A vida além de um acordo em Copenhague
Não é preciso esperar pelos resultados da Conferência do Clima para combater as mudanças climáticas no dia-a-dia
Por Fátima Cardoso, do Instituto Akatu
A COP 15 ainda não chegou ao fim. Na verdade, a 15ª Conferência das Partes dos países membros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, o nome completo da reunião que está acontecendo em Copenhague, mal começou. E as negociações, nessas reuniões, só costumam esquentar na segunda semana.
Muitas esperanças vêm sendo colocadas sobre os resultados dessa conferência. Esperava-se que a COP 15 pudesse definir quais serão os compromissos dos países signatários da Convenção do Clima após 2012, quando terminará a primeira fase do Protocolo de Kioto. O Protocolo, criado em 1997, só entrou em vigor em 2005. De acordo com o Protocolo, os países industrializados deveriam reduzir suas emissões de gases de efeito estufa em 5,2%, em média, em relação aos níveis de 1990. E deveriam fazer isso entre 2008 e 2012. Os países emergentes, como Brasil, China e Índia, não tinham obrigações a cumprir.
Os emergentes e os mais pobres ficaram de fora porque, ao longo dos últimos 200 anos, os países desenvolvidos e industrializados, como Estados Unidos, Japão e os da Europa ocidental, foram os maiores responsáveis pela emissão dos gases de efeito estufa. O aumento da concentração desses gases na atmosfera é que tem levado ao aquecimento global e às mudanças climáticas.
Emergentes ultrapassam os ricos
Entretanto, nos últimos quinze anos, os países emergentes têm aumentado muito suas emissões de gases de efeito estufa. A China agora é a campeã mundial de emissões, tendo ultrapassado há pouco tempo o até então imbatível Estados Unidos. O Brasil ocupa atualmente um nada honroso quarto lugar entre os maiores emissores do planeta.
Seria simples decidir qual a obrigação de cada país se reduzir emissões de gases de efeito estufa fosse algo fácil, feito do dia para a noite. Não é, pois a causa do excesso de gases de efeito estufa na atmosfera é nosso estilo de vida. Esses gases são resultado, basicamente, da queima dos combustíveis fósseis (petróleo, carvão mineral e gás natural) para gerar energia, das atividades agropecuárias e do desmatamento. Quase tudo o que nos traz conforto, do automóvel à água gelada, tem um rastro de emissões no seu caminho.
Mas, as mudanças climáticas já estão batendo à nossa porta. Se não começarmos a reduzir as emissões agora, elas poderão trazer conseqüências desastrosas para o meio ambiente e, principalmente, para os seres humanos. O problema é que, após 2012, ninguém quer ser o primeiro a começar — ou, pelo menos, só quer começar a reduzir se todos os outros países que são grandes emissores, sejam ricos ou emergentes, começarem também.
Na solução deste impasse repousa a esperança dos que acreditam que a humanidade será capaz de evitar o desastre. Essa esperança moveu o ânimo e a voz dos que vêm há meses mobilizando as pessoas em todo o planeta, pressionando os líderes mundiais para que cheguem a acordos efetivos no combate às mudanças climáticas.
Cidadãos do mundo fazem ouvir suas vozes
Uma das mobilizações mundiais foi a campanha TckTckTck, que no Brasil recebeu o nome de TicTacTicTac, apoiada desde o início pelo Instituto Akatu. Veja aqui a reportagem sobre o lançamento da campanha e aqui o Dia da Ação pelo Clima, em 24 de outubro de 2009 — a maior ação política realizada em alcance mundial, em um único dia, em toda a história.
Na abertura da COP 15, no dia 7 de dezembro, jovens representantes da campanha TckTckTck entregaram a autoridades da Conferência o abaixo-assinado contendo 10 milhões de assinaturas recolhidas em todo o mundo, representando as pessoas de todo o planeta que esperam por um acordo efetivo.
No mesmo dia, em uma ação inédita liderada pelo jornal britânico The Guardian, 56 jornais de 44 diferentes países publicaram o mesmo editorial. No Brasil, o texto foi publicado pela Zero Hora, de Porto Alegre, e pelo Diário Catarinense, de Florianópolis. Esse foi mais um exemplo de mobilização de alcance planetário clamando por um acordo efetivo.
