A marcha para a economia limpa já começou

O fato é que o mercado começa a demandar alternativas, e elas começam a aparecer, por Sérgio Abranches

Duas objeções são muito comuns entre aqueles que defendem a ideia de que não há ainda soluções adequadas: preço e durabilidade das soluções.

Com relação ao preço, a resposta está na constatação no EUA, no Reino Unido e no Brasil, de que a economia de alto carbono continua subsidiada. Subsidiamos óleo diesel, térmicas a carvão, soluções hidrelétricas de alto impacto ambiental e elevado custo e baixo retorno econômico e energético. É óbvio e desejável que os subsídios sejam transferidos das soluções de alta emissão e alto impacto para as soluções de baixa emissão e baixo impacto. Como disse o presidente Obama em seu discurso sobre o “Estado da União”, vamos parar de subsidiar a energia do passado e passar a subsidiar a energia do futuro. Com o aumento na escala de uso das alternativas, os custos baixarão, permitindo a redução dos subsídios.

Com relação à durabilidade das soluções propostas, a primeira resposta é que este é um falso argumento. Nenhuma tecnologia do passado foi adotada somente quando estava totalmente testada e nenhuma existe hoje do mesmo modo que foi lançada. É claro que toda solução evolui. Algumas formas de energia ou combustível hoje apresentadas como alternativas podem inclusive ser substituídas no futuro por outras mais eficientes e eficazes. Isto certamente acontecerá, por exemplo, com o etanol de primeira geração.

O fato é que o mercado começa a demandar alternativas, e elas começam a aparecer. No ano passado, houve numerosos lançamentos de carros elétricos, por exemplo, com razoável variação nas especificações técnicas. Os especialistas neste mercado dizem que 2011 vai ser o ano do carro elétrico no EUA, na Europa e, provavelmente, na China. Nenhuma marca importante deixará de ter pelos menos um modelo rodando. Marcas novas estão entrando no mercado competitivamente em todos os segmentos, do popular ao esportivo de luxo. Tecnologia nova abre as barreiras à entrada que na velha indústria automobilística eram praticamente inquebráveis. Só com muito investimento em tecnologia e preços muito competitivos. Foi desta forma que as marcas japonesas e, posteriormente, coreanas, ganharam market-share nesse mercado fechadíssimo. As novas entradas derrubaram várias grandes marcas e o mercado mudou muito no final do século passado. Agora começa uma nova fase, e mais competitiva, com os carros elétricos.

Já começam a aparecer, também, veículos elétricos para fins comerciais, como caminhões leves. Os ônibus e bondes elétricos retornam modernizados. A China já está testando um caminhão elétrico para cargas mais pesadas. Os carros elétricos provavelmente deslocarão os híbridos ao longo desta década. O que dizer dos fósseis? Vão ser sucateados.
Essa marcha é inexorável. Não cabe perguntar se os carros elétricos que estão surgindo hoje são a solução definitiva para a mobilidade das pessoas. Podem não ser. Mas enquanto não aparecerem alternativas melhores – dizem que o hidrogênio pode ser uma delas –, eles ocuparão fatias crescentes do mercado. Quem ficar para trás pagará o preço do atraso, pura e simplesmente. O Brasil, no momento, está fazendo de tudo para ficar para trás.

Tempos atrás ouvi um diretor da área ambiental de uma associação empresarial dizer em São Paulo que os carros elétricos emitem mais ou o mesmo que um carro movido a gasolina, principalmente nos EUA e na UE, porque usam eletricidade suja. Não é fato. Eles emitem menos unidades de gases estufa por quilômetro rodado que os convencionais. O ideal é que sejam abastecidos por eletricidade limpa e será assim no futuro. Em vários países a infra-estrutura para carros elétricos será montada com base em uma cesta de fontes de “eletricidade verde”. Além disso, o carro elétrico não reduz apenas a emissão de gases estufa, mas toda a poluição automotiva. Despoluem as cidades, permitem a melhoria da qualidade do ar, gerando economias significativas em assistência médica, especialmente em países emergentes como China, Índia, Brasil e México, por exemplo.

