Amazônias
A pesquisa nacional de opinião "O que os Brasileiros Pensam do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (MMA/ISER, DF, 1992, 1997, 2001 e 2006", já alertava uma década atrás que se não fosse noticiado pela televisão, dificilmente um fato político, econômico ou cultural sairia do circuito das elites e camadas que o vivenciavam diretamente, para entrar no "mapa cognitivo dos brasileiros". Para uma população que admite não ler jornais (53% em 2006) e que vê TV mais de 3 horas diárias (mais da metade), é preciso reconhecer: a televisão "faz a cabeça" do cidadão, e não só daquele cidadão "médio", não. Com o advento da televisão a cabo, todo mundo vê TV, inclusive a elite das elites. 98% da população declara informar- se pela TV (dados da mesma pesquisa).
Dito isto, ouso afirmar que desde os anos 70' quando o jornal televisivo (Globo Repórter, lembram, e Amaral Neto?) mostrava a Transamazônica como o caminho desbravador para o "inferno verde", não se via tantos brasileiros fascinados pelos mistérios, misticismos e realismos mágicos da nossa tão cantada e mal-conhecida Amazônia. Naquele tempo já quase mítico para os mais jovens, nos denominados "anos de chumbo" da ditadura militar, tratava-se de "integrar para não entregar', traduzindo a geopolítica da doutrina de segurança nacional militarista, e reagindo à idéia de que os estrangeiros cobiçavam a imensa e inexplorada riqueza da Amazônia. Até hoje essa idéia é encontrada na cabeça de muita gente que tem verdadeira aversão pelos missionários e militantes de ONGs internacionais que por lá andam, quase sempre defendendo os interesses dos pequeninos.
Junto com a estrada, abrindo sendas vermelhas em meio ao verde denso, a idéia era a de que ali estava um "vazio demográfico" que era necessário preencher, com os "excedentes de população". Naturalmente se referiam aos expulsos pelas secas do Nordeste que vinham em penca para São Paulo e Rio de Janeiro, e os que tinham sobrado da "reforma agrária" de então, que não conseguiu acabar com os latifúndios, mas ao contrário, colocou à disposição dos grileiros de todos os quilates quantidades de terras nunca dantes imaginadas. Indígenas "não aculturados", imagens televisivas dos nossos indigenistas destemidos na tela, e o medo da malária, completavam um quadro espectral de uma Amazônia selvática, longe de nós graças a Deus. Nós, cara pálida, eram e somos os descendentes dos nossos ancestrais, portugueses a maioria, que escolheram a costa para viver, e as cidades como forma de organizar sonhos de prosperidade e conforto.
Desde então, a Amazônia foi adquirindo no imaginário dos brasileiros e das elites globais uma série de facetas interessantes. Do equivocado status de "pulmão do mundo" ao atual -- região eleita como o fiel da balança na mudança do clima --, há lendas, lutas sociais concretas e bravatas mil. Mas sobretudo uma marca mundial que chancela programas governamentais, ações de ambientalistas, produtos vários de empresas, e uma enormidade de anseios dos locais, isto é, daqueles que realmente habitam a Amazônia, ou as amazônias, como gosta de sublinhar Bertha Becker, pesquisadora da UFRJ/RJ, especialista em assuntos amazônicos. Pois além de não lembrarmos que ela não é só nossa (A Colômbia e o Equador detém uma significativa parte de seu território), ela também não é homogênea ou habitada por um povo somente. Os paraenses não são iguais aos acreanos que por sua vez não são iguais aos amazonenses.
Culturas, estilos e histórias têm ali suas clivagens e essa fácil homogeneização (ou seria pasteurização?) é uma banalização do que realmente a região significa para si mesma, para nós o restante dos brasileiros, que nunca pusemos nossos pés lá, e para o mundo com o os seus pavores insuflados pelo fenômeno real e inexorável do aquecimento global.
Vocês sabem como nasceu a história, hoje cômica, de "pulmão do mundo"?
Lúcio Flávio, um jornalista da região conta que um outro jornalista entendeu mal a fala de um cientista que afirmara produzir a floresta 50% de dióxido de carbono. Ele entendeu oxigênio e lascou tal informação em matéria reproduzida pela Revista Realidade (em 1971), uma das mais notórias na época. O equívoco é bobo, mas colou no senso comum e há 20 anos ouço o professor emérito da USP e ambientalista Aziz Ab'Saber, dizer que aquela floresta é um sistema quase fechado, ou seja, pelo fenômeno da evapotranspiração, ela consome praticamente todo o oxigênio que produz. Em outras palavras, o grande valor da Amazônia, enquanto floresta em pé, é o seqüestro de carbono e a regulagem do clima. Sem falar na sua rica e pouco conhecida biodiversidade.