É provável, entretanto, que Copenhague não veja o nascimento do tal acordo efetivo — que vai além das palavras e tem força de lei, definindo metas de redução e prazos para cumpri-las. É bem possível que as negociações diplomáticas só arranquem dos líderes mundiais um acordo político, ou seja, o compromisso de acertar as metas e os prazos em outra ocasião. Talvez na COP 16, que será realizada no México, em 2010.
Seria então o fracasso, seria o fim da esperança de que conseguiremos evitar mudanças climáticas catastróficas? Talvez não. Como diz um trecho do editorial publicado nos 56 jornais, “muitos de nós, particularmente no mundo desenvolvido, terão de mudar seus estilos de vida. A era dos vôos que custam menos do que a corrida de táxi até o aeroporto está chegando ao fim. Teremos que comprar, comer e viajar de forma mais inteligente. Teremos de pagar mais pela nossa energia e usá-la menos”.
Em outras palavras, teremos de fazer, todos nós, mudanças em nosso estilo de vida. E, para isso, não é preciso esperar o final da COP 15, nem avaliar que tipo de acordo sairá dali.
Evitar as mudanças climáticas está ao alcance de suas mãos
É importante, é claro, que os líderes mundiais estabeleçam condições para que todos os países se desenvolvam usando fontes de energia mais limpas e menos emissoras de gases de efeito estufa. Mas, muito além do que for decidido em Copenhague, o combate às mudanças climáticas está ao alcance de cada pessoa, empresa ou instituição de qualquer lugar do planeta.
Como nosso estilo de vida é o principal motor do aquecimento global, cada um de nós é parte do problema e pode ser parte da solução. Cada um de nós pode parar, pensar e buscar outras alternativas aos nossos hábitos cotidianos — e que não significam sacrifícios nem privações, mas novas possibilidades que muitas vezes trarão benefícios às nossas vidas.
Veja nestas sugestões do Akatu como você pode contribuir para combater as mudanças climáticas mudando alguns hábitos e sua forma de consumir.
Diminuir o consumo de carne e leite de origem bovina
O que isso tem a ver...
Em seu processo de digestão, bois e vacas emitem metano, um gás 21 vezes mais poderoso que o gás carbônico em termos de efeito estufa. O que surpreende é que o impacto desse processo é maior do que a totalidade das emissões provocadas por todas as formas de transporte no mundo.
Que tal...
Repensar sua dieta substituindo a carne e derivados de leite de origem bovina por outras fontes de proteína, como grãos e outros tipos de carne? A produção de queijo e leite, por exemplo, provoca duas vezes mais emissões de gases de efeito estufa do que a produção de carne.
Saber de onde vem a carne
O que isso tem a ver...
A criação de gado na Amazônia é atualmente um dos principais indutores da devastação da floresta. E o desmatamento é a maior fonte de emissão de gases de efeito estufa no Brasil, responsável por 55% das emissões totais.
Que tal...
Procurar saber a origem da carne de boi que você consome? No supermercado ou no açougue, peça informações sobre a origem da carne, para evitar que o bife de seu prato ajude a desmatar a floresta amazônica. E dê preferência a comprar de empresas que afirmam selecionar fornecedores que não trabalham em áreas desmatadas ilegalmente.
Preferir produtos de madeira certificada
O que isso tem a ver...
A destruição das matas nativas é a maior fonte de emissão de gases de efeito estufa no Brasil. E quase toda madeira extraída ilegalmente é vendida no próprio mercado brasileiro.
Que tal...
Comprar apenas produtos feitos com madeira certificada, aqueles que têm o selo FSC, ou o de madeira de reflorestamento? Essa é a maneira mais segura de saber que você não está colaborando com o desmatamento ilegal ao comprar produtos de madeira.
Comprar produtos florestais sustentáveis
O que isso tem a ver...
Além de ser a principal causa de emissão de gases de efeito estufa no Brasil, o desmatamento ilegal, sobretudo na Amazônia, traz sérios prejuízos ao meio ambiente e à sociedade. Uma das formas de combatê-lo é criar alternativas de geração de emprego e renda para a população amazônica a partir do uso sustentável da floresta.