Com políticas públicas, a frota pode ser renovada mais rapidamente, a começar pelo setor de transportes públicos. Como fez a prefeitura de Nova York, que determinou a substituição integral da frota de táxis por veículos híbridos ou elétricos. Já tem o metrô e no futuro os ônibus serão todos elétricos, também. Com os incentivos adequados, a troca do veículo privado também pode ser acelerada. Mas, no caso dos consumidores privados, a equação é um pouco mais complexa: considera preço, confiança no produto e na marca e preferência. O incentivo no preço acelera a propensão a testar os novos veículos, criando a oportunidade para criação de confiança e formação de preferências. É claro que já existem consumidores com preferência definida pelo carro elétrico e até dispostos a pagar mais por ele. E há aqueles que preferem essa alternativa, mas não a preço maior. É nesse espaço que as políticas públicas podem interferir. Quanto mais consumidores entrarem nesse segmento do mercado, menor o tempo em que esses incentivos são necessários.

Outro mercado em rápida transformação é o de TI. A indústria está buscando aceleradamente soluções de eficiência energética para componentes – chips por exemplo – produtos e uso final. Uma grande empresa do setor já economiza 790 milhões de kWh por ano na sua operação no EUA. E usa uma cesta de soluções de energia renovável limpa que inclui eólica, solar, geotérmica, PCHs (pequenas hidrelétricas) de baixo impacto e biomassa.

Já está claro que a computação em nuvem permite reduzir as emissões, transferindo para terceiros tarefas que cada empresa – e até indivíduos – executam isoladamente, principalmente armazenagem de dados. A terceirização via nuvem ou virtualização economiza em equipamento e energia. Por outro lado, os centros de dados exigidos nesse processo são fortemente intensivos em energia. Nesse segmento são praticamente diários os avanços em economia de energia, envolvendo toda a cadeia, desde a fabricação dos componentes, aos equipamentos finais, até as instalações. Um dos elementos centrais é a redução nas necessidades de refrigeração e a limpeza das fontes de energia desses centros. Já há muitos casos de centros auto-suficientes em energia, que geram toda a eletricidade que consomem com painéis solares (fotovoltaicos) e usinas eólicas.

É claro que também neste segmento políticas públicas podem ajudar muito. De um lado, estabelecendo padrões cada vez mais exigentes de eficiência energética para os equipamentos. De outro, criando incentivos para a adoção dessas fontes alternativas de energia limpa. Outra área em que as políticas públicas podem ser fundamentais é na criação de possibilidades para soluções energéticas flexíveis, inteligentes e descentralizadas. No Brasil, por exemplo, a política praticamente matou a alternativa da autogeração. É preciso estimulá-la ao máximo, porém restrita a fontes alternativas limpas. No nosso caso, solar, eólica, biomassa e PCHs em determinadas áreas. O custo Brasil e o peso dos impostos, somados aos incentivos na direção errada, tornam a mudança ainda mais difícil entre nós.

Esse é um caminho sem retorno. A transição para esse tipo de soluções ainda está muito lenta por países e por setores. É uma preocupação, porque o relógio do clima não pára e as emissões de gases estufa não caem. Mas ela está sendo feita. E vai se acelerar nos próximos anos. Essa transição abre enormes oportunidades para quem tiver visão – empresas e países – e souber aproveitá-las. E gera riscos crescentes e fatais para quem não entender o que está se passando.

Sérgio Abranches, PhD, cientista político, é pesquisador independente sobre Ecopolítica, a relação entre o desenvolvimento econômico, o progresso social e o meio ambiente, com ênfase na mudança climática e na Amazônia. É autor de Copenhague: Antes e Depois, Civilização Brasileira, 2010, sobre a política global do clima. Este artigo foi publicado originalmente no Ecopolítica.

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