A conversa esquentou com meu sogro

“Você, jornalista, não pode acreditar neste ‘catastrofismo climático’ de projeções alarmistas!”

Ele quer uma neta. E deseja que chegue logo, com a cara da mãe.

– Já tem muito homem nesta família. Precisamos de mais beleza, graça e sensibilidade.

Sem cerimônias, elenca as recomendações para a futura criança:

– Ela vai crescer ouvindo os clássicos da música e da literatura internacional. Vai falar línguas desde cedo e frequentar museus e galerias de arte.

As sábias palavras são do meu sogro: homem de bem, de bom gosto e de personalidade forte. Com inteligência de sobra, comanda a conversa, discorda de tudo e dita as próprias verdades.

A bola da vez é o aquecimento global.

– Esses ambientalistas que você defende são uns imbecis! Ignoram a história da humanidade, os ciclos naturais da Terra, e se apossam de teorias fajutas de oportunistas, como Al Gore.

Quem disse que o suposto aquecimento global é resultado da ação humana?

Como não resisto a uma provocação, exponho meus humildes conhecimentos.

– Esta foi a conclusão a que chegou um dos maiores economistas do mundo, Nicholas Stern, em outubro de 2006, antes mesmo de Al Gore surgir na cena ambiental com o seu panfletário filme: “Uma verdade inconveniente”. Stern, ex-economista-chefe do Banco Mundial, demonstrou, por meio de um relatório de 700 páginas, que o acúmulo de gás carbônico é a principal causa do aquecimento terrrestre. Mais tarde, em 2007, cerca de 3.000 cientistas corroboraram a tese e publicaram o mais extenso e completo documento sobre as mudanças climáticas provocadas pelos gases de efeito estufa, o IPCC.

– Relatório manipulado para atender a grupos interessados nas polpudas quantias destinadas às pesquisas do clima!

– Nem todos os dados estão sob suspeita. E o relatório foi ratificado por quase toda a comunidade cientifica.

– Quem ousa desafiar a postura oficial é relegado ao ostracismo. Tem muito climatologista contrário à doutrina do aquecimento global sendo boicotado e impedido de publicar seus próprios trabalhos.

– Mas a meteorologia já aponta para um cenário devastador, que tende a piorar nas próximas décadas, caso não haja uma redução das emissões.

– Como eu posso acreditar que os modelos climáticos acertarão as previsões para daqui a 50 ou cem anos, se eles não conseguem dar conta de eventos de curto prazo?

Para uma moça do tempo, essa crítica é como uma facada… Mas tomo fôlego e continuo o debate.

– Em que dados você se baseia para contestar o relatório?

– Na “mea culpa” feita por cientistas do próprio IPCC, como o climatologista Phill Jones. Ele reconheceu que parte das informacões do relatório não passa de especulação sem base científica. E o pior: que nos últimos 15 anos o mundo não teve aquecimento algum. Mojib Latif, outro cientista da mesma cepa, acaba de desmentir a doutrina que defendeu por anos. Ao invés de aquecimento global, vamos ter resfriamento global causado por alterações cíclicas naturais nas correntes oceânicas e nas temperaturas do Atlântico Norte.

– Você acha que toneladas de CO2 lançadas todos os dias na atmosfera sobem impunemente? Tanta poluição não vai cobrar um preço? É natural retirar matéria orgânica das profundezas da terra, sedimentada em forma de petróleo, queimá-la e lançá-la pelos ares? Já temos 375 partes por milhão de CO2 na atmosfera.

– Em meados do século dezenove, quando mal se ouvia o barulho do motor, a concentração de CO2 chegou a superar 500 ppm. E há cerca de 35 milhões de anos, esse nível passou de 1000 ppm!!! E nós estamos aqui pra contar a história…Você, jornalista, não pode acreditar neste “catastrofismo climático” de projeções alarmistas!

É claro que uma fera como meu sogro, mestre pela FGV, com especialização em Standford, iria esgotar meus argumentos. O silêncio veio como um soco no estômago, seguido da inevitável dúvida:

– Será que fui ingênua o bastante pra me deixar envolver pelo discurso da moda?

Relembrei o dia em que comecei a estudar com mais afinco as mudanças climáticas, inspirada pela palestra do Al Gore na Oca do Ibirapuera; os congressos que frequentei, as entrevistas a que assisti; os fins de semana debruçada sobre livros e apostilas do curso de gestão ambiental… Será que fui iludida, que é tudo uma farsa? Um lobby perfeito da indústria verde?

A inquietação me acompanhou por dias e dias. E só perdeu sentido quando subi ao palco de um importante auditório em São Paulo para apresentar um evento da maior rede varejista do mundo. O Wal Mart anunciava o seu Pacto de Sustentabilidade. A rede, que até pouco tempo era conhecida pela falta de preocupação com o meio ambiente e com as condições de trabalho de seus funcionários, agora exibia uma ampla plataforma de projetos de responsabilidade econômica, social e ambiental.

Na esteira do Wal Mart, milhares de empresas dão o exemplo. E ainda que a motivação seja puramente capitalista, para obter vantagens competitivas, o fato é que a estratégia de negócios está reduzindo a sobrecarga sobre o planeta.

Essas companhias não esperaram para ver se há mesmo aquecimento global ou não; ou se o fenômeno decorre dos caprichos da natureza ou dos desmandos do ser humano…
A questão ficou pequena diante da maior urgência, que é a de preservar os recursos naturais para garantir a nossa sobrevivência e a das futuras gerações. Se mantido o ritmo atual de consumo, vamos precisar de dois planetas no ano de 2050, calcula o grupo conservacionista WWF.

Desejo que a neta do meu sogro frequente as aulas de balé e os concertos de música clássica, sem precisar usar máscaras de oxigênio no percurso até as academias. Que ela caminhe pela faixa de areia fina e branca da praia, não invadida pelo mar. Que ela tenha o prazer de admirar ipês, paus-ferro, pinheiros e jatobás.

E que seja tão inteligente quanto o avô para perceber que “há que se cuidar do broto, pra que a vida nos dê flor e fruto”!

Vai contestar, meu querido sogro?

*Rosana Jatobá é jornalista, graduada em Direito e Jornalismo pela Universidade Federal da Bahia, e mestranda em gestão e tecnologias ambietais da Universidade de São Paulo. Também apresenta a Previsão do Tempo no Jornal Nacional, da Rede Globo.

Se você quiser seguir o Akatu no Twitter, clique aqui.

Gostou da notícia? Compartilhe!
Ajude a disseminar o Consumo Consciente entre os seus amigos.
Compartilhe:
Leia mais: