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Notícias do Akatu / Consumo Consciente
12/12/2007

Os perfis da vanguarda - Assista ao vídeo

Site do Akatu disponibiliza o vídeo do evento que debateu as tendências e os valores dos consumidores mais conscientes

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Numa manhã chuvosa e cinzenta, de trânsito intenso e caótico, a capital paulista foi palco de um encontro singular que reuniu importantes ícones da reflexão mais contemporânea sobre a escolha consciente do consumidor e a valorização de seu poder transformador da sociedade e de si mesmo.

Organizado pelo Instituto Akatu, em parceria com Editora Cultrix, Mercado Ético e Núcleo de Estudos do Futuro, com patrocínio do Banco Real ABN AMRO, Parceiro Pioneiro do Akatu, o evento teve como tema central a discussão dos valores que motivam o comportamento do consumidor consciente no Brasil. O evento realizado dia 24 de outubro, reuniu cerca de 90 pessoas no auditório da Livraria Cultura do conjunto Nacional, em São Paulo.

“O Consumo Consciente nasce de uma necessidade enorme do ser humano de voltar a se conectar com o melhor da vida – que é o afeto.”, afirmou Christina Carvalho Pinto, do Mercado Ético, definindo sua visão sobre o espírito do encontro.

Dialogos_Vicki_HelioA inspiração para o debate vem dos resultados da Pesquisa "Como e por que os brasileiros praticam o consumo consciente?", sétima edição de uma série realizada pelo Instituto Akatu para retratar o estágio em que se encontra a assimilação do consumo consciente no país. “A pesquisa no 7 detectou três sistemas de valores afins com o Consumo Consciente – a simplicidade voluntária, o pós-materialismo e o ambientalismo. São visões de mundo que tendem a ser mais valorizadas pelos mais comprometidos com o consumo consciente”, explicou Hélio Mattar, na abertura do evento.

Ainda segundo Hélio Mattar, a adesão a esses valores aumenta a probabilidade do cidadão incorporar o consumo consciente, pois dá significado à participação individual nos processos coletivos, inerentes a prática do consumo consciente.

Nessa sessão de debates, o pós-materialismo foi apresentado por Lia Diskin, co-fundadora da Associação Palas Athena e criadora de dezenas de programas culturais e sócio-educativos. Lia é também Coordenadora do Comitê Paulista para a Década de Paz - um programa da UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), além de ser escritora e conferencista internacional.

A reflexão sobre o ambientalismo, por sua vez, foi feita por Samyra Crespo, secretária executiva do ISER (Instituto de Estudos da Religião) e membro do Conselho Consultivo do Instituto Akatu. Samyra é também autora de vários livros e contribui regularmente com colunas assinadas para revistas especializadas no tema da sustentabilidade. “O que chamamos de ambientalismo, na verdade, é um amálgama de idéias que muito contribui para a consolidação do consumo consciente”, descreveu Samyra.

Por fim, a simplicidade voluntária foi apresentada por Vicki Robin, presidente da Associação New Road Map Foundation, sediada em Seattle, e líder do Simplicity Forum, aliança mundial de líderes pela promoção de ações sustentáveis. Após o evento, a escritora norte-americana, autografou seu último livro, intitulado “Dinheiro e Vida”, lançado no Brasil pela editora Cultrix. Já um best-seller nos Estados Unidos, o livro vendeu mais de 1 milhão de cópias e foi publicado em cerca de 12 países.

A seguir, conheça um pouco mais sobre cada uma das vertentes apresentadas no evento, e como elas podem contribuir para a compreensão dos caminhos e idéias que orientam os consumidores conscientes no nosso país.

Lia DisckinO pós-materialismo – Para Lia Diskin, as situações que enfrentamos na atualidade – como o aquecimento global, os excessos consumistas, entre outros – só poderão ser entendidas se analisarmos nosso passado biológico na Terra. “Onde estamos hoje é fruto de escolhas históricas”, define.

Lia explica que o ser humano passou a fazer parte do planeta  apenas muito recentemente na história da vida na Terra. Por isso, muitas vezes não consegue compreender que veio se juntar a um mundo biológico já formado, com suas próprias regras. Nossa espécie, pouco a pouco, se afastou dos conhecimentos sobre o funcionamento do mundo natural e acabou por ficar despreparada para enfrentar os desafios que nos esperam nesse cenário complexo. “Esquecemos a sabedoria da natureza e perdemos o contato com a fonte de conhecimento construído por ela em milhares de anos”, explica a pesquisadora.

A herança dessa separação entre o mundo natural e o cultural, nos remete às idéias de Platão, filósofo grego que diferenciou pela primeira vez o mundo das idéias do mundo material e da natureza.  O mundo material passa, a partir de então, a ser investigado e percebido apenas pelos nossos sentidos e analisado à luz da razão.

Assim, nossa visão de mundo, ou a cosmologia que marca uma cultura, se tornou um modo de organizar e praticar os valores intangíveis que dão sentido à vida e aos atos humanos. Dessa maneira, e por sermos capazes de pensar sobre nós mesmos e o mundo em que vivemos, passamos a tentar construir modelos que nos ajudem a compreender os mecanismos que regem os sistemas naturais e a organizar os indivíduos em sociedade.

Porém, existem dimensões que estão além de nossos sentidos puramente físicos – como tato, visão, olfato, audição e paladar – incluindo a dimensão cósmica que dá sentido a vida. “Estamos imersos num cenário em que a realidade das coisas apenas é percebida como sombra”, continua Lia. “Quando nomeamos as coisas, temos a ilusão de controlar a eterna mudança da vida”, afirma.

