Água invisível: tudo o que é produzido gasta recursos naturais que você não vê

No Dia Mundial da Água (22/3), o Instituto Akatu convida a população a refletir sobre os gastos de água na produção do que ela consome

Arte: Helena Salgado

 

Quanto você gasta de água por dia? Para fazer esse cálculo, você irá pensar na água usada para ações do cotidiano, como tomar banho, preparar a comida ou lavar roupas, cujo gasto total aparece na conta do final do mês. Mas saiba que há um gasto invisível de água na sua vida, que é usada durante a produção daquilo que você consome.

Pense no smartphone, por exemplo. Um dos principais objetos de desejo da atualidade, o smartphone costuma ser trocado rapidamente por modelos mais atuais com novas funções. Um único smartphone consome em sua produção 12.760 litros de água, segundo o relatório Mind your Step, produzido pela Trucost a pedido da Friends of the Earth, entidade de proteção ao meio ambiente – essa quantidade de água é a equivalente à transportada por um caminhão-pipa médio.

Para chegar a esses números da “água invisível”, os pesquisadores analisam toda a cadeia de produção de um bem de consumo – é importante saber que os cálculos são baseados em padrões, que variam conforme os processos e região de cada produtor.

No caso de uma fruta, por exemplo, a água da irrigação da planta durante todo o seu cultivo é levada em conta. A agricultura é responsável pelo maior consumo de água no mundo, segundo a ONU. A irrigação consome 70% da água doce disponível no planeta – no Brasil, o percentual é 60%, segundo a Agência Nacional das Águas. Por dia, cada pessoa consome de 2 mil a 5 mil litros de “água invisível” contida nos alimentos que come, de acordo com a ONU. Uma única maçã, por exemplo, consome 125 litros de água para ser produzida, segundo a Waterfootprint, rede multidisciplinar de pesquisadores e empresas que estudam o consumo de água nos processos produtivos. Isso é mais água do que o recomendado pela ONU para o consumo direto residencial – tomar banho, cozinhar, lavar louça, escovar os dentes etc. – de uma pessoa por dia, que são 110 litros.

A pecuária também é responsável por um consumo alto de água. Para cada quilo de carne bovina, são gastos mais de 15 mil litros de água**. Essa quantidade se refere não só à água utilizada para alimentar o gado até que ele atinja a maturidade – pense no tanto de alimento e água para beber que um boi precisa -, mas também a toda água gasta no processo do frigorífico, como na limpeza e no resfriamento do ambiente.

Já parou para pensar na água gasta para produzir todas as suas peças de roupas e acessórios? Uma simples calça jeans, por exemplo, consome em média 10.850 litros de água para ser produzida*. É uma quantidade suficiente para suprir o consumo residencial de uma pessoa por mais de três meses! Essa quantidade contabiliza desde água gasta na irrigação do algodoeiro, material usado para fabricar o tecido, até a água da confecção da peça.

Melhorar os processos de produção, para conseguir usar a água de forma mais eficiente, é um dever (e interesse) das empresas. “Do ponto de vista empresarial, é certamente preocupante ser dependente desse recurso que é cada dia mais escasso. E essa preocupação não deve ser só das empresas. As políticas públicas devem contribuir para evitar desperdícios hídricos e garantir a preservação dos mananciais. E, além disso, cada pessoa e cada família podem fazer a sua parte buscando consumir apenas o necessário, evitando o desperdício desse recurso tão essencial”, afirma Helio Mattar, diretor-presidente do Instituto Akatu.

Veja algumas dicas que podem ajudar a evitar o gasto desta “água invisível”:

– Antes de fazer qualquer compra, reflita sobre a necessidade de adquirir um novo item. Pense se você não pode pegar o item emprestado, comprar o produto usado (e mais barato!) ou fazer uma troca com outra pessoa. Com isso, você evita o impacto negativo da produção de novos itens (e economiza dinheiro!)

– Promova uma feira de trocas com os amigos e familiares; inúmeros artigos como roupas, acessórios, bijuterias, livros, entre outros, podem ser reaproveitados e ganhar uma nova vida nas mãos de outra pessoa.

– Dê preferência aos itens duráveis do que os descartáveis.

– Faça o uso compartilhado de bens e serviços. Se possível, alugue-os temporariamente ou combine o uso comunitário, entre várias pessoas.

– Produtos concentrados, como de higiene ou limpeza, utilizam menos água em sua produção e transporte; por isso, devem ser preferidos em relação aos produtos diluídos.

– Dê preferência aos alimentos produzidos próximos ao local onde você mora e compre aqueles que são da estação, pois isso fará com que durem mais e não haja desperdício.

– Planeje o cardápio da semana antes de ir ao mercado ou à feira, isso evitará compras desnecessárias. A produção de alimentos consome muita água.

– Na hora da refeição, sirva-se com consciência. Não encha demais o prato para não desperdiçar.

– Sobrou comida? Resfrie ou congele a tempo e consuma depois.

– Aproveite também aqueles legumes, vegetais e frutas “feios”. Apesar da aparência, você pode aproveitar as partes que ainda estão boas.

– Organize bem a geladeira e a dispensa, para que você não “esqueça” alimentos que não estão à vista.

– Aproveite cascas, sementes, talos e folhas de legumes, verduras e frutas. Essas partes que muitas vezes são jogadas fora também têm nutrientes e podem ser aproveitadas em inúmeras receitas.

– Diminua o consumo de carne bovina, que exige muita água em sua produção. Você não precisa eliminá-la de sua dieta, mas pode consumi-la com menos frequência, substituindo-a por outras fontes de proteína – e assim diminuir o impacto negativo de sua produção no meio ambiente e, consequentemente, na vida das pessoas.

*The Lifecycle  of a Jean, Levi’s Strauss & Co. 2015

– Onde entregar o óleo usado

 

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