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Notícias / Qualidade de vida
21/01/2010

Paulistano quer melhor qualidade de vida em São Paulo

Pesquisa mostra que moradores estão contentes com seus relacionamentos pessoais e familiares, mas insatisfeitos com a vida em comum na cidade

Por Wilson Bispo, para o Instituto Akatu

Em comemoração aos seus 456 anos (em 25 de janeiro), São Paulo ganhou um índice que mede o bem-estar e a qualidade de vida das pessoas que moram na cidade: os Indicadores de Referência de Bem-Estar no Município (IRBEM), resultado de pesquisa encomendada ao Ibope pelo Movimento Nossa São Paulo (MNSP). “O objetivo quase único dos governos é melhorar a qualidade de vida e bem-estar da população. O IRBEM é uma ferramenta para saber a percepção da felicidade das pessoas hoje para podermos cobrar e melhorar a cada ano”, afirma Oded Grajew, um dos idealizadores do Nossa São Paulo.

O IRBEM é resultado de uma consulta pública com a participação de 36 mil pessoas, realizada entre junho e outubro de 2009. Foram escolhidos 174 itens divididos em 25 áreas, como acessibilidade, lazer, aparência da cidade, educação e saúde. Em dezembro, o Ibope foi às ruas para saber o grau de satisfação de cada item. Na média geral, o resultado não foi dos melhores: em uma nota de 1 a 10, os paulistanos avaliaram sua qualidade de vida em 4,8, e 57% da população deixaria a cidade se pudesse. Todos os indicadores baixaram em relação a 2008, e só 39 deles estão acima da média.

É interessante observar dois aspectos: O primeiro é que há pouca variação das notas gerais quando analisadas por região, mostrando que a insatisfação na qualidade de vida e bem-estar do paulistano independe de localização e classe social. O segundo é que os resultados mostram um nível maior de contentamento com aspectos relacionados à vida privada, como os relacionamentos pessoais e familiares. No que diz respeito à vida comum na cidade – como convivência solidária, pacífica e ética entre os cidadãos, condições ambientais e relação com poder público –, a pesquisa apontou insatisfação da população.

Os Indicadores também servirão de instrumento do Plano de Metas do município, lei que obriga o prefeito a divulgar um plano de governo detalhado em até 90 dias após assumir o cargo e a prestar contas à população a cada seis meses. “Os indicadores ajudarão saber se foram cumpridas ou não as metas e se elas são adequadas para melhorar a qualidade de vida da população pelo o que ela julga ser melhor. Vão servir também para cobrar a prefeitura, a câmara e até mesmo na escolha dos governantes”, analisa Oded Grajew.

Felicidade é importante para a sustentabilidade

Em várias partes do mundo, surgem iniciativas para avaliar o desenvolvimento e a melhoria de vida de uma população levando em conta não apenas o crescimento econômico, medido pelo Produto Interno Bruto (PIB). O IRBEM segue a tentativa de outros índices alternativos ao PIB para mensurar o desenvolvimento, incluindo nessa avaliação a felicidade das pessoas. “Fizemos uma espécie de relatório da comissão Stiglitz, um indicador FIB (Felicidade Interna Bruta) da cidade de São Paulo”, brinca Oded, lembrando dois desses importantes indicadores.

O PIB foi criado em meados de 1930 nos Estados Unidos e foi adotado em todo mundo depois da Segunda Guerra Mundial. Ele reflete o valor total da produção de bens e serviços em um país em um determinado período. Contudo, medir o desenvolvimento olhando somente o aspecto financeiro não reflete a qualidade de vida da população. Nos Estados Unidos, o PIB aumentou muito desde 1950, mas cresceram também os números de crimes violentos, pessoas deprimidas e de suicídio entre adolescentes.

O FIB foi criado no pequeno Butão, país situado aos pés da Cordilheira do Himalaia e é usado há mais de 30 anos para medir seu desenvolvimento. O índice envolve 73 variáveis que mais contribuem para a meta de atingir o bem-estar e a satisfação com a vida, como gestão equilibrada do tempo, vitalidade comunitária e acesso à cultura.

O relatório da comissão Stiglitz é um documento encomendado em 2008 – auge da crise econômica mundial – pelo presidente francês Nicolas Sarkozy e coordenado pelo ganhador do prêmio Nobel de Economia em 2001, Joseph Stiglitz. Dela também participam os economistas Amartya Sen, Nobel de Economia em 1998, e Jean-Paul Fitoussi. Dividido em três capítulos – Economia, Qualidade de Vida e Desenvolvimento Sustentável e Ambiente – o objetivo foi levar em conta coisas que o PIB não considera, como violência urbana, desastres ambientais e até mesmo engarrafamentos de tráfego.

Cidadania participativa

O Movimento Nossa São Paulo surgiu em 2007, inspirado no movimento da capital colombiana, Bogotá Como Vamos, que deixou de ser sinônimo de cidade dominada pelo tráfico de drogas, violência, poluição e corrupção para se transformar em parâmetro de qualidade de vida para as cidades latino-americanas. Para chegar a esse ponto, foi necessário transparência, planejamento, metas a serem alcançadas pelo setor público e participação da sociedade.

Assim como o Bogotá Como Vamos, o Nossa São Paulo traz o desafio de mobilizar os diversos segmentos da sociedade para participar do processo de construção de uma nova cidade baseado em três eixos: Programa de Indicadores e Metas, Educação, Mobilização e Acompanhamento do cidadão.

“É a cidadania participativa que faz as coisas melhorarem”, conclama Grajew. Para ele, a população participa pouco da vida da cidade. “A grande maioria não conhece a Câmara Municipal, muitas vezes nem lembra o nome do vereador que votou. Participação e pressão da sociedade são as armas da cidadania”, conclui.