Consumo é a chave para a sustentabilidade na Amazônia
Estudo de Ignacy Sachs propõe modelo não predatório de exploração da floresta e destaca a importância de conscientizar o consumidor
“Depende da mudança de hábitos de consumo e de estilo de vida a mudança de paradigmas para a sustentabilidade”. O alerta foi feito pelo ecossocioeconomista Ignacy Sachs no debate “Uma Outra Amazônia”, realizado em São Paulo. O evento marcou o lançamento do estudo Amazônia — Laboratório das Biocivilizações do Futuro, no qual Sachs discute a Amazônia sob o ponto de vista das oportunidades para o desenvolvimento de todo o país. Para acessar o estudo completo, clique aqui.
Polonês naturalizado francês, Sachs, que passou boa parte da vida no Brasil, é considerado um dos criadores do conceito de desenvolvimento sustentável. Durante a apresentação de seu estudo, foi categórico: “nós dependemos da Amazônia para viver”. A região não apenas oferece produtos consumidos diariamente pelo mundo afora, como soja transformada em ração para frangos ou porcos na Europa e na China, extratos de frutos e plantas contidos nos produtos cosméticos de grife ou madeira e carne presentes na mesa e na casa de todos. Ela também é produtora de serviços ambientais, pois é parte fundamental no equilíbrio do clima do país e responsável por grande parte das chuvas que caem no centro-oeste e no sudeste do país.
Para Sachs, a extração predatória de madeiras ou minérios, a pecuária extensiva, os cultivos de alto impacto ambiental e social, como o da soja, e a indústria poluente precisam de alternativas sustentáveis que considerem a população de 25 milhões de habitantes da Amazônia, muitos deles vivendo na miséria. São eles os responsáveis pela proteção e desenvolvimento de “uma outra Amazônia” para o mundo e toda a humanidade.
Sachs acredita no que ele chama de “revolução azul” como importante saída para o desenvolvimento local, que traz em si uma mudança importante de hábitos dos consumidores. “Passaríamos a ingerir peixes provenientes de piscicultura feita na biomassa aquática na Amazônia”, explica. Essa mudança de cardápio — sai o boi, entra o peixe — ajudaria a manter a floresta em pé, a preservar a água de rios e a reduzir as emissões de metano (um poderoso gás de efeito estufa) que o boi exala.
Brasil tem a responsabilidade de preservar a floresta
Segundo Sachs, a crise ambiental e o decorrente aquecimento do planeta marcam o fechamento de um “período historicamente determinado”, onde a Amazônia não se apresentaria nem como vilã nem como vítima da era dos combustíveis fósseis. Mas, poderia impor-se como a primeira manifestação das biocivilizações contemporâneas. “Cabe ao Brasil colocar a Amazônia na rota de desenvolvimento ambientalmente sustentável e socialmente includente, transformando-a num laboratório pioneiro das biocivilizações do futuro.”
A biocivilização proposta por Sachs, da qual o Brasil pode ser pioneiro e expoente, será baseada no uso da biomassa como fonte para suprir muitas necessidades das sociedades no futuro: alimentos, energia (como etanol e biodiesel), materiais de construção, fibras para confeccionar roupas, plásticos verdes, remédios e cosméticos. Para Sachs, o grande desafio é conscientizar o consumidor, “um dos pontos mais importantes e mais difíceis de se empreender” na busca por um modelo econômico mais sustentável.
Vale lembrar que recentemente o Instituto Akatu assinou os três pactos empresariais de controle das cadeias produtivas da madeira, da pecuária e da soja durante o evento “Conexões Sustentáveis: São Paulo — Amazônia”. O objetivo dos pactos é ter das empresas signatárias o compromisso de não financiar, produzir ou utilizar carne, soja e produtos madeireiros vindos de propriedades na Amazônia onde tenham sido cometidas infrações ambientais, ou que utilizem trabalho escravo. Assim, as empresas podem garantir ao consumidor que os produtos que ele compra não são fruto da exploração predatória da floresta.