Sabe-se hoje que as chuvas em São Paulo dependem dos ciclos amazônicos. Aposto como os paulistas afligidos pelas inundações recentes, pensam que talvez seja melhor conhecer um pouco mais o que lá acontece. Essa hipótese é confirmada pelas pesquisas que coordenei nestes últimos anos. O principal problema ambiental reconhecido pelos brasileiros de todas as latitudes, é o desmatamento seguido de queimadas e contaminação da água (vejam a tabela abaixo). A pesquisa mostra ainda, que para os brasileiros, é a Amazônia o bioma mais ameaçado (quando na verdade, é a nossa Mata Atlântica juntamente com o Cerrado).
Do Oiapoque ao Chuí, estamos preocupados com o destino da Amazônia. Lá fora também. E os amazônidas, o que pensam disso? É sobre essa identidade amazônida, ou seja, sobre a amazonidade que desejo falar neste artigo.
As minhas observações sobre essa identidade reclamada pelos locais, em contraposição ao que seria o desejo do mundo, ou projeções exógenas, são baseadas em mais de uma centena de entrevistas que realizei com lideranças dessa região e de pesquisas recentes para o WWF/Brazil e para Natura, que a despeito de terem natureza institucional diferentes, lá atuam dentro do marco socioambiental. Só para lembrar, este marco conceitual prega o respeito à diversidade cultural, a valorização do conhecimento tradicional e a necessidade de se compreender a vocação biorregional.
Mas vamos por partes, em tão complexa abordagem. Mais do que nunca a nossa, a vossa Amazônia está na moda. Além dos "gringos" que lotam os aviões e que têm grana para hospedar-se em lodges no meio da mata, preocupam-se com ela cantores de rock, escritores, intelectuais de vários matizes. Muito bom, está na onda, está na tela. Meu filho diria "está bombando".
As fontes desse fascínio recente advém de três fontes de informação, por ordem de sucessão no tempo: a primeira se deve à realização da COP-8 no Brasil (Convenção da Diversidade Biológica, Curitiba, março de 2006). Neste encontro que teve ares de Rio-92, nosso governo teve que explicar, em manchetes mundiais, as taxas continuamente altas de desmatamento da região e mostrar seus planos para deter o binômio desmatamento/queimadas. Falou-se em um "Portugal por ano" desmatado. Além do desmate, quase todo ilegal, falou-se das emissões de CO2 e da qualidade do ar, na época das queimadas pior do que Cubatão. Quem já foi a Santarém, Marabá, sabe do que estou
falando: um céu permanentemente cinza escuro quase três meses por ano.
A esse esforço de chamar as autoridades para assumirem suas responsabilidades com o desmatamento, somou-se as ações radicais ou heróicas (conforme a visão do editor, ou do analista) como a do Greenpeace e Amigos da Terra, denunciando o avanço da fronteira agrícola em terras da Amazônia, principalmente o avanço da soja, destruidora dos solos, rasgando a terra para futuras pastagens. Qual o problema da soja? Aparentemente nenhum não fora a repetição do círculo vicioso de agriculturar grandes extensões de terras virgens, plantar monoculturas para a exportação, e depois de alguns anos abandonar os solos nitrogenados que vão engordar, na forma de pecuária extensiva um gado também para a exportação. Ótimo para os ciclos exportadores, péssimo para o meio ambiente, e ainda por cima perverso para com os habitantes locais e para com o planeta.
A segunda fonte de informação, quase simultânea à terceira, injeta ingredientes diferentes à imagem da região. Trata-se da série da TV Globo retratando através da saga do personagem Galvez, uma história mítica e ao mesmo tempo uma paródia realista, no sentido de desglamurizar os ciclos predatórios que se instalaram na Amazônia desde os "imperadores", donatários, salafrários, etc. que por lá chegaram. A mini-série propõe-se a falar de Galvez e Chico Mendes. Mas a estrutura do enredo é épica, e o herói dos seringueiros pertence já à categoria mítica. Infelizmente, pois muito suor e lágrimas em dramas diários se passam nos estados e localidades amazônicos. Muitas irmãs Doroty. A luta bruta contra o isolamento, falta de infra-estrutura, contra grileiros violentos e aventureiros de toda ordem acontece todos os dias, e as mais de 600 organizações da sociedade civil que fazem parte de duas das maiores coalizões (ou redes), chamadas FAOR (Fórum da Amazônia Oriental) e GTA (Grupo de Trabalho Amazônico) que o digam.
A terceira fonte de informação que jogou novamente a Amazônia nas manchetes nacionais e internacionais foi o Relatório do IPCC (Painel Internacional sobre Mudança Climática). Os anúncios de que o aquecimento global já está acontecendo e que os cenários mais pessimistas se mostram os mais realistas, fizeram de súbito com a que a questão amazônica fervesse de novo. Uma das razões é porque o Brasil, apesar de manter uma matriz energética "limpa" (graças às hidrelétricas demonizadas pelos
ambientalistas) se sai mal na foto quando se trata das emissões dos gases do efeito estufa. Estamos entre os maiores emissores, e a nossa quota fica quase toda por conta das queimadas na Amazônia. O restante deve-se à queima de combustíveis fósseis pelos carros nas cidades.
