Consumo Consciente

Educando para o consumo consciente: aprendizados

O que se busca é provocar um comportamento de consumo autônomo, prudente quanto a seus impactos e justo na distribuição de seus benefícios

Vivemos uma situação extremamente desigual ao consumo, visto que 16% da população do planeta, ou seja, cerca de 1 bilhão  de pessoas, são responsáveis por quase 80% do total consumido. Mesmo com tal concentração, já se consome 50% a mais de recursos naturais renováveis do que a Terra consegue repor ou regenerar. E com a entrada de 3 bilhões de novos consumidores no mercado de consumo de massa nos próximos 20 anos, precisaremos de cerca de 4,5 planetas para suprir todo o consumo se mantidos os padrões atuais. Portanto, é absolutamente urgente modificar essa situação e, para relembrar esse fato, foi criado o Dia do Consumo Consciente, promovido anualmente todo dia 15 de outubro.

Uma das principais propostas do Plano Nacional de Produção e Consumo Sustentáveis, elaborado pelo Ministério do Meio Ambiente em parceria com diversas organizações não governamentais e outros atores sociais para incentivar mudanças nos modelos insustentáveis de produção e consumo, é que a educação para o consumo consciente, principalmente de crianças e jovens, é um dos meios mais eficazes para promover a transição na cultura de consumo rumo a uma sociedade ambientalmente mais equilibrada e socialmente mais justa. 

Alguns princípios importantes devem orientar a atuação nessa área para que seja possível alcançar a escala e a velocidade indispensáveis para a transformação que se faz necessária. O Instituto Akatu trabalha com educação para o consumo consciente desde sua fundação, em 2001, e usou o aprendizado derivado dessa experiência como premissa fundamental para a criação do Edukatu (www.edukatu.org.br), uma rede de aprendizagem de professores e alunos para o consumo consciente e a sustentabilidade lançada em setembro último. E quais são elas?

  1. A forma de consumir se consolida em uma “cultura de consumo”, expressa em hábitos cotidianos, e, como tal, é aprendida na infância e reforçada ao longo da vida. Uma das formas mais eficazes para que as pessoas se disponham a consumir de forma diferente é que desenvolvam esses hábitos desde cedo, conhecendo os impactos do consumo sobre a vida em geral e acumulando repertório sobre formas distintas de consumir, reforçadas pelos novos comportamentos de consumo;
  2. Ao educar para o consumo consciente, educa-se para que as pessoas conheçam os impactos de seus atos de consumo sobre si próprias, sobre a sociedade e sobre o meio ambiente, e façam suas próprias escolhas de forma consciente. Isso exige uma metodologia de ensino que apoie o desenvolvimento da capacidade crítica da criança, e que leve em conta as influências do tempo, da cultura e da política na relação das pessoas com o meio onde vivem. É, portanto uma educação para a autonomia como um dos princípios fundamentais;
  3. As crianças são diferentes entre si e, por isso, é muito difícil pensar em esquemas de aprendizagem que sirvam igualmente para meninos e meninas de idades, escolas, regiões e culturas diferentes, e graus diferentes de assimilação do consumo consciente. Assim, é preciso criar e oferecer plataformas em que alunos e professores possam construir seus próprios caminhos de ensino e de aprendizagem, transformando também a criança em protagonista do processo de transformação do meio onde vive. Quando se percebe como tal, a criança passa a influenciar substancialmente as pessoas a seu redor, demandando mudanças no comportamento de seus pais, seus professores e seus pares;
  4. As tecnologias contemporâneas da informação e de comunicação possibilitam levar as ações educativas a uma escala e uma abrangência significativas, servindo como instrumento fundamental para a educação do século XXI. Ao mesmo tempo, devem ser pensadas como ferramentas de auxílio ao professor e possibilitadoras da interação, de uma forma colaborativa e não hierárquica;
  5. As possibilidades de prática do consumo consciente estão presentes nas escolhas de consumo no cotidiano das crianças e jovens e, por isso, geram interesse e permitem analisar resultados de forma quase imediata. Nesse sentido, fomentar a criação e desenvolvimento de projetos transdisciplinares, envolvendo a escola e a comunidade, é um excelente caminho para a disseminação do consumo consciente, com forte engajamento dos professores e alunos na busca de resultados concretos. 

Em resumo, o que se busca é provocar um comportamento de consumo autônomo, prudente quanto a seus impactos e justo na distribuição de seus benefícios. Essa filosofia vem sendo adotada pelo Akatu com excelentes resultados, evidenciando que a inovação é um pré-requisito básico para alcançar mudanças promissoras para a sociedade e a vida no planeta. Propostas como a do Edukatu, apesar de bastante ambiciosas, ou talvez por isso mesmo, têm um potencial muito grande para modificar, na prática, a relação entre a criança e o consumo, possibilitando caminhar na direção de um novo modelo de civilização em termos da forma de viver e do respeito aos recursos naturais e à humanidade. Assim, quem sabe em um futuro não muito distante, se possa transformar o Dia do Consumo Consciente em um dia de todos nós.

Helio Mattar, Ph.D. em engenharia industrial, é diretor-presidente do Instituto Akatu


Clique aqui para ler o artigo original, editado e publicado na edição de 23/10/2013 pelo Correio Braziliense.

 

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