de pessoas por ano em todo o mundo, e os principais responsáveis são os automóveis. Entre os gases liberados pelos carros estão o dióxido de carbono, que provoca o aquecimento global, o monóxido de carbono, que reduz a capacidade do sangue de transportar oxigênio, e óxidos de nitrogênio, que irritam olhos e nariz e podem provocar enfisema pulmonar. Se você deixar de usar seu carro um dia por semana (considerando que seu percurso diário seja de 20 km), também deixará de emitir por ano cerca de 440 kg de dióxido de carbono na atmosfera.

Um estudo feito na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) mostra que a poluição atmosférica altera o ritmo do coração, mesmo em seres saudáveis, o que ajuda a explicar por que o número de internações por problemas cardíacos aumenta logo depois de picos de poluição.

O coração não bate em um ritmo contínuo, mas sim numa freqüência que varia dentro de um limite: se a pessoa leva um susto, por exemplo, o coração dispara e acalma logo em seguida, sem conseqüências negativas para o organismo. Acontece que, quando a poluição é inalada e chega ao coração, esse ajuste natural é comprometido. “Há uma variabilidade da freqüência de até 50%”, explica a cientista Dolores Helena Rivero. O trabalho integra sua tese de doutorado e foi publicado no periódico científico Environmental Research (www.elsevier.com/locate/envres).

Ela e seus colegas pesquisadores trabalharam apenas com camundongos saudáveis, que receberam 50 e 100 microgramas de metro cúbico de material particulado fino (PM2,5) retirados da atmosfera. Eles não trabalharam com os outros gases que circulam no ar, como o monóxido de carbono e os hidrocarbonetos.

Mesmo assim, Rivero acredita que o resultado pode ser transportado para a realidade humana. “Isso explicaria por que, nas primeiras 24 horas após o índice de poluição atingir um pico, há um aumento da incidência de internação hospitalar por acidentes cardiovasculares. Só depois aparecem os casos de insuficiência respiratória”, diz. De acordo com um estudo anterior realizado no mesmo laboratório, o número de internações no Hospital das Clínicas, em São Paulo, cresce 6,4% em tais dias. “Pessoas com arritmias, por exemplo, ou qualquer outro caso em que já exista um comprometimento cardíaco apresentam mais risco de serem afetadas pela poluição.”

O material particulado é formado pela combustão incompleta do combustível fóssil, como a gasolina e o diesel. A Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) informa que 40% do material é emitido por automóveis. O sistema municipal de transporte na capital paulista possui 14.523 veículos movidos a diesel, 52 a gás natural e 19 híbridos, que, somados aos cerca de 5,5 milhões de veículos que circulam na cidade, lançaram uma média de 26 microgramas por metro cúbico diários no ar de São Paulo durante as estações frias em 2004.

Dolores possui outro estudo sobre o tema no forno, que já foi aceito pela revista especializada Toxicological Sciences e deve ser publicado nos próximos dois meses. Nele, ela descreve como o material particulado provoca uma inflamação pulmonar intensa em camundongos, além de constrição de 30% dos vasos nos pulmões. A conseqüência para o corpo segue um efeito cascata: vasos mais estreitos reduzem a entrada do oxigênio no sangue.
O coração, por sua vez, recebe menos oxigênio e trabalha mais para compensar, o que pode levar ao enfarte do miocárdio pela necrose do músculo.

Os especialistas já imaginavam quais eram as conseqüências da poluição para o coração graças a análises epidemiológicas realizadas na década passada, mas ultimamente laboratórios do mundo têm se dedicado a desvendar os motivos por trás do problema. Um deles é o da USP.

Outro grupo mora na Universidade de Edimburgo, na Escócia, e publicou em fevereiro um estudo sobre o potencial coagulante do material particulado (PM10) no periódico Occupacional and Environmental Medicine.

Para o chefe do laboratório da USP, Paulo Hilário Nascimento Saldiva, o tema é “importante e razoavelmente novo”, pois contribui para a compreensão dos mecanismos envolvidos no perigo que as pessoas com doenças cardiovasculares correm expostas à poluição. “A ativação dos mecanismos de coagulação promovidos pela inalação de poluentes podem favorecer a formação de trombose e, conseqüentemente, levar a enfartes”, explica Saldiva.

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