Essa alta exposição da Amazônia na mídia mais do que nunca contribui para que todos os grupos "pensadores do Brasil" formulem políticas e estratégias para a região. Queremos "salvar" a Amazônia, e com ela a nossa pele.
Como reagem os amazônidas a isso? Ouvindo mais de 150 líderes de diferentes segmentos (empresários, técnicos governamentais, lideranças sociais, cientistas e parlamentares), resumimos a seguir a espécie de perplexidade contraditória, mas lúcida, que anima aquela população insistentemente assolada por projetos de Brasil grande (militares), sustentável (ambientalistas), e patrimônio da humanidade (coalizão estranha, cada vez mais eficaz, do capital internacional com as autoridades/instituições que se ocupam da governabilidade global, onde a questão do clima é capital, sem trocadilhos).
A primeira manifestação da amazonidade foi a tentativa de contrapor à tese do "vazio geográfico" (anos 60' e 70') a afirmação de que lá havia uma população variada e interessante, miscigenada sim, autodenominada "povos da floresta" (anos 80' e 90'): seringueiros, extrativistas da castanha, do babaçu, ribeirinhos, comunidades pesqueiras, tribos indígenas abrigando várias etnias, um número nada desprezível de brasileiros -- nossos irmãos.
Gente que fala da terra onde vive com emoção e história, da água que é espantosamente abundante por lá, e que expressa ressentimento para com os "de fora", sentindo-se insultados com os que desejam transformar a Amazônia em um imenso parque ecológico de 3,5 milhões de km, condenando milhões à eterna pobreza. É muito fácil para nós decretarmos que a Amazônia não deve possuir hidrelétricas, dizem, pois no sudeste vocês não vivem o eterno racionamento de energia. É muito fácil falar que não desejam estradas, quando ficamos isolados boa parte do ano, com as cheias, quando para transportarmos um doente levamos vários dias em voadeiras precárias por rios e igarapés assoreados.
A segunda manifestação, forte, da amazonidade é quando falam na vocação econômica da região. Ninguém é contra, nem discorda da idéia de que a floresta em pé vale mais do que toras de madeira rapidamente consumida no sul e sudeste do País. Todos concordam com o valor inestimável da biodiversidade, dos serviços ambientais e de toda a mística que cerca a idéia da "hiléia amazônica". Mas os amazônidas pensam que qualquer projeto de desenvolvimento deve levar em conta a realidade multifacetada da região e as várias vocações que não podem ser resumidas em um projeto unitário ou totalitário, seja de direita ou de esquerda. Eles querem ser ouvidos.
A situação de um estado como o Amazonas que tem ainda quase 90% da sua cobertura vegetal intacta é bem diferente do Pará que não tem 30%. Por que não pecuária e agricultura nas terras já devastadas, nas campinas? Por que não extrair a grande riqueza mineral que lá jaz? Por que não incrementar o turismo cultural e ambiental? Os amazônidas querem resgatar essa multidimensionalidade da Amazônia e experimentar um ciclo de desenvolvimento econômico que não pode ser resumido no binômio reserva extrativista e agricultura familiar. Nada de isso ou aquilo, mas de isso e aquilo.
Reducionismo zero, zoneamento econômico-ecológico, por favor.
Por último, e simplesmente por uma questão de espaço não me estendo mais, a amazonidade reclama que reconheçamos suas dores e clamores. Os que lá vivem não querem ser romantizados em novelas, em festivais de "quarup"
mostrados como exotismo nas nets da vida. As quebradeiras de coco, trabalho pesado, exaustivo, não querem ser retratadas como uma comunidade idílica, de mulheres conformadas com a sorte. A amazonidade quer falar de si, e não que falemos dela, que inventemos sua persona. As mil caras da Amazônia estão todos os dias querendo fazer contato conosco. E morrendo de medo de que a marca "Amazônia", quase tão famosa hoje como a coca-cola sufoque uma identidade humana rica, tão valiosa quanto a própria floresta que desejamos preservar. Talvez todo brasileiro, ao invés de receber um diploma ao terminar o ensino médio, devesse receber uma passagem para conhecer a Amazônia. Talvez, a classe média deveria ir menos a Miami. Em vez de "to be o not to be", deveríamos comer pato ao tucupi.
* Samyra Crespo é historiadora, diretora executiva do ISER (Instituto de Estudos da Religião). É também vice-presidente do conselho do Greenpeace Brasil e presidente da RITS - Rede de Informações do Terceiro Setor. Atua no movimento ambientalista há 17 anos e coordena a pesquisa nacional mais importante sobre temas ambientais "O que os Brasileiros pensam do Meio Ambiente e do desenvolvimento Sustentável", desenvolvida conjuntamente pelo MMA e ISER, hoje na sua quarta edição.