Que tal...
Comprar produtos feitos pelas comunidades que vivem na floresta Amazônica? É possível encontrar, mesmo nas grandes cidades, produtos como cestos ou óleos artesanais. Há opção também de escolher produtos industrializados, como chocolates ou produtos de beleza, que usem matéria-prima extraída da floresta de forma não predatória e em parceria com as comunidades locais.
Usar álcool combustível e andar menos de automóvel
O que isso tem a ver...
A queima dos combustíveis fósseis, como gasolina e diesel, é uma das causas do aquecimento global. Um carro pequeno a gasolina que roda trinta quilômetros por dia emite, em um ano, uma quantidade de gases de efeito estufa que precisaria de 9 árvores para ser absorvida.
Que tal...
Usar cada vez menos o automóvel e mais o transporte público, a bicicleta ou mesmo ir a pé? E, se você decidir comprar um carro, escolha um modelo com motor flex fuel, usando apenas o álcool como combustível. O álcool é produzido a partir da cana-de-açúcar que, em seu processo de crescimento, absorve gás carbônico e compensa cerca de 95% do que é emitido na queima do etanol nos motores.
Repensar o consumo de produtos
O que isso tem a ver...
A fabricação de qualquer produto envolve extração e processamento de matéria-prima, uso de água e de energia na produção, além do gasto de combustível no transporte até as lojas. Todos esses processos causam a emissão de gases de efeito estufa.
Que tal...
Repensar seu consumo antes de comprar um produto novo? Será que não dá para reaproveitar, usar por mais tempo ou procurar consertar o que está quebrado?
Saber quais empresas emitem menos gases de efeito estufa
O que isso tem a ver...
Muitas empresas estão procurando saber o volume de gases de efeito estufa emitido em seus processos de produção, seja nas fábricas, nos escritórios, na frota de distribuição e até mesmo nas viagens de avião de seus executivos.
Que tal...
Informar-se sobre quais empresas estão fazendo essa análise e adotando práticas para reduzir a emissão de dos gases de efeito estufa, e optar pelos produtos ou serviços dessas empresas? Você pode obter essas informações perguntando às próprias empresas, por meio do seu SAC, ou consultando seus sites. Várias empresas brasileiras, participantes da iniciativa Empresas pelo Clima, já divulgaram suas emissões.
Combater o desperdício
O que isso tem a ver...
Restos de comida compõem a maior parte do lixo produzido no país. Depositado nos lixões ou aterros, o lixo orgânico que apenas um brasileiro joga fora todos os dias emite, em um ano, um volume de gases de efeito estufa equivalente ao absorvido pelo crescimento de três árvores.
Que tal....
Evitar o desperdício de alimentos em sua casa com ações simples, como planejar as compras e reaproveitar as sobras? Cerca de um terço dos alimentos que os brasileiros compram vai parar no lixo. Se toda a população de São Paulo eliminasse esse desperdício durante um ano inteiro, seria evitada a emissão de um volume de gases de efeito estufa equivalente ao que 25.000 carros a gasolina emitiriam dando uma volta ao mundo a cada mês desse ano.
Separar lixo para reciclagem
O que isso tem a ver...
Deixar de jogar no lixo materiais como papel, plástico e alumínio, reciclando-os e usando-os como matéria-prima de novos produtos, é uma das ações mais importantes no Brasil para reduzir a emissão de gases de efeito estufa. Além de a tecnologia da reciclagem estar disponível, isso não trará custos, e sim economia de recursos.
Que tal...
Separar o lixo na sua casa e encaminhá-lo à reciclagem, incentivando a família, os amigos e os vizinhos a fazerem o mesmo? Se os brasileiros reciclassem 1/3 de todos os materiais recicláveis, a economia de energia elétrica na produção de matérias primas a partir de reciclados, e não de recursos naturais, seria suficiente para alimentar 10 milhões de casas com energia elétrica. O menor uso de energia elétrica nos processos industriais significa uma menor emissão de gases de efeito estufa. Procure também, quando possível, comprar produtos feitos com materiais reciclados ou recicláveis, ajudando assim a fortalecer esse mercado.