Segundo Lia, ainda existe muito que precisamos descobrir sobre nós mesmos. Nosso distanciamento da natureza, de certa maneira, pode ser visto como uma forma de minimizar o sentimento de insegurança da raça humana. “Não sabemos do que se trata a vida, por mais que a estejamos vivendo e analisando através da história. Estamos submersos em um grande mistério que nossa falha percepção pode estar pondo em risco”, termina Lia.

Samyra CrespoO Ambientalismo e o Consumo Consciente – Samyra Crespo baseou sua apresentação, de um lado, nos resultados da pesquisa “O Que os Brasileiros Pensam do Meio Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável”, que realiza desde 1999, e, de outro lado, na descrição da história do movimento ambientalista como a conhecemos hoje.

Segundo Samyra, o ambientalismo é um movimento histórico e social que tem início no século XVIII, quando os europeus descobrem o novo mundo, na época das grandes navegações. Foi quando surgiram as primeiras expedições naturalistas com o objetivo de conhecer a natureza e a cultura dos locais recém descobertos. “Essa é a semente do ambientalismo moderno”, descreve Samyra.

No momento seguinte dessa história, no século XIX, o homem começa a tentar controlar a natureza, vista como hostil. Em contraposição, nasce o conservacionismo, a idéia de manter intactas áreas naturais nos parques e reservas.

Já no século XX, o inconformismo do pós-guerra permite o nascimento de diversos movimentos de contracultura que se unem ao ambientalismo e formam sua feição atual. Na contracultura, estão presentes uma visão saudosista da natureza e a negação da sociedade de consumo, principalmente em países como os Estados Unidos e a Inglaterra.

Nos anos 70, emerge a percepção da crise ecológica, por meio dos efeitos nocivos da poluição. Nesse momento, a humanidade se dá conta de que os recursos naturais são finitos e surgem as bases para os conceitos que definem o ambientalismo contemporâneo em suas duas principais vertentes - o ambientalismo radical e o pragmático. Apesar de diferentes, os dois formatos têm objetivos e ações comuns.

Enquanto o ambientalismo radical tem uma visão holística da natureza e enxerga a raça humana como parte integrante dos sistemas naturais, o pragmático cultiva uma visão sistêmica e um pouco mais utilitarista do meio ambiente como instrumento para a produção de bens e serviços.

“As duas vertentes convergem para um entendimento comum de que é preciso compartilhar responsabilidades e valores e atuar de forma coesa para atingir os objetivos do ambientalismo como um todo”, esclarece Samyra.

A palestrante ressaltou ainda que apenas após 1992 a crise ecológica passa a ser vista com um fenômeno global e é nesse momento que os ambientalistas iniciam a discussão sobre a divisão das responsabilidades para a solução dos problemas ambientais planetários. É nessa fase também que tem início a discussão sobre o consumo consciente ou sustentável, definido pelos ambientalistas como a “necessidade de consumir menos, respeitando a capacidade dos sistemas naturais de assimilar e reciclar resíduos, de repor estoques e regenerar-se”.

“Na visão dos ambientalistas (seja no ambientalismo radical ou pragmático), a perspectiva é boa (para o planeta). Pois somos pessimistas no diagnóstico, mas otimistas na ação”, conclui Samyra.

Dialogos_Vicki_VickiSimplicidade Voluntária, mas com alegria de viver – Vicki Robbin, em sua terceira visita ao Brasil, abriu sua palestra declarando-se já “meio brasileira e muito feliz”, e mostrou que os valores que apresenta em seu livro são muito mais globais do que podem parecer à primeira vista.

Segundo a escritora norte-americana, simplicidade voluntária nada mais é do que “viver mais, com menos”. A idéia central do conceito foi traçada por Joe Dominguez, co-autor do livro lançado no evento, que questionou pela primeira vez incisivamente o modo de vida americano e o vício de comprar excessivamente. Segundo Vicki a cultura do consumo é o principal “produto de exportação” dos EUA.

Dominguez e Robin propõe um significado para o dinheiro e o tempo, considerando que o primeiro contém o segundo, uma vez que gastamos o tempo de nossas vidas para ganhá-lo. “A visão está centrada em perceber que o dinheiro deve trabalhar para nós e não o contrário”, explica Vicki.

Por isso recomenda que se analise quanto tempo e energia estamos investindo para ganhar dinheiro e avaliar se o retorno está valendo a pena. O mesmo raciocínio deve ser feito na hora de comprar. “Pergunte a você mesmo: vale a pena gastar este dinheiro considerando como é difícil ganhá-lo?”, analisa.

Segundo o raciocínio proposto na palestra, fazemos a maior parte de nossas atividades cotidianas de maneira involuntária e inconsciente, o que nos impede de fazer escolhas verdadeiras, pois apenas repetimos comportamentos aprendidos. “A idéia da simplicidade voluntária é exercer a vontade e fazer escolhas de forma consciente. Isso exige assumir responsabilidade por cada ação e conhecer nossos valores”, descreve Vicki.

Por isso, é preciso atingir buscar estímulos e compensações em nós mesmos e não por meio da aquisição de bens materiais. “Simplicidade Voluntária é conseguir o máximo de prazer em todas as situações. Não é anti-materialismo, mas bom-materialismo. Eu adoro minhas coisas, mas não vivo em função delas”, concluiu Vicki.